Novo ciclo económico para Angola

José Chimuco (Foto: joaquina Bento)

A baixa do preço do petróleo no mercado internacional abre uma oportunidade soberana ao governo angolano e o empresariado nacional, no sentido de se aproveitar o difícil momento para a identificação de apostas que darão sustentabilidade à diversificação da economia.

Se o desafio está aberto, necessário será tomar o assunto com seriedade, empenho e patriotismo, para que essa aposta não venha a passar de mais um refrão, sem benefícios para o país e a população.

O governo deu o tiro de partida, ao definir quais são os programas a executar para a produção de bens que constituem a cesta básica, produtos que, dada a insuficiência da sua produção interna, mais consumiam dólares para a sua compra no estrangeiro.

É intenção do governo que os produtos da cesta básica sejam maioritariamente produzidos no país, num esforço que visa não só a auto-suficiência, mas a exportação do excedente, venda essa que contribuirá para o aumento da receita em divisas, que, paulatinamente, contribuirão para a diminuição do peso do petróleo na economia.

A aposta é complexa, de difícil concretização, leva tempo e exige muita entrega e responsabilidade no seio das entidades que traçam as políticas governamentais, por um lado, e os seus executores, estes últimos sobretudo do sector privado.

Definidos que estão os produtos que o país deve produzir, o passo seguinte será identificar onde se deverá levar a cabo essa produção.

Neste particular, será necessário o redesenho dos pólos de desenvolvimento, numa base mais realista e exequível. Parta-se do princípio de que a diversificação não trará consigo a varinha mágica para o abastecimento, no imediato, de todos os produtos necessários para a alimentação dos angolanos. Será necessário tempo, paciência e muita persistência.

Como ponto de partida, apenas para dar um exemplo, será necessária a redinamização da produção na chamada “Cintura Verde” de Luanda, que tem enormes potencialidades para abastecer a província de vários produtos, com tónica para os hortofrutícolas, frangos e ovos.

O primeiro passo será que o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural passe em revista a listagem das terras distribuídas a entidades públicas e privadas, que se destinam à produção agrícola, principalmente nos municípios de Icolo-e-Bengo, Cacuaco, Viana e Quissama. Esses terrenos terão que ser devidamente controlados. Aqueles cidadãos que já beneficiaram de empréstimos bancários e que mais não fizeram senão desviar o dinheiro para outros fins e avolumar o crédito malparado, deverão ser preteridos na altura de concessão de mais apoios.

Será de todo importante acarinhar e reforçar os produtores que utilizaram o dinheiro emprestado para os fins a que se haviam proposto. De igual modo, os estreantes com projectos bem elaborados deverão ser apoiados.

Outra questão está relacionada com o apoio externo na hora do redesenho dos pólos de desenvolvimento, sobretudo quando se trata de exploração de grandes espaços. Na verdade, Angola possui pouca experiência na produção agrícola ou pecuária de grande escala. Será necessário o concurso de países com maior experiência nessa matéria, como são os casos do Brasil e Israel, apenas para citar estes dois, que já actuam no mercado, mas que deveriam reforçar a sua presença em todas as províncias de Angola.

A assessoria externa não se deve confinar às entidades estatais ou aos grandes produtores. Os privados de médio porte e os agricultores individuais também devem beneficiar dessa ajuda na hora da elaboração dos seus projectos. E, uma vez que a consultoria é bastante cara em Angola, o Estado deveria, sim, encontrar formas de ajudar os interessados, mesmo que seja para deduzir essa ajuda das colheitas, no caso da aposta na agricultura.

Será importante que o redistribuição dos pólos de desenvolvimento venha a ter igualmente em conta os factores de produção. Se já se decidiu o que cultivar, essa produção deverá ser feita onde haja facilidades de água, energia eléctrica, solos aráveis e estradas para o escoamento rápido dos bens produzidos.

Para uma produção em grande escala de milho, feijão e arroz, por exemplo, as províncias ideais serão mesmo Benguela, Huambo, Bié e Moxico. Por uma simples razão: a linha do Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB). Esta opção não limita outras províncias que, eventualmente, tenham potencialidades nesse domínio, mas o Estado deverá concentrar o esforço nas quatro citadas.

Há que começar a rentabilizar os vários milhões de dólares investidos na reabilitação desta infraestrutura viária, que dá forma ao corredor do Lobito, no quadro da Conferência de Desenvolvimento da África Austral (SADC). Se o CFB começa a voltar à sua anterior condição de gigante adormecido, a nível regional, há que rentabilizá-lo no país. Assim, os espaços a conceder para a produção agropecuária deverão estender-se ao longo da extensão da linha férrea, a fim de que a produção seja facilmente escoada para o Lobito, de onde seguirá, por estrada, para outros destinos nacionais, e por mar, para o estrangeiro.

Outro eixo que deve ser tido em conta na hora de decisão sobre os territórios a implantar as fazendas deve ser o que integra as províncias do Namibe, Huíla e Cuando Cubango. Aí, também, existe a facilidade de aproveitamento do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes (CFM), outro gigante reabilitado depois do cessar da guerra em Angola.

Qualquer esforço a ser empreendido terá que ser acompanhado de um elevado sentido de responsabilidade, empenho e participação de todos. Ao Estado cabe a responsabilidade de traçar, controlar a concretização das políticas a seguir e disponibilizar os meios necessários ao avanço da diversificação da economia.

Da parte das entidades empresariais privadas e dos produtores individuais deverá haver uma atitude de aproveitamento da oportunidade para bons e lucrativos negócios, mas, também, de patriotismo.

Na verdade, só com uma atitude patriótica e de valorização do que é nacional Angola caminhará firme e segura, rumo ao desenvolvimento económico e bem-estar social da sua população.

Uma resposta à medida do desafio

O governo deu o primeiro sinal de firmeza e determinação, ao proceder, no dia 20 de Fevereiro de 2016, ao lançamento, no município do Cuchi, província do Cuando Cubango, de um projecto agropecuário de 40 fazendas para a criação de gado bovino, com o objectivo de, numa primeira fase, produzir carne para o consumo interno e, num segundo momento, escoar a produção para os mercados regional e internacional.

Esta primeira resposta, à medida do desafio, é um exemplo mais que ilustrativo do que se pretende na aposta de diversificação da economia e combate às dificuldades impostas pela baixa do preço do petróleo.

A parceria público-privada angolana e brasileira quebra o gelo e vem demonstrar que os programas produtivos dirigidos vão mesmo avançar, contra o cepticismo que se instalou em círculos da oposição política angolana, mais interessados em desacreditar os esforços governamentais virados para a instauração no país de um novo ciclo económico, independente do petróleo.

A experiência, que será executada numa área total de 200 mil hectares, numa média de cinco mil para cada fazenda, proporcionará, numa primeira fase, dois mil postos de trabalho directos, ao mesmo tempo que incentivará a atracção de mais investimento estrangeiro e o surgimento de pequenos negócios.

Além das 40 fazendas, os empresários nacionais locais beneficiarão de mais 10, numa empreitada que envolverá empresários do Cunene, Bié, Huíla, Luanda, Malanje, Uíge, Huambo e Cuando Cubango.

O empreendimento a ser erguido no Cuchi, Cuando Cubango, vem provar que mais vale tentar tarde do que nunca, ao mesmo tempo que é um exemplo vivo de que, desta vez, Angola identificou a diversificação económica como a única via capaz de garantir uma caminhada estável e sustentável, rumo ao desenvolvimento económico e social. (ANGOP)

por José Chimuco

1 COMENTÁRIO

  1. Tomara que não fique só no papel, é o cumulo do absurdo angola ter que importar produtos da cesta básica, ou melhor, Angola tem muitos com dinheiro, deveriam investir aqui e não no exterior. as poucas industrias existentes são quase em totalidade estrangeira.
    Todos falam em crise, não vejo assim, ha é uma grande especulação, cada grão de arroz que entra no pais, entra também para o sistema quilos de dinheiro. isto precisa e vai acabar.

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