FIFA: A máquina de fazer dinheiro que sucumbiu à corrupção

(EURONEWS)

A propósito das eleições presidenciais na FIFA recuperamos a pior crise de corrupção no Comité Executivo do organismo máximo do futebol mundial, em 2015, a pior nos 111 anos da sua história. Olhamos, também para como a FIFA ganha milhões e é a instituição mais rica do desporto mundial.

Sobre a FIFA

Os pilares da FIFA são simples:

“Desenvolver o desporto, tocar o mundo, construir um futuro melhor”.

Em 2016 há 209 membros para ajudar a alcançar esses objetivos, ou seja, mais membros do que tem a ONU (Organização das Nações Unidas).

Para serem membros da FIFA, as associações e federações nacionais têm, primeiro, de ser membros de uma das seis confederações continentais. A UEFA para a Europa, a CAF para África, a CONCACAF para a América do Norte, América Central e Caribe, a AFC para a Ásia, a CONMEBOL para a América do Sul e a OFC para os países da Oceânia.

Do Congresso ao Comité Executivo da FIFA

209 membros dessas confederações formam o Congresso da FIFA, o parlamento do futebol mundial, o órgão supremo e legislativo da FIFA.

Este órgão toma decisões no que diz respeito aos estatutos que regem a aceitação de novas associações, promove eleições, para a presidência da FIFA, por exemplo e, desde 2011, vota os países anfitriões dos mundiais de futebol.

Cada associação-membro tem direito a um voto, bem como igual fatia do bolo de receitas da FIFA, independentemente, do seu tamanho. É um princípio democrático, mas que muitos argumentam que aumenta a vulnerabilidade à corrupção já que dá aos países mais pequenos uma influência desproporcionada.

O voto de Monserrat, uma pequena ilha das Caraíbas, tem o mesmo peso que o da poderosa Alemanha.

Acima do congresso está o Comité Executivo da FIFA que decide sobre a organização das competições e o desenvolvimento do futebol, em geral.

“Os Princípios da Corrupção*

Durante os 24 anos de mandato do ex-presidente João Havelange a questão da corrupção já pairava no ar.

De acordo com documentos judiciais suíços, divulgados em 2011, Havelange e o seu cunhado Ricardo Teixeira, antigo executivo da FIFA e ex-presidente da Federação de Futebol do Brasil, arrecadaram milhões de dólares, nos anos 90, através de uma empresa de marketing, pelos direitos de transmissão da FIFA. Nunca foram julgados.

Havelange foi presidente até 1998 altura em que Blatter, seu secretário-geral de longa data e braço direito, assumiu o comando.

A cultura da corrupção já lá estava, mas foi com Blatter que a FIFA implodiu.

Uma investigação inicial sobre a atribuição suspeita dos mundiais de 2018 e 2022 foi conduzida pelo FBI, com a ajuda das autoridades suíças, para investigar transações financeiras duvidosas da FIFA, de várias décadas.

Mas não teria, seguramente, acontecido sem “Chuck” Blazer, antigo executivo do Comité Executivo da FIFA corrupto que passou a informador do FBI. Blazer chegou a ser um homem influente nos Estados Unidos e viva num mundo com jatos particulares, amigos famosos, viagens secretas e contas bancárias offshore. Tinha também um apartamento de 18.000 dólares, por mês, na Trump Tower, mais um espaço de 6.000 dólares, por mês, só para os seus gatos.

Num período de 20 anos Blazer desviou dezenas de milhões de dólares.

Depois de não pagar impostos, durante 10 anos, o FBI e a Autoridade Tributária caçaram-no.

Em 2011, aquele que ficou conhecido por Sr. 10 por cento, declarou-se culpado de evasão fiscal, lavagem de dinheiro, extorsão e fraude eletrónica.

O Começo do Fim

Foi nessa altura que Blazer decidiu mostrar cartão vermelho aos seus grandes amigos da FIFA, que delatou. Entre eles
o ex-presidente da CONCACAF, Jack Warner, seu antigo patrão e um dos homens mais influentes no mundo do futebol.

Este natural de Trindade e Tobago, de 73 anos, demitiu-se em 2011 entre acusações de alegada corrupção, acabou banido para sempre, no ano passado, por violar, várias vezes, o código de ética da organização.

Warner comprou, alegadamente, os direitos da União Caribenha de Futebol, para os mundiais de 2010 e 2014, à FIFA, por cinco por cento do valor de mercado. O que lhe permitiu fazer milhões de dólares em lucros quando os vendeu. Também terá, alegadamente, aceitado um suborno de 10 milhões de dólares para votar pela atribuição do mundial à África do Sul.

Warner usou também a sua influência e posições oficiais para obter ganhos pessoais e agora é procurado pelos EUA por corrupção, mas, até agora, evitou a extradição.

EUA VS FIFA

Mas por que é que os EUA, que estão longe de ser o maior adepto de futebol, encabeçam a acusação na alegada corrupção na FIFA?

Com a venda dos direitos de marketing e transmissão para os campeonatos do mundo e outros torneios que organizam, a FIFA e as suas confederações conseguem somas de “fazer cair o queixo”.

Os subornos e propinas pagas a funcionários da FIFA, por executivos de marketing, na esperança de ganharem os contratos, decorreram, algumas vezes, em reuniões nos EUA e parte do dinheiro foi transferido de contas bancárias norte-americanas.

Como afirmou o diretor do FBI, James B. Comey, se os membros corruptos de uma organização utilizarem o sistema financeiro dos EUA, ou o país para reuniões obscuras, o FBI e o Departamento de Justiça dos EUA vão agir.

As autoridades dos EUA estão a usar o mesmo ato usado por Rudy Giuliani para apanhar os chefes das cinco famílias da máfia, na década de 1980.

Em 2015 um total de 41 pessoas e entidades ligadas à FIFA foram acusados nos EUA. E dos 24 membros do Comité Executivo – desde 2010, quando os mundiais da Rússia e Qatar foram atribuídos – 12 foram acusados ​​de corrupção, foram expostos enquanto corruptos ou estão sob investigação. Incluindo o atual presidente banido, Blatter, e o homem que muitos pensavam que iria substituí-lo – Michel Platini.

Uma organização sem fins lucrativos?

No capítulo do dinheiro, podemos dizer que a história da FIFA é curta mas bem-sucedida. Em 2003, de forma voluntária, a FIFA passou a apresentar os resultados financeiros, de acordo com as normas financeiras internacionais (o que, nessa altura, era apenas obrigatório para as empresas europeias cotadas em bolsa). É importante sublinhar que a Federação se define como uma “associação de associações sem fins comerciais ou lucrativos”. Antes de analisarmos os números, é importante frisar que a maioria das atividades da FIFA são realizadas em dólares. Os resultados financeiros são apresentados em dólares dos Estados Unidos.

Lucros imparáveis

Em 2003, os rendimentos do organismo internacional totalizaram 575 milhões de dólares e a partir daí não pararam de aumentar. Em 2009, a FIFA ultrapassou os mil milhões de dólares e, em 2014, ganhou mais de dois mil milhões de dólares. A FIFA diz que quase 70% do dinheiro é investido em atividades ligadas ao futebol, como o financiamento de programas de desenvolvimento e de competições.

O evento mais célebre é, sem dúvida, o campeonato do mundo. É também o mais lucrativo. A FIFA afirma que o campeonato do mundo, no Brasil, em 2014, foi um grande sucesso. Em termos financeiros, o evento gerou mais de 4,8 mil milhões de dólares entre 2011 e 2014. O dinheiro vem sobretudo da venda dos direitos televisivos e do marketing.

Os patrocínios

E quem são os patrocinadores? Existem três categorias de patrocínios. Em primeiro lugar, os parceiros da FIFA: seis empresas que beneficiam dos laços estreitos com a organização e que podem patrocinar todos os eventos. No caso do campeonato do Mundo de 2014, os contratos tinham durações variáveis. Refira-se que a Sony e a Emirates cortaram laços com a FIFA e anunciaram que não renovariam os contratos para além de 2014. O nível seguinte de patrocínios tem uma limitação temporal: os contratos vigoram apenas durante um campeonato do mundo e uma taça das confederações. E, finalmente, a última categoria integra os chamados apoios nacionais e destina-se aos patrocinadores que operam exclusivamente no país anfitrião.

O que ganha o país anfitrião?

A pergunta é: o que ganha o país anfitrião, para além da glória? Os países competem ferozmente para acolher o evento desportivo mais popular do mundo e devem pagar os custos das infraestruturas. Por exemplo, o campeonato do mundo no Brasil custou 15 mil milhões de dólares. Apenas dois mil milhões vieram da FIFA. O organismo internacional considera que as despesas, nomeadamente as infraestruturas, não estão diretamente ligadas ao custo do campeonato e, que, parte desse dinheiro, seria, de qualquer modo, gasto pelo país.

Alguém paga impostos?

Como já referimos, trata-se de uma organização sem fins lucrativos. A FIFA até diz que não obriga à construção de estádios. O país deve apenas seguir um conjunto de regras, como a responsabilidade social e a sustentabilidade ambiental dos novos estádios. Mas essa responsabilidade social não inclui o pagamento de impostos.

A FIFA é uma associação registada na Suíça. Por isso, é submetida às regras de imposição aplicáveis às associações suíças e paga impostos sobre a diferença entre rendimentos e despesas.

Para ter uma ideia dos impostos pagos pela FIFA, basta fazer uma subtração entre os rendimentos (5,718 mil milhões de dólares) e despesas (5,38 mil milhões de dólares), a partir dos dados de 2001 a 2014. Obtém-se um total de 338 milhões de dólares. Sendo assim, a FIFA pagou 75 milhões de dólares de imposto. O que representa 22% dos lucros.

O lucro é o que fica depois de retirado o valor das despesas da FIFA. Mas, o imposto pago representa apenas cerca de 1% dos rendimentos totais nesse período de quatro anos e apenas 1,5% dos rendimentos gerados pelo campeonato do mundo.

E, estamos a falar do evento mais lucrativo de uma associação não lucrativa. Se o país anfitrião é a fonte dos rendimentos para a FIFA, será que é nesse país que ela paga os impostos?
Não, porque a FIFA beneficia do estatuto de isenção fiscal para o campeonato do mundo.

Esse estatuto não é reclamado diretamente pela FIFA, mas, o contrato assinado pelo país anfitrião menciona: “uma larga isenção de impostos para a FIFA e para as outras partes envolvidas na organização do evento”. De acordo com o Serviço Tributário do Brasil, as isenções de impostos representaram uma perda de 250 milhões de dólares para os cofres do país. (EURONEWS)

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