José Eduardo dos Santos vai condicionar escolha do seu sucessor

(Foto: D.R.)

Analistas não prevêem solução conflitual para o poder em Angola, mas destacam os desafios enormes: abertura do regime e diversificação da economia.

A decisão do presidente José Eduardo dos Santos de sair da cena política angolana parece ter apanhado de surpresa tanto o próprio partido, o MPLA, como os observadores internacionais, mas o ex-embaixador Francisco Seixas da Costa não tem dúvidas: “O sucessor de Eduardo dos Santos será quem Eduardo dos Santos quiser”, afirmou ao Económico.

Profundo conhecedor da sociedade daquele país africano – ali viveu durante os anos de aço da guerra civil – Seixas da Costa afirma que, de qualquer modo, a sucessão do ‘velho’ presidente será pacífica: “não há qualquer hipótese de instabilidade por via militar; Eduardo dos Santos soube criar uma espécie de interesse colectivo – entre a economia, os militares e os interesses gerais – numa saída não conflitual” para a sucessão.

Apesar de, na sua óptica, “ainda não ser claro o modo como será a saída de Eduardo dos Santos”, Seixas da Costa considera que “o presidente deverá monitorizar a sucessão em 2017 e abandonar o MPLA em 2018” e, para além de pacífica, “tentará uma solução estável”.

Num quadro, recorda, “em que a democracia angolana não tem mais de 14 anos e que, por isso, não deve ser comparada com as democracias da Holanda ou da Suécia, mas sim com as da Nigéria ou da República do Congo”.

Já Miguel Monjardino, especialista em assuntos internacionais – “mas não particularmente de Angola”, recorda – afirmou ao Económico que a Angola pós-Eduardo dos Santos deverá escolher aquilo a que chamou “a solução chinesa”. Ou seja: “o partido do poder, o MPLA, deverá arranjar uma forma de se manter no poder”, mesmo que para isso tenha de ‘travestir’ a cena política com um novo enquadramento. Que, na sua óptica, poderá passar por uma maior abertura do regime, mas também por uma profunda alteração da envolvente: “o ciclo energético está a criar enormes problemas a Angola, como a outros países que hesitaram em proceder a reformas económicas por não as considerarem necessárias”.

O problema é que o paradigma da “’mono-cultura’ do petróleo”, como a caracterizou Seixas da Costa, parece estar em profunda reconversão: com o preço do barril a estabilizar nos 40 dólares (e a não dar mostras de conseguir recuperar sequer até ao mínimos de 70 dólares, aceitáveis para a maioria dos países produtores), a sobrevivência económica baseada exclusivamente na sua extracção parece ter os dias contados.

Num quadro em que os agentes económicos serão chamados a diversificar a raiz macro-económica do país, “seria normal haver mais pluralismo político”, diz Miguel Monjardino, mas aquele especialista têm dúvidas que Angola siga esse caminho.

Para além da alteração do paradigma energético, Monjardino chama a atenção para outro factor que vai condicionar em muito as sociedades africanas: “o crescimento demográfico, que em África é o mais forte do planeta”.

Genericamente, “as populações novas estão associadas ao aumento dos conflitos políticos” nos países onde as liberdades individuais não estão consolidadas. “Acresce ainda a isto a crescente urbanização da sociedade”, outro factor de conflito. Resta saber como o novo poder angolano pós-Eduardo dos Santos vai gerir todas estas novidades.

O delfim Manuel Vicente?
Carlos Monjardino, presidente da Fundação Oriente, vai no mesmo sentido de Seixas da Costa: “se calhar, Eduardo dos Santos já escolheu um delfim”. A ser assim, o nome para que todos apontam é Manuel Vicente. Desde logo porque é vice-presidente, o que o coloca na primeira fila da sucessão. Depois porque, ao contrário do que acontece com a quase totalidade da oligarquia próxima do poder, não é um militar – o que pode ser importante para que o país feche definitivamente o ciclo da guerra (que começou em 1961 e só desapareceu em 2002).

Nome por estes dias muito falado na imprensa portuguesa – pelas suas ligações ao procurador Orlando Figueira, acusado de corrupção – Manuel Vicente “é um homem muito capaz”, disse Carlos Monjardino ao Económico.

Com fortes ligações ao ‘sustento’ do país (foi presidente da Sonangol até Janeiro de 2012) Manuel Vicente deixou a petrolífera para assumir a chefia do Ministério de Estado e da Coordenação Económica (já extinto) antes de chegar à vice-presidência.

Ou seja: tem profundo conhecimento dos ‘dossiers’ mais sensíveis do país, mas também uma projecção e experiência internacionais que o colocam noutro patamar em relação à eventual ‘concorrência’.

“Não consigo ter ideia se [as notícias da ligação entre Manuel Vicente e o procurador Orlando Figueira] têm ou não impacto na sua credibilidade interna”, afirma Seixas da Costa – mas, para já, é um sucessor natural de Eduardo dos Santos.  (diarioeconomico)

Por: António Freitas de Sousa

 

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