Análise: Porque é que José Eduardo dos Santos anunciou a sua saída?

CELSO FILIPE Sub-Director do Jornal de Negócios (Foto: D.R.)

Com o anúncio da sua retirada da “política activa”, o Presidente da República de Angola tem o objectivo imediato de aliviar a pressão sobre o país e mitigar as críticas, internas e externas, de que é alvo.

José Eduardo dos Santos anunciou que se vai retirar da política activa em 2018. A decisão, comunicada sexta-feira, 11 de Março, tem desde já um efeito prático: a pressão sobre o país vai aliviar-se, tanto no plano interno como no externo.

Ao estabelecer um horizonte temporal para abandonar a liderança do país, José Eduardo dos Santos retira argumentos aos seus críticos, em particular no que se refere à sua longevidade no poder, e pretende passar a mensagem de que, ele próprio, é um agente promotor da mudança.

O anúncio do Presidente da República tem um enorme ponto de interrogação à frente. Marca 2018 como o ano da retirada, mas nada diz sobre 2017, ano em que se realizarão eleições no país.

E aqui abrem-se duas hipóteses: ou José Eduardo dos Santos não concorre a estas eleições, ou então irá fazê-lo na condição de número um nas listas do MPLA, e por essa via voltará a ocupar o lugar de Presidente da República. Neste último cenário, o seu sucessor será o número dois da lista do MPLA.

Em todo o caso, a promessa de José Eduardo dos Santos desanuvia o ambiente pesado que se abateu sobre o país, podendo mitigar a contestação interna, que subiu de tom com a crise em que o país vive. Por outro lado, também fará baixar a intensidade das críticas internacionais ao regime, as quais terminam invariavelmente na constatação de que José Eduardo dos Santos se perpetua no poder.

Além disso, as críticas ao regime já não podem ser atribuídas aos “inimigos de Angola”, uma catalogação geralmente feita pelo Jornal de Angola.

Até a Igreja, que sempre se manteve discreta, resolveu quebrar o silêncio. Numa nota pastoral tornada pública semana, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé escreve: “A crise económico-financeira em que o país se encontra mergulhado não se deve apenas à queda do preço do petróleo, mas igualmente à falta de ética, má gestão do erário público, corrupção generalizada, à mentalidade de compadrio, ao nepotismo, bem como à discriminação derivada da partidarização crescente da Função Publica, que sacrifica a competência e o mérito”.

José Eduardo dos Santos e o seu Governo têm pois que atalhar caminho para evitar males maiores e esta decisão de sair da “política activa” é um passo grande nessa direcção.

Falta fazer o resto, que é muito, especialmente no que se refere à boa governação e gestão criteriosa do erário público, porque o não cumprimento destas duas regras básicas penaliza fortemente a imagem externa do país e tolhe o seu desenvolvimento.

Mas se a saída de José Eduardo dos Santos resolve parcialmente um problema, também não deixará de criar um outro, resultante da luta pela sua sucessão que agora se vai abrir no MPLA. (jornaldenegocios)

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