Alejandro Gonzalez Iñárritu: o vendedor de banha da cobra

Iñárritu no clube de John Ford e Mankiewicz, a ganhar duas vezes seguidas? É um fenómeno, o mexicano, e há que lhe reconhecer o mérito devido aos bons vendedores de banha da cobra. Foto: Valerie Macon/AFP

Até hoje, só duas pessoas tinham ganho o Óscar de melhor realizador em dois anos consecutivos: John Ford em 1940 e 1941 (por As Vinhas da Ira e O Vale era Verde), e Joseph L. Mankiewicz em 1950 e 1951 (por Carta a Três Mulheres e Eva). A esta venerável companhia junta-se Alejandro Gonzalez Iñarritu, por Birdman, no ano passado, e O Renascido, agora. É da ordem da anedota, claro, mas também é um sintoma cristalino de como a Academia perdeu o pé algures no caminho recente: durante décadas o resultado dos Óscares podia ser discutível mas de um modo geral, e entre listas de nomeados e vencedores efectivos, não havia dúvidas de que sabia reconhecer, com uma margem de erro pouco significativa, o mais importante da produção americana (os nomes e os quatro títulos citados na abertura deste parágrafo são uma pequena amostra disso, haveria outras). Isso perdeu-se. Os quase 90 anos de história dos Óscares sempre tiveram alguns “intrusos” aqui e ali, obras e cineastas sobrevalorizados no seu tempo a que a posteridade não reconheceu a mesma importância. Mas os “intrusos” tornaram-se a norma nos últimos vinte anos, período em que pontificam prémios a obras irrelevantes e rapidamente esquecidas (ao acaso: alguém ainda se lembra do Chicago de Rob Marshall?…).

Perdeu-se isso, passaram a contar outras coisas. Não há outra explicação para o sucesso de Iñarritu, odiado fervorosamente por legiões de cinéfilos e críticos de cinema, várias vezes apontado como um dos “piores realizadores do mundo”. E, no entanto, papa Óscares. Há-de ser um homem inteligente, na forma como conseguiu passar da “margem” (o seu México natal, onde realizou a sua primeira longa-metragem, Amor-Cão, em 2000) para o coração do mainstream hollywoodiano, transportando uma ideia — falsa como Judas,mas aparentemente convincente — de cinema “autoral” e “independente”.

Reconhecem-se algumas das teclas em que Inarritu tocou: o miserabilismo sofredor de Amor Cão, Babel ou Biutiful, com as suas pesadíssimas “mensagens” (a “globalização”, a economia, a relação do primeiro mundo com o terceiro) a explorar o complexo de culpa das sociedades ocidentais contemporâneas, e particularmente da americana. O gesto ostensivo, vazio mas vistoso, da “desarrumação” narrativa (21 Gramas, Babel), a dar ao espectador a ilusão de um “desafio” interpretativo, que no fim de contas está pré-decidido à partida (não há filmes mais fechados, em termos de sentido, do que os de Iñarritu). A “estética”; decorativa e repenicada, exibicionista e redonda, de filmes como Birdman ou O Renascido, com um virtuosismo oco e grandiloquente a passar por tour de force. É um fenómeno, Iñarritu, e há que lhe reconhecer o mérito devido aos bons vendedores de banha da cobra. Não deixa de ser pena que ele passe a ser oficialmente o mais célebre e consagrado cineasta mexicano de todos os tempos. Um país cinematograficamente tão rico, com tantos fabulosos melodramas (o tempo dos Emilios Fernandez e Robertos Gavaldons, das Marias Felix…), merecia melhor destino.

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