Keith Emerson, e a dignidade do progressivo

Keith Emerson (YAHOO)

Em sua banda anterior ao Emerson Lake & Palmer, o Nice, Keith Emerson já trabalhava com os mesmo ingredientes – mas a receita, ainda que inspirada, parecia não ser bombástica. Era basicamente uma convergência de elementos da música clássica e do rock, filtrada por uma fluência saborosa que vinha do jazz. Ele não estava sozinho nessa: no final da década de 1960, bandas inglesas como o Moody Blues e o Procol Harum, o Ekseption na Holanda e o Wallace Collection na Bélgica andavam na mesma pista.

Isso ainda que desde o início Emerson tivesse um viés menos pop. Todos esses grupos, excepto o Ekseption, tiveram hits que o Nice não teve. Hits que também não são de se estranhar, posto que todas de certa forma são filhotes de George Martin, que convenceu Paul McCartney a deixar colocar um quarteto de cordas em sua balada de voz e violão, “Yesterday”, em 1965. O próprio Serge Gainsbourg andou fazendo uso maroto (e bem sucedido) de Chopin.

Só que Emerson não parecia interessado em fazer um som “lounge”, digestivo. Pelo contrário, sempre trabalhou com um certo componente de agressividade conceitual, e principalmente cénica. Com o convite a Greg Lake (voz e baixo, ex-King Crimson) e Carl Palmer (bateria, ex-Crazy World Of Arthur Brown e Atomic Rooster) pretendia formar uma banda pequena, coeso e ágil, mas de som enorme. O show de estreia do ELP na Ilha de Wight, em 1970, chamou a atenção pelo espancamento do órgão Hammond, que é socado e derrubado – e também porque eram disparados canhões.

Mas o fato é que o som da banda já era bem redondo e resolvido. Aqui neste link um número do esfaqueamento do teclado, no ano seguinte. Não que tudo isso fosse necessário – o outro grande extractor de sonoridades esquisitas do órgão na mesma época, Mike Ratledge, do Soft Machine, também foi influenciado por Hendrix, mas mais no sentido do processamento do som do que no da destruição ritual dos instrumentos.

Esse aspecto fanfarrão de Emerson foi alvo de um certo mal-humor crítico. O radialista John Peel achou a apresentação em Wight excessiva (“um desperdício de talento e de electricidade”, ele disse). E esse tipo de restrição aos efeitos de gosto incerto e à megalomania passou a acompanhar a banda para sempre. É curioso que outros excessos cénicos da década, como os do Pink Floyd, fossem considerados válidos. (Mas eu também entendo que o porco voador de “Animals”, por exemplo, tivesse mais amarração narrativa do que coisas como esses inexplicáveis canhões).

Acontece que Emerson também era pleno de: a) conteúdo musical; b) destreza instrumental. Eu ia escrever “virtuosismo”, mas acho que destreza descreve melhor. Porque essa inquietação que produzia efeitos cénicos patetas também o afastava das zonas de conforto, inclusive a da “excelência de execução” (ainda que essa estivesse sempre e inegavelmente lá). Afastava da zona de conforto, inclusive a ergonómica: Emerson posicionava os teclados no palco de tal forma que chegava a tocar em posição de crucificado, com um braço estendido para cada lado, sem olhar para nenhum deles.

E aí chegamos a um aspecto interessante da estética (e da ética) dele: o embate com a máquina. Assim que viu a foto de capa e ouviu um exemplar de Switched On Bach de Walter Carlos, em 1969, Emerson sabia o que queria: um sintetizador Moog. Testou um em concerto nos tempos do Nice, e finalmente comprou seu próprio Moog modular para usar no novo trio. Assim, aos talentos de pianista de formação e de organista fluentíssimo, somou sua aventura no terreno dos timbres sintéticos, dos quais foi um popularizador. Foi o primeiro músico a excursionar com um sintetizador monofónico, analógico e enorme (o que era pouco prático mas, para ele, cenicamente atraente). (YAHOO)

por Alex Antunes

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