Cabo Verde: Promessas do MpD “difíceis” de realizar

MpD de Ulisses Correia e Silva venceu em todos os círculos eleitorais do arquipélago (MPD)

Durante a campanha eleitoral, o Movimento para a Democracia (MpD) prometeu criar 45 mil empregos. Analista cabo-verdiano considera que essa meta será “muito difícil” de alcançar por causa da atual conjuntura económica.

O MpD venceu as eleições legislativas deste domingo (20.03), com maioria absoluta. O Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) regressa agora à oposição, após 15 anos no poder.

O partido de Ulisses Correia e Silva conseguiu 122.011 votos (53,5%) e 38 deputados, segundo os dados oficiais mais recentes. Falta apenas apurar, nos círculos da emigração, quatro do total de 72 assentos parlamentares.

O Partido Africano da Independência da Cabo Verde (PAICV) conquistou 85.517 votos (37,5%) e 27 deputados. A União Cabo-Verdiana Democrática e Independente (UCID) conseguiu 15.525 votos (6,8%) e três deputados.

As restantes forças políticas concorrentes – Partido Popular (PP), Partido do Trabalho e da Solidariedade (PTS) e Partido Social Democrático (PSD) – representam 0,5% dos votos no conjunto das suas votações.

A DW África falou com o analista político cabo-verdiano João Silvestre Alvarenga sobre os resultados eleitorais, as promessas feitas pelo partido vencedor e a situação em que fica agora o PAICV.

DW África: O que significa esta vitória do Movimento para a Democracia?

João Silvestre Alvarenga (JSA): Esta vitória mostra, em primeiro lugar, que a governação do PAICV durante esta última legislatura foi muito negativa. Não creio que a própria direção do PAICV seja uma direção mais preparada, mais qualificada. Os próprios militantes e apoiantes do PAICV não acreditaram nessa nova liderança. E nas propostas que foram apresentadas houve uma grande contradição.

Quando o MpD propôs 45 mil empregos, o PAICV resolveu aproveitar para ampliar esse número até 125 mil. O PAICV, de certa forma, endossa a proposta do MpD, de forma que ficou sem nenhuma possibilidade de criticar a capacidade de realização dessa promessa. E também há o bom desempenho do líder do MpD (Ulisses Correia e Silva) na Câmara da Praia, o principal município do país. Tudo isso se juntou e o resultado foi a mudança política verificada.

DW África: Na sua opinião, as promessas feitas pelo MpD são realistas?

JSA: São promessas difíceis de serem realizadas na sua totalidade. Conseguir 45 mil empregos é muito difícil na conjuntura atual porque o crescimento económico de Cabo Verde é muito baixo neste momento, abaixo de 2% ao ano. Para chegar a esse nível de crescimento capaz de proprocionar 45 mil empregos teria de crescer acima de 7%, o que é muito difícil porque o país está muito endividado.

As infraestruturas que foram criadas não têm ainda capacidade de geração de emprego. A qualificação dos recursos humanos ainda é baixa para conseguir uma produtividade elevada. E também a conjuntura internacional não é a mais favorável neste momento.

DW África: Neste contexto, que tarefas tem o MpD pela frente após a vitória?

JSA: Há várias categorias profissionais que reivindicam aumentos salariais, melhorias nos estatutos da classe – questões que não foram resolvidas na última legislatura. O MpD vai ter de resolver isso em primeiro lugar e de imediato. Também vai ter de resolver uma questão pendente que tem que ver com a Transportadora Aérea de Cabo Verde (TACV), que tem um avião arrestado na Holanda por causa de uma dívida que não foi paga. E tem [ainda por solucionar] uma questão de subcontratação ou contratação do sistema portuário.

Tem de pagar as contas e os salários dos funcionários, além da promessa principal de começar a criar as bases para a criação de mais empregos. Tem de melhorar, em primeiro lugar, o ambiente de negócios e reduzir impostos, especialmente na área do turismo porque é o setor que se crê ser mais capaz de gerar mais empregos.

DW África: E como é que fica o partido que esteve 15 anos no poder, o PAICV?

JSA: Com estas eleições, acho que o PAICV vai ter de fazer uma profunda reflexão nas suas escolhas. A escolha que o PAICV fez para a sua liderança foi muito equivocada porque recaiu sobre uma jovem quadro do PAICV, mas que claramente não estava preparada para os desafios que o país tem nesse momento. Ela perde em todas as ilhas sem exceção. O PAICV terá de rever rapidamente isso se quiser continuar a ser, pelo menos, a segunda força política em Cabo Verde. Porque senão corre até o risco de ser até ultrapassado por outro partido. (DW)

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