Metamorfose do Entrudo em Angola

Kabocomeu, vencedor da primeira edição do Carnaval angolano pós independência nacional, desfilando na Nova Marginal (Foto: Gaspar dos Santos)

Reza a história que o Carnaval chegou a Angola há vários anos por via dos portugueses. A performance de cada grupo era definida na base dos aplausos e aceitação do público, sendo considerado o melhor quem arrastasse maior número de foliões.

Enquanto no mundo tradicionalmente o também denominado de Entrudo, designadamente em países da Europa como França desfilavam pelas ruas lançando-se pó de arroz, flores e perfume, na festa lusa o ritual cumpria-se com jactos de água e fuba, passando a ser assim também no país.

A adopção de formas mais representativas da cultura nacional foi inevitável como a maneira de dançar, os trajes peculiares incluindo a imitação da coroa de um rei e de uma rainha marcam até hoje a diferença relativamente ao resto do mundo.

Grupos como a “Cidrália” e os “Invejados” se destacaram no período de 1940. Era também uma forma de fazer teatro baseado em insultos por via da dança e do canto. Há relatos de que, nalguns casos, chegava-se a agressões físicas.

Após os confrontos de 4 de Fevereiro, em 1961, o governo de Portugal passou a impedir o desfile com máscaras, resultando na desistência de vários grupos.

De 1961 até 1965 não houve Entrudo, mas em 1966, um despacho autorizou a festa, mas organizada pelas câmaras municipais. Foi assim que a cidade do Lobito (Benguela) se destacou, chegando mesmo a ser considerado o mais animado e organizado Carnaval em Angola.

Este período de glória do Lobito terminou com a revolução dos cravos, a 25 de Abril de 1974, em Portugal. Em 1975, ainda tentativas de realização do Carnaval nalgumas províncias.

O Carnaval da Vitória

Após a independência, alcançada a 11 de Novembro de 1975, o primeiro Carnaval aconteceu em 1978, tendo como vencedor a União Operário Kabocomeu.

O ressurgir das festividades carnavalescas na então República Popular de Angola foi protagonizado pelo Fundador da Nação e primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, designando o Entrudo de Carnaval da Vitória.

Num discurso realizado no actual distrito do Cazenga, o escritor e também poeta nacional de todos os tempos apelou aos angolanos à celebração das vitórias conquistadas pelo país. O Carnaval da vitória reinou por longo tempo.

O Carnaval de Luanda

O Entrudo em Luanda incorporou, ao passar do tempo, uma gama de tradições locais, enraizando-se profundamente na cultura da cidade. De início, o Carnaval constituía uma festa inteiramente espontânea, organizada por associações dos bairros que escolhiam os ritmos e percursos a serem executados pelos grupos sob sua liderança.

Entre as classes mais abastadas, o Carnaval constituía-se numa festa menos popular, inspirada por tradições europeias. A partir de 1987 o Carnaval luandense ganhou contornos mais distinguíveis, em razão do reconhecimento oficial da festa pela municipalidade.

A partir de então, a Marginal de Luanda tornou-se o centro da competição pelo título de melhor do ano, prática que persiste até aos dias de hoje, com a diferença de que agora o palco é a Nova Marginal.

Os principais estilos musicais executados na festa da capital do país são o Semba, a Kabetula, a Dizanga e a Kazukuta.

O vencedor da primeira edição, disputada em 1978, foi a União Operário Kabocomeu, do distrito do Sambizanga, grupo que se notabilizou pelo uso de indumentárias e sombrinhas pretas.

De lá para cá, o União Mundo da Ilha é o campeão dos campeões com 12 títulos conquistados, sendo o primeiro em 1980 e o último em 2008, seguido do União Kiela (cinco, o primeiro em 1985 e o último em 2009).

Seguem-se na lista dos mais titulados o União 10 de Dezembro (quatro primeiro em 1991 e o último em 2006) e a União Angola Independente (três o primeiro em 1994 e o último em 1996). O campeão em título é a União Sagrada Esperança com três troféus em 2011, 2014 e 2015.

Ausência do Carnaval nas ruas de Luanda

Variados motivos podem ser apontados para justificar ou explicar a ausência de manifestações carnavalescas nas ruas da capital do país, sendo a falta de iluminação e segurança os factores mais apontados por especialistas.

Longe das manifestações nas urbes que se tornaram célebres até ao período dos anos 90, o Carnaval hoje está praticamente confinado ao desfile na Nova Marginal de Luanda.

Já não se vêem grupos a “deambularem” fundamentalmente nos bairros como no antigamente é a questão recorrente é: falta de segurança e iluminação.

Nalguns casos também se apontou a descaracterização da urbanização na periferia, o estreitar das ruas e a falta de patrocinadores.

Tirando o período de ensaios nas respectivas sedes e de alguma movimentação, habitualmente nos mercados, não se vê o pôs desfile oficial como antigamente quando, por exemplo, os grupos paravam e dançavam à porta de um cidadão para a devida gratificação – era, na verdade, uma festa de que há muito tempo os luandenses estão desabituados.

O actual palco

O actual palco da disputa anual do Carnaval de Luanda, bem defronte ao Mausoléu, prestigia bem a dimensão do primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, enquanto defensor da cultura nacional.

O espaço, o Mausoléu, onde repousam os restos mortais do poeta maior e Herói Nacional, foi inaugurado a 17 de Setembro de 2012 pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Também denominado Memorial Dr. António Agostinho Neto, situa-se no extremo sul da Nova Marginal da capital, junto à Praia do Bispo.

Integra um edifício com uma torre de 120 metros de altura e uma área total de 18 hectares.

A construção iniciou-se em 1981, e, após uma interrupção de vários anos, as obras prosseguiram em 2005, com a recuperação da estrutura de betão armado do edifício e a execução de toda a arquitectura envolvente, com espaços ajardinados e de lazer.

O edifício dispõe de salas de exposição e conferências, e na parte frontal foi criada uma pista para desfiles e uma tribuna, rodeada de bancadas com dois mil lugares.

Agostinho Neto pereceu a 17 de Setembro de 1979, data instituída como dia do Herói Nacional.

Além do Carnaval, outras manifestações quer sejam de carácter desportivas, culturais, sociais ou políticas têm sido realizadas naquele espaço privilegiado de Luanda. (ANGOP)

por Marcelino Camões

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