Itália: “lucrativo negócio” com migrantes africanas

(DW)

Calcula-se que cerca de 40 mil mulheres estrangeiras em Itália são prostitutas. A maioria vem da Roménia e da Nigéria e são quase todas vítimas de redes de tráfico humano.

Por trás deste negócio estão as chamadas “madames”, mulheres poderosas que, geralmente, vivem em território italiano, de onde controlam as suas redes de tráfico. Os traficantes trazem para a Europa, sobretudo, jovens nigerianas, atraídas por falsas promessas de uma vida melhor no “sonho europeu”.

Apesar de o problema estar à vista, a procuradora italiana Angela Pietroiusti, que luta contra o crime organizado e o tráfico humano na cidade de Florença, ainda não conseguiu prender nenhuma “madame” nos últimos anos. “As vítimas têm muito medo da polícia e isso é um problema”, diz a procuradora, que aponta a tradução como um dos principais problemas que enfrentam ao tentar comunicar com as vítimas. “Para nós, é difícil encontrar tradutores de confiança que percebam os dialetos das vítimas”.

Benin City, uma grande cidade no sul da Nigéria, é onde muitas jovens começam a sua odisseia para a Europa. Foi o que aconteceu a Joy que, aos 17 anos, foi convencida por um conhecido a ir viver para Itália. Na lista de promessas estava um emprego como babysitter para uma nigeriana rica.

Com documentos falsos, partiu de Agadez, no deserto do Níger, em direção à costa mediterrânica. Quando chegou a Itália, foi ameaçada de morte e forçada a prostituir-se.

Em Benin City, capital do estado Edo, no sul da Nigéria, é frequente haver logros de emigração para a Europa (DW)
Em Benin City, capital do estado Edo, no sul da Nigéria, é frequente haver logros de emigração para a Europa (DW)

A falta de perspetivas destas jovens faz com que elas caiam facilmente nas malhas destas redes de tráfico. E se a impunidade continuar, a situação não vai mudar, como lamenta Joy. “Eu quero que elas sejam levadas a tribunal. Tanto a Itália como a Nigéria têm de tomar medidas para que isto finalmente termine! E não se trata apenas da minha ‘madame’. Há muitas ‘madames’ por aí que são muito piores do que a minha”.

“As autoridades não estão a fazer bem o seu trabalho”

Há um ano, a jovem foi deportada. Hoje com 23 anos, tenta construir uma nova vida em Benin City, mas diz que as autoridades não estão empenhadas na condenação dos traficantes. Bibiana, uma freira católica que há muitos anos luta contra o tráfico humano na Nigéria, onde dirige uma casa de acolhimento para mulheres, partilha a desilusão e a frustração de Joy para com as autoridades.

“As autoridades simplesmente não estão a fazer bem o seu trabalho. Só pensam nas glórias do passado. Tornaram-se preguiçosas!”, afirma a defensora dos direitos das mulheres nigerianas.

Bibiana Emenaha, freira católica que tem lutado contra o tráfico humano na Nigéria (DW)
Bibiana Emenaha, freira católica que tem lutado contra o tráfico humano na Nigéria (DW)

O tráfico humano tornou-se um negócio bastante lucrativo em África, especialmente na cidade de Agadez, no deserto do Níger, um autêntico “viveiro” de traficantes de seres humanos. Estima-se que cerca de 50% da atividade económica da cidade resulta do tráfico de pessoas.

No entanto, o governador de Agadez, Magamadou Fodé Camera, minimiza o problema. “Muitas vezes, retemos os migrantes antes da sua viagem pelo deserto, quando as condições são muito perigosas ou quando sabemos que querem atravessar fronteiras ilegalmente – por exemplo, para trabalhar na prostituição. Mas neste momento não podemos fazer nada, porque simplesmente não temos meios suficientes”, afirma o governador.

De acordo com os dados mais recentes do Eurostat, as autoridades dos 28 membros da União Europeia (UE) identificaram quase 11 mil vítimas de tráfico humano em 2012, das quais 66% eram destinadas ao trabalho sexual. Dessas vítimas, 96% eram mulheres. Nigéria, Brasil, China, Vietname e Rússia são os cinco países não pertencentes à UE de onde vêm as principais vítimas de tráfico humano. (DW)

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