David Grossman: O medo caracteriza a sociedade israelita

(EURONEWS)

É um autor de renome mundial e um ativista pela paz e embora seja muito pegado à sua pátria israelita é igualmente um duro crítico das suas políticas. No último livro, “A Horse Walks Into a Bar”, David Grossman combina o humor e o horror no que muitos veem como uma metáfora das contradições que dividem o país.

Isabelle Kumar, euronews:

No seu livro “A Horse Walks Into a Bar”, o protagonista, Dovalé, é uma personagem moral e humanista mas tem, ao mesmo tempo, um lado grotesco que mostra o lado feio do mundo. Ele personifica os seus sentimentos contraditórios relativamente a Israel?

David Grossman:

Bem, antes do mais é uma personagem literária com muitas camadas e contradições intrínsecas. Esta é a razão que faz as personagens literárias parecerem vivas. Mas, talvez mais que tudo, Dovalé é uma pessoa que, por causa de algo que lhe aconteceu quando era criança, quando tinha 14 anos, a sua vida tomou um rumo diferente daquele que deveria ter seguido. De algum modo pode dizer-se que ele vive em paralelo a vida que deveria ter vivido. Talvez, também, se quiser, Israel tem este destino porque nos últimos anos tornámo-nos numa espécie de mini-império, e acho que a partir desse momento entrámos no rumo paralelo errado da nossa vida, do nosso ser.

euronews:

Parece que existem muitas mensagens neste livro, mas há alguma em particular que queira transmitir?

David Grossman:

A história que eu conto é acerca de uma criança, Dovalé, que mais tarde se torna ator de stand-up comedy e o livro decorre num clube noturno. Mas Dovalé que era uma criança muito sensível e frágil e muito criativa e apaixonada, de repente, quando tinha 14 anos, foi enviada pela primeira vez na sua vida para fora de casa, para um tipo de acampamento semi-militar, pelos quais todos passámos quando tínhamos 14 ou 15 anos. Até esse momento ele tinha vivido a vida toda com uma família que era muito simbiótica, ele, a mãe e o pai, e era a primeira vez, como eu disse, que ele foi afastado deles. E depois, um dia, quando ele estava no campo de treinos, uma mulher-soldado surgiu e perguntou: “Quem é o Dovalé?” Ele respondeu: “Sou eu.” E ela disse: “Anda, vem comigo. Despacha-te, vamos. Tens de estar às 4 em Jerusalém para o funeral.” E ele ficou chocado. “Que funeral? Ninguém me falou de um funeral quando saí de casa.” Rapidamente, com a mochila a ser feita por outros soldados, ele é metido num veículo militar e enviado durante quatro longas horas para o funeral em Jerusalém. Mas ele não fez uma pergunta e ninguém lhe disse. Quem morreu? A mãe ou o pai? E estas quatro longas horas foram bastante traumáticas na sua vida e moldaram verdadeiramente o seu destino. Por vezes penso que a forma mais astuta de crueldade é a indiferença.

euronews:

Dovalé também parece uma figura bastante isolada, enquanto permanece diante de uma audiência que o vai abandonando um-a-um, e ele fala para um círculo de pessoas cada vez menor. Eu sei que, talvez, resista a este tipo de referências autobiográficas, mas esta situação faz-me pensar em si, porque no seu país há quem o considere um traidor devido às suas convicções. Sente-se cada vez mais isolado no seu próprio país?

David Grossman:

Sinto que as minhas opiniões estão cada vez mais isoladas e sinto que cada vez mais pessoas desistem de compreender esta realidade deveras complicada e escolhem a simplicidade. Por isso se vê como cada vez mais israelitas estão a ser tentados a olhar para o conflito abandonando qualquer tentativa de alcançar uma solução política e racional e, ao invés, estão mais propensos ao fanatismo e ao fundamentalismo. Isto vê-se nos dois lados, acontece em Israel e acontece na Palestina, o que torna uma solução quase impossível.

euronews:

Mas também vemos as vozes dissidentes, as vozes que se opõem às correntes principais de pensamento em Israel serem silenciadas. Estou a pensar no governo israelita que disse, por exemplo, que autores como o senhor não vão receber subsídios do Estado porque não são considerados leais ao Estado Hebreu e eu pergunto-me o que significa essa lealdade?

David Grossman:

Devia perguntar-lhes a eles o que isso significa. Primeiro que tudo, penso que nem deveria sequer justificar a minha lealdade. Nasci aqui, este é o meu lugar, tenho uma parte ativa na vida de Israel, na cultura de Israel. Não penso que a questão da lealdade deveria, sequer, ter sido levantada. É uma pergunta fascista. Esse é um dos sinais da deterioração da democracia e da perceção democrática em Israel. A minha lealdade é para a minha arte, o que tento fazer nos meus livros, na minha escrita, é documentar o mais que posso, da forma mais fidedigna possível, as nuances da vida aqui em Israel porque penso que esta vida aqui é uma vida fascinante, mas por vezes é insustentável.

euronews:

Isso leva-me a um dos seus primeiros romances, “Até ao Fim da Terra”, no qual uma mãe se lança numa viagem para fintar o que aqui é conhecido como “notificação”, a notícia de que o filho morreu ao serviço do exército. Eu sei que a realidade e a ficção se misturaram quando escreveu este livro porque recebeu uma “notificação”. Mas o que quero saber é o efeito que pode ter numa sociedade viver com o medo das suas crianças serem mortas?

David Grossman:

Talvez haja uma coisa que caracteriza a sociedade israelita mais do que tudo o resto, essa coisa é o medo. É o medo das nossas crianças irem para o exército mas é também o medo de caminhar na rua. O governo e a direita estão a utilizar este medo de uma forma cínica. Temos um primeiro-ministro que é bom a apurar e a colocar em evidência os perigos reais que Israel enfrenta, e nós enfrentamos perigos reais aqui no Médio Oriente, mas ele sabe como misturar estes perigos com os ecos dos traumas do passado. Eu acredito que uma sociedade que é dominada pelos medos é uma sociedade em declínio que não tem a energia nem a vitalidade que necessita para florescer, para desabrolhar e, também, para resolver os seus problemas existenciais. Se categorizarmos as coisas em categorias de medo, de desespero, não vamos longe. No fim, acabamos por realizar os nossos maiores medos.

euronews:

Pedimos à nossa audiência na internet para nos enviar algumas perguntas para esta entrevista e eu gostaria de dar voz a algumas destas questões. George Miller pergunta “como é possível sair desta espiral de ódio e raiva – e podemos juntar medo – que vemos crescer?

David Grossman:

A sociedade está agora formatada por estes medos, quer a israelita quer a palestiniana. E as pessoas sentem verdadeiramente que estão condenadas a viver assim para sempre. O ar do desespero é tão pesado que as pessoas já não têm a energia mental para imaginar como pode ser uma vida em paz. Por isso precisamos de líderes e de políticos mas também de intelectuais e escritores que formulem a opção da paz, que insistam na revitalização desta opção da paz que hoje não existe de todo.

euronews:

Pensa que vai ser capaz de ver a paz enquanto for vivo? Ou mesmo durante as vidas dos seus filhos?

David Grossman:

Eu espero bem que sim. A minha luta pela paz não é apenas para que palestinianos tenham a sua casa, a sua pátria e a sua dignidade. Eu não quero que vivam as suas vidas debaixo da sombra da ocupação, eu não quero fazer sombra a ninguém porque quando faço sombra a alguém é a minha vida que fica à sombra. Porque sou israelita e judeu, desejo ver Israel florescer em paz, ver o que é que vai fazer por nós, pela primeira vez na nossa história, na nossa história antiga e na nossa história recente, viver uma vida sem medo.

euronews:

Fala-se muito da solução dos dois estados, mas parece estar morta…

David Grossman:

Não, não a mate tão depressa, não está morta, é a única opção possível…

euronews:

A solução de um único Estado. Pensa que os israelitas conseguem imaginar isso?

David Grossman:

Acredita que estes dois povos, o israelita e o palestiniano, que estão não só marcados por um século de violência mas também verdadeiramente distorcidos, acredita realmente que estão suficientemente maduros para colaborarem de forma eficiente e positiva numa única entidade política? Isso não vai acontecer.

euronews:

Esta questão leva-nos à pergunta de Robin Wilson: “Como podem os progressistas fazer triunfar a ideia de Israel como um Estado cívico de judeus, árabes e outras minorias, em vez de um Estado hebraico”?

David Grossman:

Não, eu não quero ser, ou ter apenas um Estado judaico. E penso que será sempre importante existirem outras comunidades e outras minorias aqui neste lugar, em Israel. Pessoas que se sintam e sejam totalmente iguais à maioria judaica e pessoas que interajam em conjunto, judeus e árabes, drusos e cristãos, e criem um lugar rico e próspero aqui em Israel.

euronews:

Como vimos é um crítico do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O senhor disse recentemente que ele estava a dirigir o país de olhos bem fechados. O que quis dizer?

David Grossman:

Não consigo perceber como é que uma pessoa tão inteligente, uma pessoa com um conhecimento histórico tão profundo como ele, ignora a realidade, ignora o facto de que se Israel se fiar apenas no seu poder, a um dado momento, que Deus o impeça – e este é o único contexto em que vou recorrer a Deus – Israel vai ser derrotado, vai haver uma potência mais forte, mais astuta e mais corajosa, uma potência mais sofisticada que vai derrotar Israel.

euronews:

Gostaria de colocar mais uma questão da nossa audiência nas redes sociais. Hernan Peña faz uma pergunta que deve estar na cabeça de muitas pessoas, ele diz: “Eu considero Netanyahu um criminoso de guerra, e o senhor?”

David Grossman:

Não, eu diria que ele é um criminoso de paz porque durante estes anos todos ele tem evitado todas as oportunidades para a paz e porque tem recusado constantemente criar uma opção para negociar a paz com os palestinianos, e isto é perigoso. Ao fazer isto ele coloca Israel em grande perigo porque, como sabe, esta crença de que se batermos nos palestinianos com um pau cada vez maior, então eles vão começar a amar-nos e começar a negociar connosco, é uma ideia muito primitiva. Há uma recusa muito profunda, há muitos anos, em todas as lideranças israelitas, em ver a situação do ponto de vista dos palestinianos. Isto é algo para o qual talvez possa contribuir para o debate como escritor. Temos de permitir à história palestiniana de se infiltrar nas nossas consciências. Temos de compreender o que deixa os palestinianos tão furiosos, com tanto ódio, que os faz correrem nas ruas para nos apunhalarem, de forma maciça, há tantos anos. Se pelo menos permitirmos isso, talvez possamos deixar de estar em guerra com eles.

euronews:

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu comparou o autodenominado Estado Islâmico ao Hamas e vice-versa. Pensa que é uma comparação justa?

David Grossman:

O Hamas não é a minha parte favorita da sociedade palestiniana, porque são fanáticos, fundamentalistas e na sua declaração de base, desejam abertamente a erradicação de Israel e a edificação de um estado islâmico nas suas ruínas. Contudo, o Hamas, por causa da sua estrutura e da situação geopolítica, também tem interesses políticos, ao contrário do Daesh. Por exemplo, encontramos no seio do Hamas gente que é a favor de uma “houdnah”. Uma “houdnah” é um termo árabe que designa um longo cessar-fogo que aliás negoceiam quando lhes interessa. Mas eu olho a longo-prazo e digo: OK, se calhar, se tivermos uma “houdnah” com os palestinianos de Gaza, com o Hamas, durante 10, 20 25 anos, talvez as coisas consigam mudar.

euronews:

Israel é cada vez mais visto no estrangeiro como um estado pária. O senhor viaja muito, nunca teve vergonha de ser israelita?

David Grossman:

Sinto vergonha do que faz o meu governo, não tenho vergonha de ser israelita. Ainda penso que este país é um local incrível. Às vezes temos a tendência de apenas criticar completamente Israel e esquecemo-nos como é que este país foi forjado, três anos depois do Holocausto, depois da Shoah, e o facto de se ter construído sozinho, verdadeiramente a partir de cinzas, e de ter criado aqui uma grande cultura, e uma agricultura, e uma indústria de alta tecnologia e muitas camadas de vida que são únicas. E, como já disse, eu não quero viver em nenhum outro lugar.

euronews:

Muito bem, deixe-me dar-lhe um exemplo concreto e ver o que pensa disso. A União Europeia começou a indicar nas etiquetas os bens que vêm dos colonatos. O senhor é contra os colonatos na Cisjordânia. O que pensa acerca disto?

David Grossman:

Penso que têm o direito de o fazer e na verdade estou satisfeito porque isso significa que aceitam a ideia dos dois Estados. Aceitam a total legitimidade de Israel dentro da linha verde. Têm o direito de mencionar aos seus consumidores que esses produtos vêm de locais disputados. De certa forma é um preço que Israel criou a si mesmo.

euronews:

O senhor é um ferveroso defensor da paz, verificámos isso durante esta entrevista. Recebemos esta pergunta de Mahmoud Dido Kilosho que indaga sobre “o que faria para os palestinianos traumatizados?”

David Grossman:

Primeiro que tudo, penso que os palestinianos devem fazer algo pelos palestinianos traumatizados, pela Palestina traumatizada. O que eu tentei fazer desde sempre foi olhar para a realidade e escrever sobre a complexidade deste conflito. Descrevi a vida dos palestinianos e a situação da ocupação em três livros, um romance e dois livros documentais.

euronews:

Aliviou-o de alguma forma?

David Grossman:

Aliviar-me? Não. Sabe, eu tomo a realidade muito a sério e a alternativa é ser cínico ou desesperado acerca da situação e eu não quero ser nenhum dos dois. E olhe para nós neste momento. A maior superpotência da região e somos ainda vítimas dos nossos medos, dos nossos pesadelos, por vezes dos medos e pesadelos dos nossos vizinhos e dos nossos inimigos. Não estamos a tomar o nosso destino nas nossas mãos.

euronews:

Deve ter um grande prazer em escrever, o que o deve afastar desta realidade. Pode falar-me um pouco do prazer que retira em escrever ficção?

David Grossman:

Sim, é bastante mais prazenteiro do que escrever sobre a nossa realidade. Ser um escritor deixa-nos em contacto com as opções infinitas de cada situação humana. Em cada situação humana existe um arsenal enorme de opções, de potencial, de paixões, de energias. Às vezes é muito difícil regressar à realidade quando acabo o meu dia de trabalho, ao fim de 6, 7, 8 horas e eu tenho de regressar à realidade, especialmente a esta terrível realidade, é mesmo muito difícil.

euronews:

Para terminar, gostaria de regressar ao seu último livro. “A Horse Walks Into a Bar” está repleto de piadas, tem piadas do princípio ao fim e eu pergunto-lhe se tem alguma piada em particular para nos contar?

David Grossman:

O livro tem muitas piadas e eu gostei muito de o escrever por causa da torrente de anedotas. E eu que sou uma pessoa que raramente se recorda de uma piada agora sei para aí umas 30. Mas vou contar-lhe uma anedota que não está no livro mas que tem a ver com o nome do livro, “A Horse Walks Into a Bar”. Um cavalo entra num bar e pede um copo de vodka. O barman olha para o cavalo admirado, serve-o, e o cavalo agarra no copo e bebe-o de um trago. Quanto é, pergunta o cavalo. 50 dólares, responde o barman. O cavalo paga e vai-se embora. O barman corre atrás do cavalo: Desculpe, sr. cavalo, por um momento… É incrível. Nunca vi nada assim, um cavalo que fala! O cavalo fita-o com atenção e diz-lhe: “Com preços destes, nunca mais vai ver nenhum!”

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