Sindika Dokolo: “A Isabel dos Santos devia ser tratada com menos preconceito”

(Miguel Baltazar)

Sindika Dokolo sublinha que Isabel dos Santos “nunca vendeu qualquer activo nem nenhuma empresa” e defende que a crise em Angola teve um lado positivo “porque revelou ao Governo os problemas estruturais” da economia.

Sindika Dokolo ganhou notoriedade pública em Portugal com a compra, por 1,6 milhões de euros, da Casa Manoel de Oliveira, no Porto, que irá utilizar como sede europeia da fundação que leva o seu nome.

Casado com Isabel dos Santos, a filha do Presidente da República de Angola, tem negócios neste país em aéreas como os cimentos e a logística. Já em Fevereiro foi alvo de uma participação feita pelo activista Rafael Marques, que o acusa de esbulho de terras.
Em entrevista ao Negócios, Sindika Dokolo responde a esta acusação, analisa a crise em Angola e fala dos negócios de Isabel dos Santos.

Há quem diga que a participação de Isabel dos Santos no comité de reestruturação da Sonangol tem como objectivo transferir para ela alguns dos activos da empresa.

Nesse caso porque é que ela estaria no comité? Vamos ser sérios. Se Angola fosse um país desses, porque é que ela entraria no comité? Se ela quisesse controlar activos, porque é que não o faria de forma escondida? E volto ao Rafael Marques que já há uns anos que está a fazer um trabalho destinado a criar essa percepção. Mas é preciso olhar as coisas com perspicácia. A Isabel, em todos os projectos que desenvolveu, nunca vendeu nenhum. Uma pessoa que fosse um predador e fizesse tráfico de influência o que faria era assumir uma posição com condições preferenciais e depois revendê-la. A Isabel nunca vendeu qualquer activo nem nenhuma empresa.

Quer dar exemplos?

Vamos ver o caso do BIC. A Isabel criou o BIC com o senhor Amorim, e o senhor Amorim vendeu. A Isabel ficou dentro. O BIC teve um desenvolvimento fortíssimo e a Sonangol nunca teve conta no BIC. Acha realmente que se o que o Rafael Marques tem escrito sobre Angola fosse verdade, o primeiro reflexo não seria: “Conseguimos uma licença bancária e a Sonangol vai colocar lá o dinheiro.” Isso não aconteceu e põe em questão todo o cenário que as pessoas querem montar em torno da Isabel.

Outro exemplo, a Unitel. A empresa foi uma das principais fontes de lucro e dividendos para a Portugal Telecom. Quando a Isabel chegou e disse que essa visão da Portugal Telecom com os brasileiros não era uma boa ideia porque não criava valor e estrategicamente não era uma boa jogada, foi criticada. Hoje, quando se faz o balanço dessa operação, vê-se que foi uma pouca-vergonha.

Ninguém olha para o nível de confiança que ela foi conseguindo criar, ao longo dos anos, na banca. Se for ver o dossiê Efacec, uma boa parte do dinheiro que financiou a compra vem da banca portuguesa e a banca portuguesa vai lucrar com isso como sempre o fez, apoiando projectos da Isabel. O que faz o sucesso da Isabel é a capacidade de capitã de indústria dela, a visão estratégica, o rigor e a disciplina extrema que ela coloca no trabalho.

Em vez disso, fazem a manipulação dos supostos milhões de dólares que ela tem sem nunca olhar para a dívida.

Um estudo interessante que se podia fazer era o de ver, nos últimos 15 anos, quantos empregos foram criados por Isabel dos Santos, quantos impostos em Angola e noutros lugares do mundo foram pagos por ela, quantos empregos portugueses foram criados por Isabel dos Santos. Acho que, no mínimo, ela devia ser tratada com um pouco menos de preconceito e um pouco mais de objectividade.

Porque é que Isabel dos Santos persiste em não falar com a imprensa, em especial com a portuguesa?

O mundo dos negócios não é o da política. Os políticos têm de gerir uma percepção. O que às vezes não se percebe em Portugal é que os verdadeiros capitães da indústria têm de se concentrar nos factos e não na percepção. A Isabel tem responsabilidades, tem milhares de trabalhadores, tem responsabilidades para com parceiros, investidores, bancos, etc., e essa questão de dizer que fazer negócios é ir gerindo a opinião pública não é a cultura dela. Eu respeito isso.

“Esta crise teve um lado muito positivo para Angola”

Sindika Dokolo diz que “é uma sorte para Angola ter um governo que tem experiência na gestão de crises”.

Neste momento, a situação económica de Angola é mais débil, por força da queda do petróleo, o que também tem repercussões ao nível social. Em seu entender estão a ser tomadas medidas para lidar com esta situação?

Esta crise conjuntural do petróleo teve um lado muito positivo, porque revelou ao governo os problemas estruturais da nossa economia. Ainda são necessárias grandes reformas. É preciso rever a presença do Estado na economia, o modelo de funcionamento das sinergias financeiras do Estado e das grandes empresas públicas, nomeadamente a Sonangol, e os mecanismos para dinamizar o sector privado. Esta crise, vendo a situação a longo prazo, vai ter um efeito positivo porque é uma espécie de “reality check”. Acho que o governo percebeu isso e está a tomar as medidas de reformas ou de reavaliação que se tornam necessárias. É claramente uma oportunidade, especialmente para uma economia cujo PIB está com um crescimento acima de dois dígitos, mas que que ainda tem grandes problemas e desafios pela frente. Ou seja, os grandes desafios dos países subdesenvolvidos, em particular dos africanos, são os de transformar o crescimento económico num melhoramento das condições de vida da população, no acesso ao saneamento básico, em mais educação, etc.

Acredita que este governo tem condições para fazer essa mudança?

É uma sorte para Angola ter um governo que tem experiência na gestão de situações de crise. A crise tem sido gerida com muito sangue-frio e muito controlo. Não há pânico e ninguém está a ver a situação com base no curto prazo. As medidas de reforma a longo prazo continuam o seu ritmo e os grandes projectos de obras públicas continuam a ser uma prioridade. O aspecto fundamental neste tipo de crises é não entrar em pânico e conseguir manter a confiança. O leme está sempre sob controlo e tem existido uma estratégia coerente do governo.

Dentro de um ano irão ter lugar eleições em Angola. O governo do MPLA tem condições para se manter no poder?

Estamos a passar um momento de crise, todos estão a senti-la com a desvalorização do kwanza face ao dólar e o custo de vida que está a ficar mais caro, e isso cria tensão ao nível da população em geral. Teremos eleições em 2017 e não tenho a menor dúvida que a grande maioria dos angolanos percebe que o MPLA é o partido mais habilitado a gerir esta crise e a sair dela com um modelo económico e social ainda mais forte.

Estou muito confiante nisso. Vou muito às províncias e constato os efeitos positivos das políticas de encorajamento e dinamização da produção local e da criação de infraestruturas. E isso faz-me pensar que, apesar da conjuntura difícil, 2017 será um ano de confirmação da superioridade do MPLA.

“Rafael Marques é um testa-de-ferro”

Sindika Dokolo foi alvo de uma queixa apresentada pelo jornalista angolano, Rafael Marques, tendo como motivo um terreno no Kwanza Sul. O empresário diz que a agenda de Rafael Marques é definida pela estratégia dos seus patrocinadores.

Foi alvo de uma participação feita por Rafael Marques, em que este o acusa de esbulho de terras no Kwanza Sul e de ser favorecido com a entrega a uma sua empresa, a Sokilinker, de um terreno de sete mil hectares? Como é que comenta esta queixa?

Tem a ver com a agenda de Rafael Marques. Ou seja, há uma estratégia dos patrocinadores e dos patronos dele, que financiam as suas actividades, cujo objectivo é acentuar a pressão. Usando um perfil de jornalista ele devia respeitar um código de ética, porque ele não pode dizer que combate o totalitarismo e a propaganda em Angola, quando ele é o maior propagandista. Ele nunca tem uma visão objectiva. Tenta sempre pegar nalguma coisa, que não é nada de especial ou grave, e fazer um escândalo dela. E o problema é que à medida que nos vamos aproximando das eleições, a sua agenda está a acelerar e ele está a cometer erros, acumulando falta de competência com falta de ética.

Mas como responde a esta participação em concreto?

Bastava ele verificar com o dono, neste caso com a Sokilinker, uma empresa da qual sou o accionista maioritário, e com a documentação que conseguiu. Aí veria que não são sete mil hectares mas sim sete. A Sokilinker é uma empresa de logística, e porque em Angola estamos a viver uma crise forte, uma das estratégias é desenvolver e dinamizar a produção agrícola local. O Kwanza Sul é uma província estratégica em relação a esse objectivo e o que a Sokilinker decidiu fazer, no âmbito dos projectos de supermercados que a minha mulher está a desenvolver, foi criar uma rede que permitirá a recolha de produtos agrícolas.

Quando se refere a patronos está a pensar em quem?

Não sei, nem me interessa. Mas uma coisa é clara: antigamente havia uma maneira de desestabilizar os países e agora há outra, que é usar este tipo de personagem para tentar criar uma percepção ao nível da opinião pública capaz de desestabilizar países e Estados.

Sou a favor da liberdade de expressão mesmo que às vezes seja um pouco doloroso e desagradável, mas acho que é um preço que vale a pena pagar para pessoas como eu ou a minha mulher, porque o tipo de sociedade que nós queremos é uma sociedade com contrapoderes e possibilidade de criticar. O que combato é o facto de criarem estratégias e tentativas para chegar ao poder em Angola, não através das eleições.

A quem interessa essa desestabilização?

Não perco tempo com essas teorias de complô, mas é claro que Rafael Marques não trabalha com meios próprios. É um fenómeno que já vimos em muitos países da Europa Central, da África do Norte, do Médio Oriente. Ele é claramente um testa-de-ferro dessa estratégia.

Perfil – Com a arte no sangue

Sindika Dokolo nasceu a 16 de Maio de 1972 em Kinshasa, actual capital da República Democrática do Congo. Herdou do pai, Augustin Dokolo Sanu, banqueiro falecido em 2001, o gosto pela arte, sendo actualmente um dos maiores coleccionadores de arte africana contemporânea. O seu acervo está reunido na fundação que leva o seu nome. Fez os seus estudos em França, tendo-se licenciado em Economia, Comércio e Línguas Estrangeiras na Universidade Pierre e Marie Curie. Em 2003, Sindika Dokolo casou-se em Luanda com Isabel dos Santos, filha do Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, da qual tem três filhos. É em Angola que tem a sua base de negócios. (Jornal de Negocios)

2 COMENTÁRIOS

  1. é inveja de quem não sabe agradecer. obrigado pai Sindika pela tua Isabel, e boa gente boa para nossa Angola. boa para nossos filhos, com mais empregos e trabalho. siga fazendo o bem. obrigado.

  2. As pessoas só falam quando alguém esta subir na vida, envés de verem isto como uma fonte de inspiração, preferem e criticar, eu me lembro ainda quando a Unitel não era uma empresa de renome e hoje vê-se que a D.isabel teve que dar no duro para Unitel estar onde ta agora. O sucesso dos outros incomoda. envés de pensarem no numero de empregos que as empresas da D. Isabel esta a criar não, querem e inventar coisas que não sabem.
    My advice, people hate because you are doing well, and if you were doing bad they would still talk. keep doing you and i hope you continue to grow and i believe that you will continue to provide the Angolan people with new jobs opportunities.

    ps: I hope you read this (not everyone is against you)

DEIXE UMA RESPOSTA