O carnaval em Angola já não é o que era: foliões quase nus e grupos sem “kumbú”!

(DW)

A “descaracterização” preocupa os apreciadores do “entrudo” de Angola. Muitos queixam-se mesmo do “nudismo”. Outros querem que o Carnaval volte aos bairros populares. A falta de “kumbú” (dinheiro) é outra preocupação.

Mesmo assim, os angolanos continuam a “brincar bué” ao Carnaval. Mais: tentam reviver o ambiente “louco” das primeiras festas carnavalescas depois da independência, com destaque para o “Carnaval da vitória”, cuja primeira edição foi realizada em 1978.

Marginal de Luanda: é aqui que o desfile "oficial" tem lugar (DPA)
Marginal de Luanda: é aqui que o desfile “oficial” tem lugar (DPA)

Luanda: tudo se concentra na marginal

Antigamente as festas começavam nos diferentes bairros de Luanda. Hoje o grande desfile é na marginal, assim como noutros locais “indicados pelas autoridades”.

Dionísio Rocha, uma das figuras que conhecem bem o Carnaval angolano, diz que o modelo adoptado, “no qual os grupos baixam de divisão, tal como acontece nos campeonatos de futebol”, contribuiu para uma diminuição considerável da qualidade do entrudo: “Se de doze grupos concorrentes descem seis e ficam apenas outros seis! Então no ano seguinte há menos concorrentes e, por conseguinte, menos qualidade”, sublinha Dionísio.

Ritmos angolanos marcam o ambiente

Nesta fase, os foliões de diferentes grupos como “União Mundo da Ilha”, “União 10 de Dezembro”, “Unidos de Caxinde”, e tantos outros, cantam e dançam estilos como a kazukuta, semba ou kabetuala. Ao mesmo tempo tentam passar mensagens sobre algumas realidades bem presentes, nos dias que correm, num “país em crise”.

O grupo “Amazónia do Prenda”, do distrito urbano da Maianga, levou para esta edição de 2016, uma alegoria que representa o discurso proferido por Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, na primeira edição do Carnaval angolano em 1978.

Dinheiro é o que mais falta

Em Angola praticamente ninguém consegue viver do teatro. Ou seja: o Carnaval continua a não ser uma actividade rentável. Por isso, na província do Bengo, os desfiles, este ano, não vão acontecer. Para os principais clubes de Carnaval as dificuldades financeiras são “grandes demais”, como confirma um dos responsáveis dos grupos “União Independente do Kingungu” e “Ngola Mbandi”. Lager Maria diz que a comissão organizadora este ano nem sequer reuniu condições para o prémio: “Recebemos a triste notícia no dia 27 de Janeiro, mas na altura já tínhamos tido algumas despesas. Agora tentamos aproveitar o material para a edição de 2017, porque 2016 já era”, conclui Lager.

Como evitar a “perda de identidade”?

Invariavelmente, os apreciadores do Carnaval de Angola apontam uma preocupação: o perigo de aculturação, ou seja a perda do que caracteriza o carnaval angolano: Existe mesmo quem se queixe do “nudismo que antigamente não existia e que hoje é um facto” nesta manifestação cultural de um povo que – ainda há bem pouco tempo – era considerado muito “conservador”. Dionísio Rocha afirma, a título de exemplo, que há muitas moças de Luanda que se apresentam “seminuas” nos desfiles como membros das etnias mumuila ou mucubal, do sul de Angola: “Será que é mesmo necessário andarem com as xuxas (seios) à mostra?”, questiona Dionísio Rocha. (DW)

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