Jornadas de trabalho voluntário no combate ao lixo de Luanda

(REUTERS)

No último sábado em Luanda provou-se que sai mais barato apelar à consciência das pessoas para a importância da higiene. Provou-se que é possível levar às pessoas a mensagem amiga do ser social, do dever e do fazer. A partir desse exemplo, prova-se que é possível fazer outras coisas, para combatermos a crise que nos corrói a alma e nos tem já levado à morte silenciosa e dolorosa. No sábado de manhã, cumpriu-se aquilo que diz o cantor e poeta brasileiro, Chico Buarque de Hollanda: “Mirem-se no exemplo das mulheres de Atenas”, acrescentando nós que a partir daí, Luanda fica mais limpa e mais bonita!

No sábado passado, a cidade de Luanda viveu momentos de partilha colectiva, com um salutar programa de higiene, como há muito não se via. No último sábado, o trabalho voluntário, não foi apenas uma acção para a televisão registar.

Foi o eclodir de um movimento cívico desinteressado, que mexeu com as ruas de Luanda, para libertá-la da enorme carga de lixo acumulado. Lixo que as várias operadoras não recolhiam. Lixo que a nossa irresponsabilidade cívica atira para qualquer lado, num total desprezo pelas normas de convivência social.

Lixo que sai de nós mesmos, fruto da nossa ignorância, enquanto seres sociais. Sinal de desprezo pela vida comum, por ausência de amor pela vida e desrespeito pela natureza que nos alberga.

Luanda, com os seus quase 7 milhões de habitantes é neste momento a melhor matriz da nossa identidade nacional.

Por aqui vivem grupos étnicos, famílias parentais, grupos políticos, religiosos, comunidades estrangeiras, que nos censuram, pela incapacidade, pela falta de cultura cívica, pela falta de iniciativa, perante os males que nos afectam. Designadamente a falta de higiene, o elevado grau de irresponsabilidade social e o que é mais grave, a falta de políticas eficazes de consciencialização, para a preservação dos bens públicos.

O Executivo que tem por missão garantir a construção de infraestruturas, como estradas, caminhos de ferro, arruamentos e mobiliário urbanos, saneamento básico, redes de segurança rodoviária actua como um viúvo.

Não prevê na sua acção, a participação dos outros agentes económicos (famílias e pequenas e médias empresas especializadas), na manutenção do património público. Não fiscaliza o estado das infraestruturas, não tem informação qualificada sobre a realidade, para poder quantificar e afectar recursos em números suficientes para a resolução dos problemas comunitários.

GESTÃO DA CRISE

Não tem meios humanos e materiais com qualidade suficientes, para lidar com a gestão da vida comunitária, limitando-se a gerir crises que pela sua génese, constituem despesa adicional ao erário público. Veja-se o exemplo das campanhas de solidariedade em torno do surto de febre amarela que assola o país inteiro e cujos reflexos são mais visíveis em Luanda! Vejam-se outros exemplos que mobilizam sempre as mesmas pessoas, transformadas em campeãs da solidariedade, quando deviam, em situação normal participar no investimento sistematizado do saneamento básico no país, por exemplo, nas centrais de recolha e tratamento de lixo, na construção de estações de tratamento de águas residuais, antes de serem escoadas para o mar. Não seria bonito termos na embocadura do rio Kambamba, ali para as bandas da ponte molhada, uma ETAR, que pudesse reciclar as águas pútridas do nosso consumo, antes de serem lançadas para o mar?

PARA QUANDO AS ESTAÇÕES DE TRATAMENTO DE ÁGUAS RESIDUAIS?

Não seria proveitoso investirmos em todas as linhas de evacuação de águas residenciais, várias estações de tratamento (na Samba, em Cacuaco, em Kifangondo, no Ramiro e já agora em toda a zona litoral da província de Luanda) e promovermos a salubridade da nossa costa marítima, tão rica em espécies piscícolas, que constituem fonte de alimentação e exportação?

É necessário sermos realistas neste momento de crise e corrigirmos os erros do passado.

A aposta deve ser em torno da sustentabilidade dos projectos no futuro e não em termos das soluções paliativas.

Mais recursos à Saúde e à Educação são exigidos no nosso OGE, a par dos investimentos na Agricultura e Indústria, se quisermos garantir equilíbrio e racionalidade nas acções em prol do bem estar das populações. Em suma é fundamental trabalhar-se na criação de um novo paradigma económico que inclua sem reservas os pequenos e médios empresários, num programa salutar, de acesso ao crédito e regras eficazes de responsabilização civil, para os prevaricadores, já que o dilema é o cumprimento das obrigações creditícias.

SISTEMA DE PAGAMENTO A PRESTAÇÕES

O Estado deve criar mecanismos para tornar real o sistema de pagamento a prestações, para aliviar a carga sobre as famílias e outros agentes económicos, forçados a trabalharem em regime de pronto pagamento. O factor confiança deve ser norma básica nas relações comerciais de consumo e de investimento. Os tribunais devem funcionar como elementos de correcção e protecção dos interesses de quem empresta capital e bens a terceiros, com ou sem garantias.

Requer-se neste prisma uma análise séria do nosso mercado, agora que se discute a questão da diversificação da economia e se cogitam estratégias de apoio às pequenas e médias empresas. Não basta discursar sobre o assunto é preciso agir com precisão e objectividade, auscultando os agentes económicos activos e os pro-activos e inseri-los num programa sistematizado de apoio financeiro, abarcando direitos e obrigações.

PEQUENOS E MÉDIOS EMPRESÁRIOS SEM APOIOS

O que se verifica neste momento é o discurso de circunstância, viral e sem perspectiva para os visados, frequentemente ridicularizados na mídia pelos seus exageros nas opções de crédito. Os comentaristas e os especialistas que têm por missão o apoio às pequenas e médias empresas distraem-se na descrição das fraquezas dos agentes económicos e pouco falam do seu real papel na problemática da diversificação, quando se sabe que na economia paralela, são os pequenos e médios empresários, quem fomenta, orienta parte da riqueza não controlada pela economia real, movimentando, inclusivé, moeda externa, em circuitos muito fechados e funcionais, onde circula dinheiro de muitas origens.

Quando se fala do empreendedor angolano omite-se deliberadamente aquele que, graças ao seu esforço individual, contribui para o melhoramento das suas infraestruturas de negócio, estando a mudar a fisionomia do asfalto, com o embelezamento e modernização dos seus estabelecimentos comerciais. Para tanto é suficiente observarmos o panorama comercial, ao longo das nossas estradas.

Qualquer governo que se preze olharia com olhos de ver, este rico panorama e criaria mecanismos para potenciar o desenvolvimento, quer técnico quer material destes agentes económicos criados pela espontaneidade empresarial.

Infelizmente o que se observa, na nossa classe tecnocrática é uma despropositada descaracterização, que não ajuda em nada, os apelos do Executivo na mobilização e crescimento da classe empreendedora do país.

De conversa está o mundo cheio. De apoio aos empreendedores, infelizmente temos ainda um longo caminho a percorrer. Esperemos que o quadro mude para bem da nossa estabilidade social e económica.

por Vítor Sampaio

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