Apartheid manteve apoio a Savimbi

(DR)

Depois dos Acordos de Nova Iorque para a paz na África Austral assinados a 22 de Dezembro de 1988 era de esperar progressos na pacificação interna de Angola, através da retirada dos apoios à UNITA da parte dos sul-africanos e americanos para uma tomada de poder em Angola, tal como fez Angola em relação ao ANC.

Mas os factores externos do conflito armado não se extinguiram. O livro do anglo-sul-africano Peter Stiff “Nine Day Of War – Namibia (Before, During And After)” e a cronologia da sul-africana Elna Schoeman “South Africa’s Foreign Relations In Transition 1985-1992” descrevem a frenética actividade de interferência que ainda se verificava na região durante o mês de Fevereiro de 1989.

Em Angola, o Presidente José Eduardo dos Santos foi categórico ao declarar que a primeira prioridade para a solução do problema da guerra consistia na “remoção dos factores externos” e deixou isso claro quando, a 25 de Dezembro de 1988, três dias depois da assinatura dos acordos, recebeu os documentos das mãos de Afonso Van-Dúnem “Mbinda”, ministro das Relações Exteriores.

O Presidente falou do que era preciso fazer. “Os acordos concluídos criam mecanismos e garantias de protecção e defesa do país contra as agressões externas. Mas o inimigo interno, embora esteja mais enfraquecido, ainda não desarmou. Continua a sua acção criminosa contra as populações e contra os interesses do Estado e não deixou de ser o instrumento do imperialismo e da África do Sul em particular para desestabilizar o nosso país e impedir o seu desenvolvimento económico e social”, declarou o Presidente.
“Assim”, prosseguiu, “o combate contra o inimigo interno continua também. Será necessário dar-lhe as respostas adequadas quer no plano político quer no plano militar, até que compreenda que já não há qualquer justificação para a continuação de uma guerra inútil e sem perspectivas, pois tanto na nossa região como à escala universal a tendência geral é favorável à paz e ao desenvolvimento”.

“A nossa política interna”, sublinhou José Eduardo dos Santos, “continuará ser uma política voltada para a harmonização nacional e unidade nacional, baseada no respeito pela igualdade de direitos e deveres dos cidadãos e aberta à participação de todos os angolanos, sem quaisquer descriminações no esforço de Reconstrução Nacional”.

“Divulgamos hoje, no Dia da Família, a Lei de Amnistia no âmbito da Política de Clemência e Harmonização Nacional, para provar a nossa firme intenção de reunir a grande família angolana sob uma só bandeira. Àqueles que de armas na mão ainda combatem contra o seu povo é suficiente que cessem as acções militares, respeitem as leis e se apresentem as nossas autoridades em qualquer parte, para que as suas vidas sejam salvaguardadas e lhes seja assegurado o seu lugar na sociedade em função das suas aptidões”, pediu o Chefe de Estado, concluindo: “o Dia da Família que hoje se celebra permite-nos recordar que os nossos esforços em prol da paz se destinam, precisamente, em primeiro lugar, ao bem-estar das nossas famílias, aos homens, mulheres e crianças que as compõem…”

Por estas palavras, o Presidente e Comandante-Em-Chefe das FAPLA reafirmou a vontade patriótica de continuar a defender a soberania nacional. “Com isso, determinou o incremento das operações militares no sudeste do país, na direcção Cuito Cuanavale–Mavinga-Jamba, para a extensão da administração do Estado a esta parcela do território nacional, protegida por tropas sul-africanas, com assessores americanos e que a UNITA pretendia que fosse um “Estado dentro do Estado”, refere hoje ao Jornal de Angola um oficial superior das Forças Armadas Angolanas (FAA) que se dedica ao estudo das questões da África Austral.

Com efeito, no o seu “Guia Prático do Quadro”, a UNITA dizia que “as Bases Revolucionárias de Apoio constituem um Estado dentro do próprio Estado, que têm de ter povo, economia, condições geográficas favoráveis, órgãos do partido e três tipos de Forças Armadas (Forças Regulares, Guerrilhas e Sentinela), mas essas Forças têm de ser devidamente coordenadas”.

“Pelo que a UNITA vinha dizendo nessa altura, depois dos Acordos de Nova Iorque, é razoável pensar que a UNITA também não perdeu tempo, pois pensava que, com a saída dos cubanos de Angola, o Governo perderia o seu suporte de sobrevivência, já que para ela o elo mais fraco dos intervenientes no conflito angolano era o MPLA. Daí a atoarda bombástica que lançava de que “se o cubano sai, o MPLA cai”, comenta o analista angolano especializado em questões militares.

Com o Acordo Tripartido, as posições políticas e militares dos intervenientes no conflito angolano – a UNITA, a África do Sul, os EUA e o Governo de Angola – foram reconfiguradas e é importante caracterizar como se reposicionaram.
A UNITA, após a derrota das SADF e das FALA no Triângulo do Tumpo, nas Frentes Sudeste e Sudoeste em 1988, manteve-se em Mavinga e na Jamba, de onde continuaram a partir as suas forças para realizarem acções de desestabilização por quase todo o país.

Os sul-africanos assumiram o compromisso de apetrechar e preparar as unidades militares da UNITA para que estas pudessem enfrentar as investidas das FAPLA sem a sua participação física. “A técnica blindada capturada às FAPLA nos combates do Lomba em 1987 foi reparada e entregue às forças da UNITA, depois de as terem treinado, e na verdade a razão das intervenções sul-africanas assentava na salvaguarda, na manutenção e na sobrevivência da UNITA, já que estas por si só não estavam capazes de travar as FAPLA”, salienta, a propósito, o analista militar angolano.

Quanto aos americanos, estes estavam bastante preocupados com o alastramento perigoso das acções militares do MPLA contra o território controlado pela UNITA no Sudeste de Angola, já que “as condições estavam criadas para o último esforço das FAPLA para derrotarem a UNITA, ou, em caso de fracasso, marginalizá-la como uma força de guerrilha, confinada às zonas desoladas do Sudeste de Angola”.

No campo do cumprimento dos acordos, a retirada das tropas cubanas processava-se normalmente, na base do postulado nos Acordos de Nova Iorque, e aparentemente o apoio das tropas sul-africanas à UNITA, bem como o fornecimento de equipamento letal, devia ter terminado em 1988.

“Mas a equipa de Chester Crocker, que se apoiava nas teorias militares de Jim Woods, reconhecia que a ofensiva das FAPLA era extremamente séria e perigosa. A ausência eficiente e actualizada da artilharia sul-africana, que tinha sido muito valiosa para travar a ofensiva do Governo de 1987, tornou a UNITA vulnerável aos carros de combate e à superior composição das tropas das FAPLA. Daí que considerassem vital e urgente que os abastecimentos fossem acelerados. Woods e os seus colegas do Estado-Maior Conjunto prometeram ajudar a encontrar os abastecimentos e transportes necessários de forma rápida. A estratégia de Jim Woods funcionou e rapidamente foram providenciadas armas anti-tanque para a UNITA”, recorda o oficial superior angolano e participante nas negociações dessa época.

Na prática, isso significava que a África do Sul e os Estados Unidos continuavam, cinicamente, a alimentar a guerra em Angola. E qual foi a resposta das autoridades angolanas? “O Governo Angolano, sob direcção do Presidente José Eduardo dos Santos”, responde o analista, “estabeleceu a perspectiva que considerava que o principal objectivo era político e não essencialmente militar. Deste modo, as operações que se deviam realizar tinham a finalidade de mostrar à UNITA e ao mundo que as FAPLA eram superiores às FALA. Nos países ocidentais corria a ideia de que havia paridade entre as FAPLA e a UNITA. Por conseguinte, impunha-se demonstrar que as FAPLA eram superiores às FALA, que tinham uma grande experiência combativa, demonstrada contra as tropas da África do Sul e que as unidades de infantaria da África do Sul nunca conseguiram derrotar as FAPLA”.

Com base nessa perspectiva, “impunha-se desmobilizar a retaguarda da UNITA, tomar Mavinga, transformando esta operação no elemento de atracção dos apoios da Europa Ocidental e dos EUA, demonstrando que o Governo angolano tinha força. A operação devia conseguir demonstrar ao Congresso dos EUA que a UNITA era um instrumento inviável, o que abriria caminho para a cooperação entre os EUA e o Governo angolano.

A vitória tinha ainda por objectivo recolher os apoios de alguns Chefes de Estado africanos, principalmente Houphouet Boigny, o Rei Hassan II e Mobutu, para deixarem de apoiar Savimbi na desestabilização do Norte de Angola”.

A vitória das FAPLA no Sudeste de Angola contra os redutos da UNITA, situados em Mavinga e na Jamba, seria uma arma política e diplomática do Governo para combater os “factores externos” do conflito angolano, que teimavam em não desarmar porque queriam ver o MPLA fora do poder em Angola.

Os EUA, a África do Sul e a Europa Ocidental estavam convencidos que logo que os cubanos saíssem de Angola, a UNITA venceria. Esta foi, de resto, a convicção retirada da célebre Conferência da Internacional Democrática, também conhecida por “Jamboree in Jamba”, realizada na primeira semana de Junho de 1985 na Jamba com muito alarde na imprensa internacional, que definiu propagandisticamente as FALA como “a melhor infantaria do mundo e que a sua guerrilha era imbatível”.

A conferência, recorde-se, juntou todos os ditos “combatentes da liberdade” apoiados pelos Estados Unidos, desde os “anti-Castritas” de Cuba, os “Contra” da Nicarágua, os “Khmer Vermelhos” do Cambodja, e os “Mujahidins” do Afeganistão – organizações que hoje compõem a lista dos maiores massacres da história. Como a cereja sobre o bolo, estiveram presentes nessa associação tenebrosa e criminosa, pela qualidade e actuação dos seus membros, como não podia deixar de ser, os elementos das Forças de Defesa da África do Sul (SADF), que constituíam o alicerce do apartheid.

Toda essa associação internacional de malfeitores está bem retratada pelo professor de Sociologia da Universidade de Genebra, o suíço Jean Ziegler, no livro “Os Senhores do Crime” (Terramar, Lisboa, 1989), que a qualifica como “as novas máfias contra a democracia”.

Desdobramento da SWAPO

Em Fevereiro de 1989 está em curso a retirada das tropas internacionalistas cubanas de Angola e a actividade do Grupo de Transição das Nações Unidas (UNTAG) na Namíbia em pleno andamento, depois dos incidentes de Janeiro desse ano, causados pela reacção repressiva de Pretória ao entusiasmo dos namibianos com a aproximação da sua  independência.

Nessa ocasião, a África do Sul mantém a sua propaganda contra os combatentes da libertação da Namíbia, procurando desacreditar a SWAPO, atitude que se vê obrigada a mudar pouco depois. No dia 20 de Fevereiro, segundo refere Peter Stiff no seu livro “Nine Day Of War – Namibia”, o quartel-general da Força Territorial do Sudoeste Africano, extensão do regime sul-africano ainda estabelecida em Windhoek, divulga um comunicado dizendo que Simon Shilongo, namibiano de 22 anos, chefe de secção do Batalhão “Red Square” da SWAPO, tinha desertado no início de Fevereiro, a partir da base da sua unidade, no Péu-Péu, localizada a cerca de 90 quilómetros do Norte da fronteira com a Namíbia e 60 quilómetros a Sul do paralelo 16, e fugiu para a Namíbia, onde se entregou. A Força Territorial alega que as razões para a deserção “foram as más condições” nos acampamentos da SWAPO, “falta de comida e de roupas” e dos “maus tratos” tanto da SWAPO como dos cubanos.

O certo é que o Comando Operacional do Quartel-General da SWAPO que combateu contra a ocupação sul-africana ainda estava estacionado no Péu-Péu. O Batalhão “Red Square” continuava ali com a missão de garantir a sua protecção. A Clínica militar de Ongehete, da SWAPO, instalada a Oeste de Xangongo, ainda estava também operacional, assim como a unidade de logística Katanga, a Noroeste desta cidade.

A Comissão Militar Conjunta de Verificação (JMMC) convoca uma reunião urgente, mas as delegações angolana e cubana afirmaram que não havia nada a fazer sobre o assunto porque a jurisdição da JMMC estendia-se apenas a um quilómetro de cada lado da fronteira dos dois países. O ministro dos Negócios Estrangeiros da África do Sul, “Pik” Botha, fica irritado com a resposta e promete queixar-se da actividade da SWAPO a Sul do  paralelo 16 ao secretário-geral da ONU.

Na realidade, Pretória estava apenas a usar esse facto como cortina de fumo para esconder a continuidade da sua interferência em Angola. Na primeira sessão substantiva das cinco nações da JMMC, realizada em Luanda e que contou com a participação da África do Sul, Angola e Cuba, com os Estados Unidos e a União Soviética como observadores, o director-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros da África do Sul, Neil Van Heerden, foi confrontado com provas apresentadas por Angola, demonstrando que a África do Sul violava os Acordos de Paz de Nova Iorque enviando tropas para o Sul de Angola para ajudar a UNITA nas suas renovadas ofensivas contra o Governo.

“Os angolanos disseram ter confrontado os sul-africanos com provas, mas eles rejeitaram-nos”, escreve Stiff no seu livro. “Especulava-se que a alegação de Angola surgiu da possibilidade da UNITA possuir artilharia de longo alcance G-5 ou G-6 deixada pelos sul-africanos quando se retiraram de Angola em 1988. Chester Crocker, que dirigia a delegação de observadores dos Estados Unidos nas negociações, disse aos repórteres que acreditava que a UNITA possuía artilharia de longo alcance, mas não sabia se tinham G-5 ou G-6. Porém, disse que os americanos não tinham meios para sustentar se tal alegação era verdadeira ou não”, acrescenta Peter Stiff.

Do outro lado, o chefe do EMG das SADF, general Jannie Geldenhuys, fazia das movimentações da SWAPO a Norte do paralelo 16 o oposto das queixas angolanas. “Angola, como parte dos Acordos, tinha-se comprometido a utilizar os seus bons ofícios para impedir a SWAPO de movimentar-se a Norte do paralelo 16” e “isso não aconteceu”, afirmava o General Geldenhuys.

Na sequência, o jornal “The Citizen” de 28 de Fevereiro de 1989 ameaçava com a tomada em breve pela África do Sul de “uma linha dura” porque “poderia haver muito mais incumprimentos” por Havana na retirada das tropas cubanas e “se a SWAPO não respeitasse os termos do acordo”, ignorando o facto de os combatentes da SWAPO estarem acantonados e terem cessado a guerrilha, enquanto que os seus protegidos da UNITA se mantinham operacionais. Ao mesmo tempo, a inteligência sul-africana começou a espalhar que as forças da SWAPO em Angola “receberam novos equipamentos completos, desde botas, uniformes e até boinas militares”. As fontes sul-africanas puseram também a circular a informação, atribuída à população local de Owambo, segundo a qual no dia 27 de Março a SWAPO iniciou a sua formação de guerrilha e estava pronta para atravessar a fronteira para o interior da Namíbia.

A resposta do Governo de Angola foi serena e exemplar. As autoridades angolanas restringiram, dentro do território angolano, o movimento dos visitantes para a área de Namacunde e proibiram temporariamente o movimento transfronteiriço normal dos cidadãos para a Namíbia.

Uma prova melhor do empenho do Governo angolano na aplicação dos compromissos assumidos não podia haver. (Jornal de Angola)

por José Ribeiro

1 COMENTÁRIO

  1. Este artigo começa por se referir aos acordos de Nova York, que podemos compará-lo com o acordo nuclear do G5+1 e o Irão. Em ambos tanto Angola como o Irão não estavam interessados em ceder negociar, foram obrigados, no caso de Angola estavam praticamente derrotados, andaram muito tempo (anos) ganhando tempo de hotel em hotel em várias capitais mundiais, desde Genebra, Bruxelas, Paris, Havana, Moscovo, Pretória até Nova York gastando milhões de dólares do petróleo, enriquecendo as contas bancárias dos protagonistas Angolanos. Quanto ao resto ficam as dúvidas que suscita o Jornal de Angola e o seu diretor José Ribeiro.
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