8 causas da queda livre do preço do petróleo

Refinaria de Dhahran, Arábia Saudita (DPA)

A descida do preço do petróleo causa problemas em países produtores como Angola, Nigéria e Venezuela. Entenda por que o “ouro negro” perdeu valor e por que o mercado petrolífero provavelmente nunca mais será o mesmo.

Nos últimos dois anos, o preço do petróleo caiu mais de dois terços. Em fevereiro de 2014, o barril do tipo Brent, qualidade de referência definida pelo campo de Brent no Mar do Norte, teve um pico de mais de 110 dólares. Desde então, o preço desceu para atualmente cerca de 30 dólares.

Parece que chegou ao fim a época dos preços de três dígitos, que começou em 2011. Uma fase pouco típica já que, durante muito tempo, o petróleo foi vendido por preços de um ou dois dígitos. Nas décadas de 80 e 90, era normal vender e comprar o barril de crude por cerca de 20 dólares. Em 1999, o barril do tipo Brent até chegou a ser comercializado por menos de 10 dólares.

Será que vamos voltar a preços tão baixos? Ainda não sabemos até que ponto os preços vão continuar a queda livre dos últimos meses, mas podemos identificar um conjunto de fatores que mudou profundamente o mercado petrolífero.

Evolução dos preços do barril de crude (qualidade Brent) nos últimos anos (DW)
Evolução dos preços do barril de crude (qualidade Brent) nos últimos anos (DW)

1. Ascensão meteórica dos EUA como produtor

Entre 2012 e 2015, os Estados Unidos da América aumentaram a sua produção de petróleo de 10 para 14 milhões de barris por dia e tornaram-se o maior produtor mundial, ultrapassando a Rússia e a Arábia Saudita.

A quantidade adicional que chega aos mercados através do aumento da produção nos EUA é gigantesca: Os quatro mil milhões de barris por dia equivalem à produção conjunta da Nigéria, de Angola e da Líbia, três dos maiores produtores de petróleo em África.

O aumento foi possível graças a novas tecnologias inovadoras, como o fraturamento hidráulico, o chamado “fracking”. Através da injeção de água e líquidos químicos nas rochas subterrâneas são ampliadas fissuras existentes. Esta tecnologia é relativamente cara, mas no ambiente de preços altos dos últimos anos foi rentável e possibilitou extrair petróleo e gás inalcançável através de poços tradicionais.

Nada ilustra melhor a mudança do papel dos Estados Unidos no mercado mundial do que a quarta-feira, dia 20 de janeiro de 2016. Nesse dia, o petroleiro “Theo T” chegou ao porto francês de Fos. A bordo seguia o primeiro petróleo dos EUA exportado em décadas. Nos anos 70, o Governo norte-americano tinha proibido as exportações para diminuir as importações. Mas graças ao aumento da produção, a proibição foi levantada em dezembro de 2015.

As exportações de crude americano ainda são esporádicas, mas os EUA dependem cada vez menos de importações. Mesmo que alguns produtores que usam o “fracking” desistam devido à baixa dos preços que torna os seus negócios pouco rentáveis, o aumento da produção nos EUA devido às novas tecnologias mudou completamente o mercado internacional.

Petroleiro "Theo T" no porto de Singapura (DW)
Petroleiro “Theo T” no porto de Singapura (DW)

2. Aumento da produção no Iraque

Pouca gente notou, mas o país com o segundo maior aumento de produção em 2015 foi o Iraque. Apesar da guerra civil com o Estado Islâmico, o país passou de uma produção diária de 3,3 milhões de barris por dia, em 2014, para 4,3 milhões de barris por dia no final de 2015.

O aumento de um milhão de barris junta uma oferta adicional nos mercados que equivale aproximadamente à produção da Argélia, terceiro maior produtor africano. E o Iraque já produz mais petróleo do que antes do início da guerra com os Estados Unidos da América em 2003. O crude iraquiano é extraído principalmente na região autónoma dos curdos, no norte do país, a única região relativamente estável do Iraque.

Campo de Taq Taq da empresa Addax Petroleum no norte do Iraque (DW)
Campo de Taq Taq da empresa Addax Petroleum no norte do Iraque (DW)

3. Regresso do Irão ao mercado depois do fim do embargo

Com a entrada em vigor do acordo nuclear entre o Irão e o grupo “5+1” (Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, China, França, mais Alemanha), em janeiro, foi levantada uma grande parte das sanções internacionais contra o país asiático.

As sanções dificultaram o acesso do Irão ao mercado petrolífero. Após as sanções, o país deve aumentar a sua produção. Atualmente é de cerca de três milhões de barris por dia, segundo os relatórios da OPEP, Organização dos Países Exportadores de Petróleo. A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê um aumento de 300 mil barris/dia até finais de 2016, exercendo mais pressão sobre os preços mundiais.

Instalações petrolíferas na costa iraniana (DW)
Instalações petrolíferas na costa iraniana (DW)

4. Petróleo em alta profundidade do Brasil

Outro país que aumentou significativamente o seu volume de produção é o Brasil. De 2013 a 2015, aumentou a produção de 2,6 para 3 milhões de barris por dia. Segundo dados da OPEP, em 2015, 72 novos poços entraram em função, depois de 87 em 2014. O Brasil tornou-se líder na exploração “offshore” em águas ultraprofundas. Foram descobertas grandes quantidades de petróleo no chamado pré-sal, camadas rochosas a uma profundidade de quatro a oito quilómetros.

Mas as perspetivas brasileiras não parecem muito animadoras. Para explorar estes jazigos são precisas tecnologias muito caras e sem viabilidade económica em épocas de preços baixos. E a maior companhia petrolífera brasileira, a semi-estatal Petrobras, está envolvida numa série de escândalos de corrupção e já teve que cortar os planos de investimentos.

Plataforma flutuante Petrobras XXVI (P-26) no campo "Marlim Sul" no Atlântico Sul (DPA)
Plataforma flutuante Petrobras XXVI (P-26) no campo “Marlim Sul” no Atlântico Sul (DPA)

5. Arábia Saudita quer manter quota de mercado

Nas últimas décadas, a Arábia Saudita era determinante para o preço do crude. O país tem grandes reservas de petróleo e muitos poços que não operam no limite da sua produção. Portanto, pode aumentar rapidamente – e com custos muito baixos – o volume de crude colocado no mercado e influenciar estrategicamente os preços. Ao contrário, também poderia reduzir a sua produção para escassear o petróleo e tornar o “ouro negro” mais caro.

Mas mesmo com um défice orçamental recorde de 89,2 mil milhões de euros em 2015 devido à queda do preço do crude, a Arábia Saudita parece determinada a continuar a produzir mais e não menos como seria de esperar.

Analistas dizem que o objetivo principal dos sauditas é manter a quota do mercado. O cálculo: com preços baixos, investimentos em poços com novas tecnologias como o “fracking” e em águas ultraprofundas deixam de ser rentáveis. Com a saída do mercado destes produtores concorrentes, a Arábia Saudita assumiria de novo um papel de país determinante.

Bomba "Pump 3" da Saudi Aramco no deserto ao pé da área petrolífera de Khouris (AFP)
Bomba “Pump 3” da Saudi Aramco no deserto ao pé da área petrolífera de Khouris (AFP)

6. Medo da crise na China

Com taxas oficiais de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) superiores a seis por cento, parece estranho falar de crise na China. Mas muitos analistas e investidores têm medo que, por trás destes números oficiais, se esconda uma realidade bem pior. A queda das ações nas bolsas chinesas é um indício de que o milagre económico chinês possa estar próximo do fim.

Perspetivas que causam muito nervosismo nos mercados. Pois, a economia chinesa fomentou em grande parte o “boom” dos recursos naturais em África, na América Latina e Austrália. Nos últimos dez anos, a China aumentou o seu consumo de petróleo de 7 para 11 milhões de barris por dia. Portanto, consome tanto petróleo como toda América Latina e toda África subsaariana em conjunto. Angola e o Sudão, por exemplo, vendem uma grande parte do seu petróleo à China.

Não é de estranhar que todos os indícios de uma crise na China exerçam uma enorme pressão negativa no mercado petrolífero.

Trabalhadores da Zhongyuan Petroleum Exploration Bureau (ZPEB) da empresa petrolífera chinesa Sinopec no Sudão do Sul (DW)
Trabalhadores da Zhongyuan Petroleum Exploration Bureau (ZPEB) da empresa petrolífera chinesa Sinopec no Sudão do Sul (DW)

7. Inverno ameno no hemisfério norte

2015 foi o ano mais quente desde que começaram os registos de temperatura no século XIX, segundo dados da Agência Federal norte-americana para a Atmosfera e os Oceanos (NOAA). E 2016 deve ser mais um ano quente devido ao fenómeno meteorológico “El Niño”.

O inverno 2015/16 no hemisfério norte é tão ameno que a procura de gasóleo para aquecimento diminuiu nos EUA, na Europa e no Japão. Menos procura que faz descer os preços.

Mesmo em algumas pistas de esqui houve pouca neve no inverno de 2015/16 (foto do "Gudiberg" em Garmisch-Partenkirchen, na Baviera no sul da Alemanha)
Mesmo em algumas pistas de esqui houve pouca neve no inverno de 2015/16 (foto do “Gudiberg” em Garmisch-Partenkirchen, na Baviera no sul da Alemanha)

8. Cartel da OPEP já não funciona

Os 13 países membros da OPEP – entre eles a Arábia Saudita, o Iraque, o Irão, a Nigéria e Angola – são responsáveis por 32,3 milhões de barris por dia. Portanto, controlam cerca de um terço da produção global de 97 milhões de barris. Teoricamente, deveria ser fácil cortar a produção para aumentar os preços. E seria de esperar, já que a OPEP foi fundada como um cartel clássico cuja função é manter os preços altos para o benefício do produtor (e em detrimento dos consumidores).

Mas, até agora, nenhum país membro da OPEP implementou cortes. Quase todos mantiveram a produção estável ou até aumentaram o volume de crude extraído. Pelos vistos, a OPEP ainda não consegue travar a queda livre do preço.

O ministro do Petróleo da Venezuela, Eulogio del Pino, pediu uma reunião extraordinária da OPEP e, numa ronda pelos países membros e a Rússia, tenta reunir consenso para diminuir a produção e inverter a descida dos preços. O objetivo da Venezuela é um “preço justo”, que deverá rondar os 70 dólares por barril, mais do dobro do preço atual.

A reunião da OPEP na sua sede em Viena, na Áustria, em dezembro de 2015 também não travou a queda dos preços (REUTERS)
A reunião da OPEP na sua sede em Viena, na Áustria, em dezembro de 2015 também não travou a queda dos preços (REUTERS)

Mudanças históricas

“Qualquer que seja a evolução dos preços, os mercados poderão nunca mais ser os mesmos”, conclui a Agência Internacional de Energia (IEA) no último relatório do mercado petrolífero. Para economias dependentes de petróleo, isto implica grandes mudanças. Angola, por exemplo, obteve em 2014 cerca de 70% das receitas fiscais do “ouro negro”. Mas, segundo dados do Ministério das Finanças de Angola, este valor caiu para metade em 2015.

O "fracking" mudou profundamente o mercado mundial de petróleo. Na foto: poço em Montrose, Pensilvânia, EUA (DPA)
O “fracking” mudou profundamente o mercado mundial de petróleo. Na foto: poço em Montrose, Pensilvânia, EUA (DPA)

Os países petrolíferos precisam de se adaptar para evitar um colapso económico por causa da baixa dos preços. Pois, muitas das mudanças vieram para ficar. (DW)

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