Lúcio Lara: Elogio Fúnebre do Comité Central do MPLA

(MPLA)

O documento foi lido, quarta-feira (02), no Cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda, pelo vice-presidente do Partido, camarada Roberto Almeida, na presença do Presidente do MPLA e da República de Angola, Camarada José Eduardo dos Santos e de centenas de pessoas, que acompanharam o abnegado dirigente, até a sua última morada.

Luanda, 2 MARÇO 16 (4ª FEIRA) – No enterro dos restos mortais do Grande Nacionalista, Patriota e Militante Consequente do MPLA, Camarada Lúcio Rodrigo Leite Barreto de Lara, que teve como nome de guerra “Tchiweka , o vice-presidente do Partido, Roberto de Almeida, leu, em nome do CC, o seguinte Elogio Fúnebre:

SUA EXCELÊNCIA JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS, PRESIDENTE DO MPLA E DA REPÚBLICA DE ANGOLA

EXCELÊNCIA DRA ANA PAULA DOS SANTOS, PRIMEIRA DAMA DA REPÚBLICA

SUA EXCELÊNCIA MANUEL VICENTE, VICE PRESIDENTE DA REPÚBLICA

SUA EXCELÊNCIA FERNANDO DA PIEDADE DIAS DOS SANTOS “NANDÓ”, PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA NACIONAL

SUAS EXCELÊNCIAS VENERADOS PRESIDENTES DOS TRIBUNAIS SUPREMO, CONSTITUCIONAL E DE CONTAS

SUA EXCELÊNCIA JULIÃO MATEUS PAULO “DINO MATROSS”, SECRETARIO GERAL DO MPLA

EXCELENTÍSSIMOS CAMARADAS MEMBROS DA DIRECÇÃO DO MPLA

SENHORAS DEPUTADAS E SENHORES DEPUTADOS

EXCELÊNCIA, PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA

EXCELENTÍSSIMOS SENHORES MEMBROS DO EXECUTIVO

DIGNÍSSIMOS MEMBROS DO CORPO DIPLOMÁTICO ACREDITADO NA REPÚBLICA DE ANGOLA

EXCELENTÍSSIMOS FUNCIONÁRIOS DO MPLA

QUERIDOS FAMILIARES DO MALOGRADO LÚCIO LARA

EXCELÊNCIAS

MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES

Estamos aqui, hoje, familiares, companheiros e amigos de longa data, militantes do MPLA e das suas Organizações Sociais e Associadas, distintas entidades públicas e da sociedade civil, profundamente consternados para acompanharmos à última morada o Grande Nacionalista, Patriota e Militante Consequente do MPLA, Camarada Lúcio Rodrigo Leite Barreto de Lara, que teve como nome de guerra “Tchiweka”.

MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES,

Cremos não existirem palavras que retratem, com a fidelidade que se impõe, a grandeza incomensurável do camarada Lúcio Lara, um ícone da luta de libertação nacional pela Independência e autodeterminação do povo angolano. Com o seu desaparecimento, o MPLA e a nação perdem um pilar da sua gesta heróica e generosa.

O camarada Lúcio Lara, filho de Lúcio Gouveia Barreto de Lara e de Clementina Leite Barreto de Lara, nasceu a 9 de Abril de 1929, na cidade do Huambo. Fez os seus estudos primários, secundários e universitários, no Huambo, Lubango, Lisboa e Coimbra, respectivamente.

O Camarada Lúcio Lara foi professor do ensino secundário, leccionando as disciplinas de matemática, física e química na Guiné-Conacri e em Portugal, onde a partir de 1949 participou em actividades patrióticas na Casa dos Estudantes do Império, de que foi dirigente em Coimbra, sob presidência do Saudoso Dr. António Agostinho Neto, com quem também formou o primeiro núcleo clandestino, antes da fundação do MPLA.

Com Agostinho Neto, Humberto Machado, Zito Van-Dúnem e outros patriotas angolanos e de outras colónias portuguesas em África, fundou o Clube Marítimo Africano, que era a capa para as actividades nacionalistas.

O camarada Lúcio Lara foi também co-fundador do Movimento Anti-Colonial (MAC), precursor do MPLA, que agrupou patriotas de todas as colónias portuguesas de então, nomeadamente Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Noémia de Sousa e Mário Pinto de Andrade. Em 1956, é cooptado para o efémero Partido Comunista Angolano.

O Camarada Lúcio Lara é co-fundador do MPLA, cujo manifesto foi divulgado em Luanda, a 10 de Dezembro de 1956.

O seu alto sentido patriótico, senso de justiça e repulsa pelo regime fascista colonial português, que reprimia os angolanos na sua própria terra, colocaram-no na lista negra da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). Assim, em Março de 1959, foge de Portugal, passando sucessivamente, pela então República Federal Alemã e República Democrática Alemã. Posteriormente, instalou-se em Accra, capital do Ghana, mantendo aí contactos com o Centro de Libertação Africana.

Firmemente empenhado na luta pela liberdade do seu povo, participou igualmente no segundo Congresso dos Escritores e Artistas Negros, em Abril de 1959 em Roma, estabelecendo contactos com o FLN argelino através de Franz Fanon, com quem planifica a preparação do primeiro grupo angolano de guerrilha.

Em Janeiro de 1960 chefiou a delegação do MAC (que mais tarde se transformou em Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional – FRAIN) à Conferência Panafricana de Túnis, onde consegue autorização para o MPLA e o PAIGC instalarem, na Guine-Conakry, pela primeira vez no exterior, os seus escritórios. Após a conferência, deslocou-se a Casablanca a convite de Mahjoub Seddick, Líder da União Marroquina do Trabalho, de onde segue para Conakry.

O Camarada Lúcio Lara integra em Conakry o primeiro Comité Director do MPLA, com as funções de responsável da Organização e Quadros.

Em Conakry, Accra, Rabat e Argel participou em diferentes actividades relacionadas com a luta de libertação e em Brazzaville mantém contacto com o Camarada Manuel Pedro Pacavira, enviado do Presidente Neto, em Maio de 1960.

Em Julho de 1962 recebeu o Saudoso Presidente Neto, em Conakry, após a evasão deste de Portugal, sendo, posteriormente, chamado para Leopoldiville no quadro da preparação da 1º Conferência Nacional, em Dezembro de 1962, na qual é eleito membro do Comité Director do MPLA.

Nos anos de 1962/63/64 realizou um intenso trabalho de organização nos Congos para o desenvolvimento da 1ª e 2ª Regiões político-militares do MPLA.

Assistiu à eclosão da Revolução das Três Gloriosas Jornadas de Agosto de 1960, no Congo Brazzaville, onde se instalou o Comité Director do MPLA, o seu novo quartel-general.

Participou na Conferência de Quadros realizada em Brazzaville, em Janeiro de 1964, que abordou a crise criada com a expulsão do MPLA de Leopoldville.

Em 1965 foi nomeado Comissário Político nacional, membro da Comissão Militar do MPLA e da Comissão Militar Especial, de apoio à 1ª Região Político-militar.

De 1964 a 1969 desenvolveu actividades no Congo, na frente de Cabinda, frequentou um curso militar expedito em Moscovo e, participou em diversas actividades de carácter internacional.

Em 1969/72 o Camarada Lúcio Lara foi para a 3ª Região, onde ocupou várias funções, sendo depois foi responsável da 2ª Região, em Cabinda.

É de realçar que dentro da estratégia do então Movimento, o Camarada Lúcio Lara desenvolveu o Departamento de Educação e Cultura, promovendo, com uma equipa de professores, uma larga colecção de livros escolares.

Neste período integrou delegações presidenciais que visitaram a China, a Coreia, do Norte, o Vietname, a ex URSS, a Bulgária, a Roménia e a Jugoslávia.

Fez parte da delegação que participou em 1970 na Conferência de Roma de apoio ao MPLA, Frelimo e PAIGC e acompanhou o Presidente Neto às exéquias de Amílcar Cabral, em Conakry

Dadas as suas capacidades e habilidades diplomáticas, participou nas conversações de Kinshasa para os acordos com a FNLA, em Dezembro de 1972, bem como na 10ª Cimeira da OUA, em Addis-Abeba.

Em Agosto de 1974, participou, com o presidente Agostinho Neto, em Brazaville, na Conferência dos Países do Centro e Leste Africano que procurou remediar o insucesso do pseudo congresso de Lusaka.

Neste mesmo ano é eleito membro do Comité Central do MPLA na Conferência Inter-regional no Lundoji e participa na assinatura do cessar fogo com Portugal, nas chanas do Lunyameje.

Na sequência do derrube do regime fascista português, a 8 de Novembro de 1974, chefia a histórica primeira delegação do MPLA, recebida em apoteose em Luanda, por uma imensa multidão que se identificava com os ideias do Movimento, iniciando-se assim, um grande e exitoso esforço de implantação do MPLA em todo o território nacional.

O histórico acontecimento paralisou Luanda. Quando a aeronave da Zâmbia Airways se fez a pista, no aeroporto de Luanda, então designado de Belas, a população rompeu as barreiras e invadiu a placa, ansiosa e entusiástica, para saudar os guerrilheiros, “os irmãos cambutas”, como também eram chamados.

A epopeia, em termos de mobilização e adesão, só seria superada com a chegada do Presidente do MPLA, Dr. António Agostinho Neto, no dia 4 de Fevereiro de 1975.

Nos anos subsequentes, o Camarada Lara, intrépido defensor dos ideais do MPLA, trabalhou, incansavelmente, na mobilização dos diferentes sectores da sociedade angolana, para o reforço das suas fileiras e, para um enraizamento cada vez maior do Partido no seio do Povo.

Em 1955, o Camarada Lara contraiu matrimónio com Ruth Manuela Pfluger Rosemberg Lara, com quem teve 3 filhos – o Paulo, a Vanda e o Bruno, tendo com ela vivido até o seu desaparecimento físico em 20 de Outubro de 2000. O sentido solidário e humanitário do casal, levou-o a adoptarem outros filhos que cuidaram e amaram, não obstante as dificuldades em que viviam.

Em 1959, Ruth e Lúcio Lara foram os padrinhos de casamento de Maria Eugénia e Agostinho Neto, antigo companheiro da Casa dos Estudantes do Império, com o qual teceram uma amizade indestrutível.

Pela posição de destaque que ocupava no aparelho central do MPLA, então Movimento, na sequência da proclamação da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975, investiu, em nome do Comité Central e de todos os patriotas angolanos, o Camarada António Agostinho Neto, nas funções de Presidente da República Popular de Angola.

Com o desaparecimento físico do Fundador da Nação Angolana, Dr. António Agostinho Neto, coube, igualmente, ao Camarada Lara a honra de empossar o Camarada José Eduardo dos Santos, como Presidente de Angola, a 21 de Setembro de 1979.

A 10 de Dezembro de 1977 é eleito membro do Comité Central do MPLA Partido do Trabalho, no 1ª Congresso do MPLA, sendo posteriormente eleito membro do Bureau Político e do Secretariado do Comité Central, para a organização, tendo, também, desempenhado, interinamente, as funções de Secretário para o sector ideológico.

Em Janeiro de 1980, foi eleito presidente do Conselho Intergovernamental da Pana (Agência Pana-africana de notícias), cargo que exerceu durante 5 anos.

No mesmo ano foi eleito Deputado à Assembleia do Povo, pela província do Moxico, e eleito para a sua Comissão Permanente. Em Março de 1986 assume as funções de 1º Secretário da Assembleia do Povo.

No 1º Congresso Extraordinário do MPLA Partido Trabalho, em 1980, é reeleito membro do Comité Central, do Bureau Político e Secretário para a Organização.

Na qualidade de Secretário do Comité Central em 1983/85, foi designado responsável pelos programas de emergência do Café e da Saúde.

A história jamais esquecerá a sua indelével ligação às jovens gerações, para quem deixa um grande legado, e, particularmente, o seu profundo amor pelas crianças, em relação às quais, através da OPA-Organização dos Pioneiros de Agostinho Neto, não descurou o apelo para a sua educação integral, dando destaque à necessidade de se cuidar, com intensidade, da educação patriótica, absorvendo os ensinamentos da história do MPLA e o exemplo do Guia Imortal Agostinho Neto.

O Camarada Lúcio Lara foi, sem dúvida, uma referência de humildade, de modéstia, não só pela sua forma de se apresentar e estar, como também pela sua entrega à causa do povo, amor à Pátria e ao próximo, valores que perseguiu na sua vida com indubitável verticalidade e determinação.

O Internacionalismo, princípio programático da luta do MPLA, constituiu também uma preocupação latente na gestão partidária e, sobretudo, na educação dos jovens.

Neste capítulo, o Camarada Lara dedicou especial atenção a ligação e trabalho com os jovens e crianças de outros pontos do mundo, através da participação nos Acampamentos de Pioneiros e do Movimento Juvenil e Estudantil Internacional.

Em reconhecimento às suas distintas qualidades de militante, nacionalista e combatente pela liberdade e democracia, o Camarada Lúcio Lara mereceu condecorações no País e no estrangeiro.

A nível do Partido, foram-lhe outorgadas a

Medalha dos 50 anos do MPLA, a Medalha dos 55 anos do MPLA e a Medalha 10 de Dezembro, o mais alto galardão do Sistema de Distinções do Partido que ajudou a fundar, atribuído a personalidades que, de forma abnegada e reiterada, tenham contribuído, por mais de 40 anos, para a prossecução dos objectivos do MPLA.

MINHAS SENHORAS, MEUS SENHORES

CAMARADAS:

Esta é a derradeira e sentida homenagem:

Ao menino do Huambo

Ao estudante de ciências Físico-químicas

Ao líder juvenil da Casa dos Estudantes do Império

Ao político forjado na clandestinidade

Ao patriota convicto, de uma verticalidade ímpar

Ao intelectual revolucionário

Ao guerrilheiro irrepreensível das chanas do leste

Ao diplomata hábil na conquista de apoio aos ideais do MPLA

Ao chefe de família dedicado

Ao pai exemplar, cuja postura sempre orgulhou os seus descendentes

Ao companheiro e amigo

Ao nosso Tchiweka, nome que adoptou em homenagem a Sua inditosa mãe.

Despedimo-nos hoje de um nacionalista da primeira hora, que ajudou a desbravar os tortuosos caminhos que os angolanos trilharam, com confiança e determinação, por isso, merecedor do título de precursor da Independência Nacional.

CAMARADA LÚCIO LARA

Com o peito a transbordar de mágoa, relutantes em aceitar a crueldade da morte que retirou esta relíquia do nosso convívio, eis-nos aqui, prostrados em tua homenagem, cientes de que os grandes como Tu, permanecem eternamente nos nossos corações e na memória colectiva .

No momento em que nos despedimos dignamente de Ti, heróico combatente e militante incondicional, o MPLA e o povo angolano rendem profunda homenagem à Tua memória e, com a Bandeira estendida sobre o féretro em que repousam os Teus restos mortais, gritamos em uníssono.

CAMARADA LÚCIO LARA, PRESENTE

ADEUS, CAMARADA LARA

ATÉ SEMPRE!

O COMITÉ CENTRAL DO MPLA, aos 2 de Março de 2016

PortalMPLA/Sede Nacional do Partido

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