Isabel Martins: “Estamos descaracterizar a cidade de Luanda”

(Foto: Lito Kahangulo)

No passado dia 25 de Janeiro, a Cidade de Luanda comemorou o seu 440 anos de fundação. Para fazer uma avaliação da estrutura arquitectónica da cidade convidamos a arquitecta Isabel Martins, que considera as intervenções pelas quais a cidade passa têm que ser mais cuidadosas.

A Chefe do Departamento da Arquitectura da Faculdade de Engenharia, licenciada em Arquitectura e doutorada na especialidade de História de Arquitectura e das Cidades (pela Universidade do Porto), Isabel Martins, revela que a Cidade de Luanda está descaracterizada, e perdeu a sua essência acolhedora e aconchegante. Afirma que Luanda é mais uma entre tantas outras.

No dia 25 de Janeiro, a cidade de Luanda completou 440 anos desde sua fundação. Que avaliação que faz do Plano Director geral Metropolitano de Luanda?

Não sei muito sobre o Plano Director-geral porque não tive oportunidade de ler com profundidade. Mas, o que me parece é o Plano ter como intenção de se melhorar a Cidade de Luanda nos seus aspectos estruturais. Luanda é uma cidade que foi construída para cerca de 500 mil habitantes, e hoje possui aproximadamente 6 milhões de cidadãos, o que representa uma desproporção muito grande. Isso em termos de cidade significa: infraestruturas que não existem para estas seis milhões de pessoas, tal como habitações, serviços, escolas, hospitais, entre outros. Enfim, é uma cidade que não está apta a albergar essa população. Por isso, o Plano Director-geral Metropolitano de Luanda tem uma perspectiva de 2030 e tenta dar à cidade infraestrutura necessária (saneamento, serviços, escolas), tudo que faz falta ao homem para o seu desenvolvimento.

Este projecto vai ser executado em 15 anos, coordenado pela empresa Urbinvest e Casa Civil, que prevê um orçamento de 1000 milhões de dólares/ano. Acredita que seja tempo e orçamento suficiente?

Em termos de orçamento não faço a mínima ideia, é que nem muita nem pouca. Os 15 anos, que já não o são pois agora são 14 por conta do novo ano em que nos encontramos, vão dar início a essas actividades todas. Temos visto, por aquilo que têm sido as obras em Luanda que o tempo demora muito, quer dizer, o tempo passa e as coisas não acontecem, não é?!Vemos estradas mal feitas. Por isso esperamos que essas estruturas que vão ser feitas estejam de acordo com os preceitos, seja de boa execução e de boa durabilidade. Na realidade, quando se trata de obras públicas, como se assenta para este caso específico, temos que pensar na sua durabilidade, pois é esse o objectivo.O Plano Director-geral vai abranger uma área da Metrópole, cerca de 526 mil e 100 hectares, é uma área imensa. Em toda essa área vão-se desenvolver estruturas e novos assentamentos, pois falta cada vez mais habitação para uma população que cresce rápido. Em 2030, espera-se que a população seja de 12,9 milhões a residir na Cidade de Luanda. Quer dizer que vai duplicar. Com isso haverá o aumento de transporte, utilização das vias e estradas, habitação que é necessária porque a nossa Constituição cita que cada pessoa tem direito a uma habitação, então temos que perspectivar um crescimento igual à população.

Que perspectiva arquitectónica tem da cidade de Luanda?

Vejo as coisas muito mal. Aquilo que estamos a fazer na Cidade de Luanda além de descaracterizá- la, que era acolhedora, aconchegante e é evidente que também tinha muito menos população, mas de qualquer maneira o sentimento era esse. Todas as intervenções, que temos visto, tiraram-lhe esse carácter. Transformam a cidade igual as demais existentes no mundo. Portanto, pode ser como na América Latina, na Europa ou na Ásia, é este sentimento que passa. Agravando-se pelo facto de que a arquitectura destes edifícios que estamos a construir não são amigos do ambiente nem do homem. Digo isto porque um dos materiais de construção, que actualmente faz parte desta arquitectura, é o vidro. Ainda que este seja especial, o vidro é um material de construção que capta todo o raio solar, mesmo que tenha tratamento, acaba sempre por provocar no ambiente super aquecimento.

Esses edifícios são construídos em altura. Abrir uma janela num andar superior pode ser um tanto perigoso. Pode ser sugada para o exterior, por exemplo. Pode provocar uma ventania dentro dos compartimentos. Falo por experiência própria, morei no quarto andar, abri a janela com a ventania e parti uma ‘data’ de coisas. Isto é apenas para exemplificar quais são os efeitos que podem ser resultantes de se abrir as janelas, nas alturas. Por outro lado, para se ter um ambiente confortável dentro desses compartimentos que são invadidos pelo Sol e que não têm muito arejamento, o gasto de energia eléctrica é altíssimo. Luanda não precisa de edifícios tão altos, nós temos território sufi ciente para construir sem ser em grandes alturas. (semanarioeconomico)

Por:  Magdala Azulay

 

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