Crise em Angola pode desencadear mais protestos e detenções

Descontentamento popular tem aumentado com a escassez de alimentos (DW)

A contestação deverá aumentar, mas não afectará directamente o Governo angolano. A previsão é da Economist Intelligence Unit, que reviu em baixa a previsão de crescimento da economia do país este ano para 1,1%.

A baixa do preço do petróleo, o principal motor da economia angolana, deixa o país “a cambalear”. Com salários em atraso no sector público, a subida da inflação e a falta de alimentos, o descontentamento popular aumenta.

A consultora britânica Economist Intelligence Unit (EIU), ligada à revista The Economist, prevê um aumento das contestações em Angola. Num relatório enviado aos investidores, e citado pela agência de notícias Lusa, os analistas da EIU dizem que “a sensibilidade exacerbada a qualquer potencial ameaça de segurança à estabilidade ou à sua hegemonia deverá levar o MPLA, através dos serviços de segurança, a reprimir os protestos e a fazer detenções preventivas e julgamentos mediáticos dos críticos.”

Mas o Executivo não deverá ser directamente ameaçado, segundo Jane Morley, especialista da instituição em temas africanos. “A oposição continua oprimida”, afirma. “Mas isso também pode ser um canal para o crescente furor da população se transformar em algo que, de facto, atinja o Governo em termos eleitorais, entre outros aspectos.”

Crescimento abranda

A EIU estima um crescimento económico para este ano de apenas 1,1%, o pior nível desde 2003. A previsão de inflação é de 14,7%, quase o dobro do registado em 2015.

“Apesar dos esforços para diversificar a economia, ela ainda está totalmente ligada ao sector petrolífero”, lembra Jane Morley. “Com a baixa performance, o dinheiro não vai para outros sectores como o da construção. Por isso, tudo parece estar muito fraco neste momento”.

Os analistas da EIU propõem uma série de medidas como o desenvolvimento de fábricas e a aposta na agricultura para criar emprego e substituir as dispendiosas importações por produtos produzidos localmente.

A expectativa é que a economia angolana se recupere em 2017, com o provável aumento dos preços do crude, e que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 3,8% em 2018. Em meados de Abril, produtores e membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) reúnem-se no Qatar com a esperança de amenizar a crise no setor.

Segundo a editora da EIU, tudo depende do que a OPEP definir nesse encontro. “Se decidirem congelar os níveis de produção, isso pode fazer uma grande diferença no preço do petróleo no curto prazo”, explica. Até lá, acrescenta, “Angola continuará a enfrentar pressão no câmbio, no orçamento público e na inflação.”

Pressão aumenta

A condenação na segunda-feira (28.03) dos 17 jovens activistas acusados de atos preparatórios de rebelião contra o Estado eleva a pressão sobre o Governo do Presidente José Eduardo dos Santos.

Para o escritor angolano José Eduardo Agualusa, a prisão dos jovens agrava não só o quadro político, mas também o cenário económico. “O regime está enfraquecido, com problemas económicos e sociais gravíssimos”, sublinha.

O autor acredita que, no imediato, o que vai acontecer é a reactivação de todo o movimento de solidariedade para com os jovens, além de “um desgaste maior a nível internacional da própria imagem do Presidente e do regime”. (DW)

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