Do “triunvirato” de inimigos aos papéis para destruir faz-se o livro sobre Salgado

(Negocios)

A amizade do Zé Grande. A “autopromoção” de Ricciardi. A perda de controlo sobre Sobrinho. A “mentira” de Queiroz Pereira. A incompreensão de Carlos Costa. A falta de visão de Passos. São confissões de Salgado em “Os Dias do Fim Revelados”.

“Naquele dia de Verão, a Visão trazia na capa a praia da Comporta. O título era: ‘A brincadeira acabou. Os ilustres estão mais discretos, as empregadas e os jardineiros foram despedidos e os negócios caíram na região. Tudo o que mudou, um ano depois do BES’. Os dois reagem da mesma maneira: coitadas destas pessoas que perderam o emprego”.

Os visados são Ricardo Salgado e a sua mulher, Maria João, numa cena relatada no livro “Os Dias do Fim Revelados”, da autoria de Alexandra Ferreira. Publicado pela Chiado Editora, o livro tenta traçar uma perspectiva mais humana do antigo “dono disto tudo” (designação que, ao longo da obra, Ricardo Salgado vai contestando) e também avança com os alvos do ataque do banqueiro que, por 22 anos, liderou o Banco Espírito Santo.

O livro é escrito na primeira pessoa pela autora, que também cita as palavras de Ricardo Salgado, na sequência das conversas que tiveram aquando da prisão domiciliária do ex-banqueiro. “Não sou um déspota. Se as pessoas não diziam o que pensavam, tenho pena”, é um exemplo de uma frase do antigo presidente do BES. Também há citações do advogado Francisco Proença de Carvalho e do seu pai, Daniel Proença de Carvalho, amigo de Salgado e presente em vários momentos-chave da vida do BES.

“Só na paranóia é que se acha que Ricardo Salgado e a sua secretária vão os dois para o Hotel Palácio destruir papel. Neste tipo de casos, a justiça portuguesa age no mediatismo e no medo”. 
(Francisco Proença de Carvalho Advogado de Ricardo Salgado)

Os caixotes que não eram para o lixo

A obra ajuda a perceber a defesa de Ricardo Salgado. Aliás, a autora agradece ao advogado do ex-banqueiro, Francisco Proença de Carvalho, pela oportunidade de escrever as páginas. Um dos pontos em que se percebe a argumentação da defesa está relacionado com caixotes do lixo.

Recuando a 24 de Julho de 2014, surge uma notícia: “PJ encontrou caixas de Ricardo Salgado com ‘papéis para destruir’” é o título do Expresso. Os caixotes tinham aquela indicação. Segundo o livro, o que se passou a seguir é um “absurdo”. “Só mesmo por absurdo escolheria aqueles caixotes se o objectivo fosse, de facto, o de destruir papel”, avança a autora. O advogado, Francisco Proença de Carvalho, esclarece que se estava a construir um arquivo próprio: organizar em duas salas documentos com 22 anos.

“Só na paranóia é que se acha que Ricardo Salgado e a sua secretária vão os dois para o Hotel Palácio destruir papel. Neste tipo de casos, a justiça portuguesa age no mediatismo e no medo. Alguém põe nos jornais e a justiça portuguesa segue isso”, defende o advogado.

BES forçado a falir

E da destruição do papel para a destruição do BES, Ricardo Salgado mantém o que já tinha dito na comissão de inquérito à gestão do BES e do GES, onde falou em duas ocasiões: “O BES não faliu, foi forçado a desaparecer”. O antigo banqueiro acredita que não lhe foi dado tempo pelo Banco de Portugal para reestruturar a área não financeira do grupo.

O livro percorre os últimos dias do banco e tenta mostrar as contradições do governador Carlos Costa nas últimas declarações públicas, em que falava na solidez da instituição financeira pouco antes de determinar a resolução do BES.

O “triunvirato”

Carlos Costa não é o único opositor visado. Pedro Queiroz Pereira, José Maria Ricciardi e Álvaro Sobrinho formam o “triunvirato” que prejudicou Ricardo Salgado. E o antigo banqueiro dedica algum tempo a falar de todos.

Os primos José Maria Ricciardi e Ricardo Salgado começaram a desentender-se em 2013. (Negocios)
Os primos José Maria Ricciardi e Ricardo Salgado começaram a desentender-se em 2013. (Negocios)

1.º Primo Ricciardi

Sobre Ricciardi, poucos são os ataques directos. “Começaram a assistir-se a manobras nos bastidores, de membros a precipitarem a sua autopromoção para o desempenho das funções. E quando falo em membros do grupo, estou a falar de membros do Conselho Superior, da família, entre os quais o mais conhecido é o Dr. José Maria Ricciardi. Mas depois apareceram outros, o Dr. Ricardo Abecassis Espírito Santo, que estava no Brasil, e o Dr. Bernardo Espírito Santo”.

“Perfeitamente legítimo” é como Salgado vê o esforço do primo para chegar à liderança do BES. “Mas também lhe digo. Eu considerava que os bancos de família, nesta altura, já eram uma singularidade em vias de extinção”, confessa no livro Ricardo Salgado que, no entanto, esteve no banco até aos 70 anos, saindo após pressão do regulador (ainda que o ex-banqueiro diga que abandonou as funções por determinação própria).

“Eu não saí mais cedo por causa da crise. Uma das regras básicas que aprendi na minha vida é que o comandante da embarcação é o último a abandonar o barco”, defende-se.

Ricciardi já reagiu ao livro. Ao Público, disse que não vai “perder tempo com a [sua] leitura”. Mas ataca: “É pelo menos patético que quem é responsável pela destruição de um património familiar de várias gerações, e ainda pelos incalculáveis prejuízos causados à economia nacional, às poupanças de milhares de depositantes, colaboradores e investidores, venha a terreiro arvorar-se em baluarte da honra e da dignidade da família, que ele próprio traiu e aviltou”.

Visões diferentes, já que Salgado acusa Ricciardi, entre outros, de ter contribuído para a queda do banco.

2.º Pedro Queiroz Pereira

Entre os outros está Pedro Queiroz Pereira. Salgado conta a história da ligação ao pai do dono da Portucel. Mas acusa o empresário de ter facultado ao regulador um dossiê sobre a sociedade de topo do GES, a ES Control, de que Queiroz Pereira também era sócio, em que havia “mentiras”.

Foi uma “desinformação” aquilo que “deu ao Banco de Portugal”. “[Além da] mentira que divulgou de que eu quereria tomar conta do seu grupo”, continua. “Vai ser completamente desmascarado e eu não tenho qualquer dúvida sobre isso”, vaticina.

Álvaro Sobrinho, o homem escolhido por Salgado para presidir ao BES Angola (Marta Poppe)
Álvaro Sobrinho, o homem escolhido por Salgado para presidir ao BES Angola (Marta Poppe)

3.º Álvaro Sobrinho

O último vértice do “triunvirato” referido por Salgado é Álvaro Sobrinho e, aqui, Ricardo Salgado baliza as suas responsabilidades. O ex-banqueiro assume que foi quem indicou Álvaro Sobrinho para o BESA mas adianta que, desde que foi dada independência informática ao banco angolano (por ordem do Banco Nacional de Angola), perdeu as rédeas do banco. Depois, actuou quando teve queixas dos sócios de Luanda.

“Era um excelente representante [do BES] e tínhamos a maior consideração por ele”. As opiniões eram sempre positivas, revela. Tudo mudou e, quando Sobrinho saiu, Salgado teve “uma visão do Inferno”, dados os créditos concedidos sem garantias que chegaram a representar uma exposição do BES ao BESA superior a 3 mil milhões de euros.

Sobre Sobrinho, acusa-o de ter comprado jornais (Sol e i) e publicações em Angola para começar a atacá-lo. “Quando ele comprou os jornais, eu disse-lhe que ele devia vender imediatamente porque ele era o representante do GES em Angola e estava ao arrepio do que era o posicionamento do grupo em relação aos media”.

Uma das notícias que diz ter sido publicada numa das publicações de Sobrinho para o atacar foi a que revelou que recebeu uma prenda de José Guilherme – que, juridicamente, é uma liberalidade, de 14 milhões de euros.

O elogio ao Zé Grande

O construtor civil, que tem ligações ao BES e GES em Angola que até hoje continuam por escrutinar, é elogiado por Ricardo Salgado. No livro, o antigo líder, por 22 anos, do BES fala no construtor José Guilherme, ou “Zé Grande”, que conhece desde quando ainda não tinha 30 anos. “Qualidades excepcionais” são as que lhe reconhece.

“A minha família não aceitou bem a liberalidade do Zé Guilherme. Mas aquilo foi explorado de uma forma inqualificável pela imprensa do Dr. Álvaro Sobrinho”, comenta, defendendo o primeiro e atacando o segundo.

O que ele me dizia era espantoso! Não tinha percebido nada”.
(Ricardo Salgado Sobre Pedro Passos Coelho)

Passos Coelho, o primeiro-ministro que não percebeu “nada”

Da única defesa a um novo ataque. Passos Coelho também é visado no livro. “O que ele me dizia era espantoso! Não tinha percebido nada”. São palavras de Ricardo Salgado sobre uma reunião que tinha tido, em 2014, com o então primeiro-ministro para evitar a queda do GES.

O livro passa – e não em citação de Salgado – a ideia de que o primeiro-ministro não tomava decisões da área financeira sem o aval da então ministra, Maria Luís Albuquerque.

Sobre Passos Coelho, Ricardo Salgado critica-o por, na Redacção Aberta do Negócios, ter falado sobre a preocupação que tinha por ainda não ter havido a devolução da ajuda estatal do banco público. “O primeiro-ministro disse que estava preocupado com a Caixa Geral de Depósitos. Não se deve dizer isso. Não sabe o que está a fazer? Está a criar o descrédito da Caixa Geral de Depósitos”, avança, acenando com potenciais fuga de depósitos.

Na sua defesa, o antigo “dono disto tudo” coloca o Governo e o regulador com culpas repartidas: O banco caiu “por uma total falta de visão dos governantes do nosso país e da acção por parte do Banco de Portugal que, no fundo, julgo, já tinha intenção de acabar com um banco de família”.

Há temas de que não se fala, nomeadamente o esquema circular que terá servido para financiar empresas do Grupo Espírito Santo. Há assuntos de que Ricardo Salgado não pode, aliás, falar. É arguido em pelo menos dois processos que estão sob segredo de justiça: o Monte Branco, em que está a ser investigado por “eventual prática de crimes de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais”; e Universo Espírito Santo, no qual “foi indiciado por factos susceptíveis de integrarem os crimes de burla qualificada, falsificação de documentos, falsificação informática, branqueamento, fraude fiscal qualificada e corrupção no sector privado”. (Jornal de Negocios)

 

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