“Há uma banalização do Estado e das instituições em Angola”

"A meu ver o povo está anestesiado", diz Paulo Faria (Sérgio Afonso)

São da geração pós-independência. Estudaram fenómenos como a imigração ou os sistemas políticos. O angolano formado em Filosofia Paulo Faria é o segundo dos cinco pensadores de países africanos de expressão portuguesa entrevistados nesta série.

Fala pausadamente. Viveu fora de Angola durante vários anos, regressou há pouco tempo e dá aulas na Universidade Agostinho Neto. Escolheu um hotel no centro de Luanda para uma conversa que durou mais de uma hora. Natural de Malanje, Paulo C.J. Faria (n.1973) passou pelo seminário diocesano de Luanda, e chegou a fazer votos religiosos. Depois de viver em Moçambique e Portugal, onde fez o curso de Filosofia na Universidade Católica de Lisboa, decidiu, no segundo ano, que já não se sentia vocacionado para a vida religiosa. O também poeta e escritor estudou em Inglaterra, onde fez o mestrado e doutoramento na Universidade de Kent, ficando no Reino Unido durante cerca de dez anos. Cientista político, agora dá aulas nas áreas de Relações Internacionais e Ciência Política. Autor do livro The Post-War Angola Public Sphere, Political Regime and Democracy, onde traça o retrato do país nos últimos 13 anos, Paulo Faria é um crítico do regime.

Comentava que o caos do trânsito em Luanda era simbólico do que se passa em Angola: de que forma?
Luanda foi uma cidade planeada para um máximo de dois milhões de pessoas mas hoje vivem quase cinco milhões. Com um sistema deficitário de transportes públicos, ter um carro torna-se um dever: já imaginou uma casa com quatro pessoas activas, cada uma tem que ter um carro? A questão é a ausência de planificação e um crescimento desmesurado. Devia existir a descentralização dos serviços públicos. Outro aspecto é a falta de inclusão: as pessoas não são consultadas. O centro da decisão é mais impositor do que consultivo. E se não há este processo de consulta vamos viver num contexto de extrema repressão e imposição das vontades. Isto não é nada abonatório e põe em risco a paz. Põe também as pessoas num nível de humilhação moral: vai a casa, vem trabalhar, vai enfrentar engarrafamento, tem que acordar às 4h, chega muito cedo aqui e tem que dormir no carro. É uma humilhação e pressão psicológica muito grandes.

A separação entre a sociedade civil e o Estado em Angola é cosmética, afirma no seu livro. Porquê e como?
Vários autores reflectiram sobre a banalização do Estado e a fragilidade dos estados na África subsariana. Então a dinâmica que temos em Angola é a transferência de um determinado paradigma, de um determinado modo de pensar do poder colonial para as forças pós-coloniais que emergiram. Na perspectiva de Achille Mbembe e de outros que falam do processo de captura do estado para poder dar lugar a grupos dominantes reconstituídos à volta de uma única pessoa, temos um sistema corporificado num indivíduo forte e esse indivíduo forte vai querer construir uma rede, um sistema em que os seus interesses sejam protegidos e acautelados.

O estado tem que ser algo cosmético para eu puder manter-me no poder, exercer poder sobre os media, controlar e aceder aos recursos naturais, controlar o exército e usá-lo até como mecanismo de repressão ou forma de governamentalidade pós-colonial. Este poder precisa de força, de élan e este élan vem dar um processo de cosmética – um estado forte para poder dar lugar a um homem forte.

O que é que Portugal deixou em Angola?
Uma das heranças pesadas é o índice elevado de analfabetismo. Este era um dos grandes desafios, e também objecto de crítica à formação do homem novo [depois da descolonização] – mas quem é o homem novo? O homem novo tem que basear a sua fé na ciência, no marxismo científico que exclui a religião e outras formas que sejam alheias à ciência. O MPLA era constituído por elementos que tiveram a sua influência católica, o próprio Agostinho Neto pertencia à Igreja Metodista. A matriz religiosa esteve sempre na génese da constituição deste movimento, então a adopção de uma ideologia de forma acrítica vai fazer com que a forma de lidar com esta herança pesada da iliteracia seja mais desastrosa porque: que modelos de escolas vamos ter? Vamos ter uma escola que vai formar o homem novo, mas quem é o homem novo? À luz e imagem de quem? De Lenine, de Estaline. Mas quem são essas entidades para mim? Não me dizem nada. Então enxergou-se um elemento externo como tentativa de ultrapassar uma herança pesada. (PUBLICO)

por Joana Gorjão Henriques

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