África teme epidemia do vírus Zika

Técnico da Fundação Osvaldo Cruz, no Brasil, analisa larvas do mosquito transmissor do vírus Zica (REUTERS)

Continente africano deve estar atento à propagação do vírus Zika, recomendam especialistas. OMS declara emergência global de saúde pública. Moçambique anuncia medidas de prevenção. Cabo Verde registra 7.164 casos.

O elevado número de casos de microcefalia e outras complicações neurológicas em recém-nascidos no continente americano, possivelmente relacionados com o vírus Zika, foi o que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar emergência global de saúde pública esta segunda-feira (01.02).

A organização deixa o alerta: a epidemia pode chegar a Ásia e África, onde poderá ter efeitos devastadores, uma vez que os dois continentes têm as taxas de natalidade mais elevadas do mundo.

O vírus Zika já foi detetado em Cabo Verde – com cerca de quatro mil e 200 casos suspeitos de infecção registrados entre setembro e dezembro – aumentando os receios de que possam surgir novos focos da epidemia no continente africano.

Ruchika Kohli, investigadora no laboratório de patologias Lancet, em Nairobi, no Quénia, descarta a hipótese de uma propagação rápida do vírus Zika a curto prazo e em grande escala em África.

“Com as viagens internacionais e o comércio global, a propagação do Zika ao resto do mundo, incluindo África, é uma realidade. Quanto a preparações para uma epidemia, neste momento, não acho que tenhamos de nos preocupar a essa escala,” defende.

Kohli recomenda, no entanto, que os governos se mantenham atentos. “Os governos e os ministérios da saúde devem estar cientes de que há um potencial de propagação aos nossos países,” considera.

Histórico, sintomas e consequências do vírus Zika.

OMS declarou emergência global de saúde pública esta segunda-feira (01.02), devido à epidemia do vírus Zika (REUTERS)
OMS declarou emergência global de saúde pública esta segunda-feira (01.02), devido à epidemia do vírus Zika (REUTERS)

O vírus Zika – transmitido por mosquitos da espécie Aedes (o mesmo que transmite a dengue e a malária) – foi detetado pela primeira vez no Uganda, em 1947, num macaco. Os primeiros casos de infeção de humanos registaram-se nos anos 70 em vários países africanos e asiáticos.

Mas, desde então, ainda não foi desenvolvida uma vacina. Segundo Julius Lutwama, virologista ugandês,”desde que foi identificada, há 60 anos, registaram-se muito poucos casos confirmados do vírus Zika. E, entre os doentes, apenas 20% manifestam sintomas.”

O virologista revela ainda que a doença causada pelo Zika, “normalmente é uma febre não muito elevada. Não se desenvolveu uma vacina porque não era considerada uma infeção grave.”

Em Maio de 2015, detectou-se uma epidemia de Zika no nordeste do Brasil que chegou rapidamente a outras regiões. O país anunciou o maior número de infeções com o vírus alguma vez registado: entre 440 mil e um milhão e 300 mil casos suspeitos.

E já há quem tema que o surto do vírus possa vir a ser pior que a epidemia do ébola. Mas Julius Lutwama rejeita comparações. “Para já, não acredito que possa ser mais sério que o ébola que se transmite muito facilmente e causa mais problemas do que podemos imaginar,” afirma.

O virologista explica ainda que o maior problema do Zika é que, além da doença, o vírus “pode causar malformações em recém-nascidos”.

Os especialistas esperam que a declaração dos problemas ligados ao vírus Zika como uma emergência sanitária mundial possa contribuir para um maior financiamento internacional e mais esforços para travar a epidemia, bem como a investigação e desenvolvimento de tratamentos e vacinas.

Zika nos PALOP

Em Cabo Verde, o número de casos desceu nas últimas semanas, com uma média semanal de 80 contra os 200 das semanas anteriores. Segundo o diretor nacional de Saúde, Tomás Valdez, o país registou até agora 7.164 casos suspeitos de infecção por vírus Zika.

Apesar dos números, a maioria deles na Cidade da Praia, aministra do Turismo, Leonesa Fortes, defende que não existem razões para Cabo Verde figurar na lista de países com epidemia de vírus Zika.

“Nas ilhas turísticas praticamente não registamos nenhum caso e o Ministério da Saúde está em articulação com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e autoridades, nomeadamente dos EUA, no sentido de Cabo Verde ser retirado dessa lista”, disse Leonesa Fortes, em declarações veiculadas pela edição eletrónica do jornal “A Nação”.

A inclusão de Cabo Verde na lista dos países com epidemias de vírus Zika está a ter impacto no mercado turístico, com algumas agências a registarem cancelamento de reservas.

As autoridades de saúde angolanas afirmaram hoje (03.02) que não têm registo de qualquer caso de vírus Zika, mas estão a alertar a população para os sintomas, semelhantes aos da febre-amarela, surto que em Luanda já matou oito pessoas.

Também o Ministério da Saúde moçambicano garante que ainda não foram registados casos do vírus suspeito de provocar malformações congénitas, considerando que já existe um plano de prevenção.

Por sua vez, o governo são-tomense colocou todos os centros de saúde do país em alerta, numa altura em que a presença do vírus em Cabo Verde, país com o qual São Tomé e Príncipe tem ligações aéreas semanais, está a preocupar as autoridades.

Moçambique anuncia medidas de prevenção

Aedes aegypti, mosquito transmissor do vírus Zika (REUTERS)
Aedes aegypti, mosquito transmissor do vírus Zika (REUTERS)

Em Moçambique, o Ministério da Saúde anunciou esta terça-feira (02.02) que prevê introduzir nos aeroportos mecanismos para a identificação de passageiros oriundos de países com o registo do vírus Zika, a fim de serem diagnosticados.

A medida faz parte de uma série de iniciativas que estão a ser levadas a cabo pelas autoridades moçambicanas para prevenir e controlar a entrada da doença no país.

O vírus Zika passa a estar sob vigilância permanente no diagnóstico das febres de origem desconhecida, que é submetido pelas autoridades sanitárias moçambicanas.

O anuncio foi feito a imprensa pela diretora nacional adjunta de Saúde Pública, Benigna Matsinhe.

“Já vínhamos fazendo isso para a dengue, agora vamos incluir o Zika como uma das doenças que deve ser vigiada nas febres de origem desconhecida. Reforçaremos também a vigilância da malária. Queremos ter casos confirmados de malária para podermos diferenciar de outras causas,” garantiu.

O vírus Zika é transmitido pelo mosquito, um inseto responsável, igualmente, pela transmissão do vírus da dengue e da malária, esta última a doença com o maior número de casos de internamentos em Moçambique.

As autoridades sanitárias estão em contato com especialistas para procurar saber em que condições climáticas o vírus se desenvolve e o período da sua encubação. Benigna Matsinhe confirmou, no entanto, que Moçambique ainda não registou qualquer caso de Zika.

Aedes aegypti, mosquito transmissor do vírus Zika (DPA)
Aedes aegypti, mosquito transmissor do vírus Zika (DPA)

“Não tem registro de casos de Zika em Moçambique. Nós também não temos registro da circulação do vírus neste momento,” declarou.

Para o diretor-adjunto do Instituto de Saúde, Eduardo Samo Gudo, é baixo o risco de Moçambique vir a registar casos de transmissão interna do vírus, originados por uma pessoa infetada que dê entrada no país.

“Para que nós tenhamos transmissão interna, é necessário que o vírus se adapte e comece a transmitir através do mosquito em Moçambique,” explica Gudo.

Com vista a prevenir a entrada do Zika em Moçambique, as autoridades prevêm criar nos aeroportos mecanismos para a identificação de passageiros de países com o registo do vírus, a fim de serem diagnosticados, mas não anunciaram restrições às viagens.

Benigna Matsinhe garante que está a ser feito trabalho de educação da população sobre as medidas de prevenção e higiene.

“Vamos realizar uma formação onde, em colaboração com o Brasil, vamos fazer o mapeamento do mosquito Aedes em Moçambique. Também temos capacidade laboratorial instalada no instituto Nacional de Saúde e está previsto um treino, a ser realizado por especialistas dos Estados Unidos, para a confirmação laboratorial,” revela.

Lepra volta a preocupar

Num outro desenvolvimento, o vice-ministro da Saúde, Mourinho Saúde, manifestou preocupação face à prevalência da lepra no país.

Moçambique foi declarado livre da lepra em 2008, pela Organização Mundial da Saúde, mas registou em 2015, mais de 1.249 casos em cinco províncias.

Mouzinho Saíde lançou apelos à adesão ao tratamento, sublinhando que o mesmo é gratuito, que os hospitais têm medicamentos e que a doença tem cura. (DW)

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