Uma breve história do terrorismo: da França jacobina ao dito Estado Islâmico

Será possível derrotar os terroristas islâmicos? Eis a grande questão que se levanta. Foto: AFP

Numa altura em que os ataques terroristas se multiplicam por todo o mundo, Bruno Cardoso Reis explica como começou a violência política e pergunta: é possível derrotá-los?

Será possível estudar o terrorismo? Será aceitável tentar compreender o terrorismo? Não é isso o mesmo que aceitar ou perdoar? Há quem ache que a única coisa que é aceitável quanto ao terrorismo é combatê-lo, não conhecê-lo. Mas os clássicos da estratégia há muito que sublinham que para derrotar um inimigo é indispensável conhecê-lo. Para vencer é fundamental compreender o tipo de conflito em que se está envolvido. Há também quem considere que o terrorismo é irracional ao ponto de ser incompreensível, impossível de analisar racionalmente. Isso não só é desmentido pelos estudos sérios do fenómeno, como seria aceitar zonas negras impossíveis de estudar. O terrorismo é demasiado importante para ser deixado apenas a generais, polícias ou políticos.

Podemos realmente aprender com o estudo do terrorismo. O que nos diz a história do terrorismo sobre as suas possibilidades de sucesso? Será o ISIS uma ameaça séria? E será que existem formas de o combater com eficácia? Existirá uma ligação especial entre terrorismo e Islão? E de que forma se deve lidar com essa dimensão de violência religiosa?

O terrorismo não é um fenómeno novo e raramente é bem sucedido

No final de 2015 o terrorismo voltou a ensanguentar as ruas de Paris. Mas o terrorismo não é um fenómeno novo. A primeira grande vaga de terrorismo global foi no final do século XIX, em que um dos atentados mais notórios foi o ataque à bomba, em 1894, aos clientes da esplanada do Café Terminus em Paris. Se recuarmos dois séculos, constatamos que é da França que nos veio o conceito de terrorismo. A palavra “terrorismo” começou a ser utilizada então para designar a defesa da violência política extrema por parte dos Jacobinos, a ala mais radical do novo regime resultado da Revolução Francesa no final do século XVIII.

Num famoso discurso em 1794 o líder jacobino Maximilien Robespierre defendeu a violência como necessária à transformação e purificação revolucionária: os virtuosos princípios da revolução “eram impotentes sem o terror”. Mas estes primeiros terroristas jacobinos foram rapidamente afastados do poder. Porém, isso não os levou a abandonarem a sua crença na importância e na legitimidade da violência terrorista na política. Envolveram-se numa série de atentados nos anos seguintes, nomeadamente com o objetivo de assassinar Napoleão. Apesar de repetidos fracassos em atingir os seus objetivos, os escritos dos jacobinos, a defender a necessidade e legitimidade da violência política revolucionária de tipo terrorista, exerceram uma influência poderosa em outros movimentos radicais ao longo do período contemporâneo.

O terrorismo antigo, medieval e moderno

Podemos recuar ainda mais na história do terrorismo. É verdade que o termo terrorismo só surge no final do século XVIII e só se vulgariza para se referir a uma forma de violência política, uma táctica que se nos tornou familiar no final do século XIX. No entanto, os historiadores têm identificado grupos com ideologias radicais que, num passado mais ou menos remoto, adotaram práticas e discursos de tipo terrorista dentro dos constrangimentos ideológicos e tecnológicos da época. Um dos casos mais citado é o dos chamados Sicários, na antiga Palestina, judeus radicais que usavam punhais ocultos e aproveitavam grandes eventos públicos para, misturados na multidão, assassinar impunemente líderes políticos e religiosos do judaísmo que acusavam de cumplicidade com o poder imperial de Roma. Esta resistência do judaísmo antigo contra o Império Romano no século I d.C. acabou por falhar e levar à expulsão dos judeus da Palestina.

Outro exemplo relevante é o da corrente xiita que se tornou conhecida como Hashashin, dirigida pelo misterioso Velho da Montanha, ou seja, o Xeque do castelo montanhoso de Alamut. Eles legaram a palavra “assassino” à Europa da época das Cruzadas, aterrorizada com os ataques suicidas levados a cabo por elementos desta corrente xiita ismaelita. Na verdade, estes ataques raramente visaram líderes cruzados cristãos, foram bem mais numerosos contra líderes da corrente rival sunita. Conseguiram aterrorizar, mas não derrubar o Califado sunita.

Estes movimentos, tal como o ISIS hoje em dia, eram de tipo messiânico – ou seja, acreditavam que pelas suas ações poderiam acelerar o fim do mundo e a vinda de uma nova era paradisíaca de triunfo do verdadeiro Deus. Um fim deste tipo justificava o recurso a todos os meios para o alcançar.

Este tipo de práticas não era, porém, um exclusivo do Oriente. No Ocidente, desenvolveu-se a prática e a doutrina do chamado tiranicídio. Não só os atentados contra soberanos e outros líderes políticos e religiosos eram uma prática relativamente corrente dada a grande personalização do poder como, em torno dela, da Roma pagã antiga até à Europa cristã, desenvolveram-se doutrinas que defendiam que um líder que abusava do seu poder era um alvo legítimo. Ou seja, os terroristas ou assassinos de uns eram os combatentes pela fé ou pela liberdade de outros.

Esta ideia está presente nos republicanos na Roma Antiga que glorificaram os assassinos do rei Tarquínio ou de César. Séneca terá afirmado que nada era mais doce para os deuses do que o sangue dos tiranos. Séculos depois, na doutrinação de teólogos ilustres da Europa Moderna, nomeadamente o professor da Universidade de Coimbra Francisco Suaréz, defendia-se ser legítimo assassinar reis heréticos e tirânicos. Foram relativamente abundantes no século XVI e XVIII as tentativas de assassinar soberanos – desde Isabel I de Inglaterra até ao rei D. José I de Portugal – e algumas foram bem-sucedidas, como o atentado que matou Henrique IV de França em 1610. Da Rússia, dizia-se mesmo na Europa, que era um exemplo de despotismo imperial temperado pelo assassinato periódico dos seus soberanos autocráticos, pois foram vários os czares assassinados do século XVI em diante.

As vagas de terrorismo contemporâneo, os seus muitos fracassos e alguns sucessos

É precisamente na Rússia que frequentemente se considera que vão emergir as primeiras organizações terroristas contemporâneas. O exemplo mais citado é a autodesignada Narodnaya Rasprava ou “Vontade Popular” um grupo radical clandestino criado em 1869. O que estas organizações trouxeram de novo foi defenderem a violência política em nome do Povo e não de Deus na linha dos Jacobinos franceses. Este grupo russo organizou o ataque bombista bem sucedido contra o Czar Alexandre II em 1881, geralmente considerado como marcando o início da primeira vaga de terrorismo contemporâneo, num período em que se começava a intensificar a globalização da economia e das ideias, e começavam a existir os primeiros meios de comunicação de massa. Nesse mesmo ano de 1881 a Internacional Anarquista adoptou numa reunião em Londres a doutrina da propaganda pela ação violenta.

Esta ideia de que um atentado vale mais do que milhares de panfletos irá influenciar até hoje os movimentos políticos radicais, levando alguns a abraçar a chamada ação direta, o recurso a ataques violentos de surpresa por uma série de razões, nomeadamente como uma demonstração de compromisso total com a causa; uma forma de difundir amplamente a sua existência e ideias nos meios de comunicação de massa; como forma de atemorizar adversários e acordar as massas para a revolução. Mao Zedong dirá num dos seus influentes slogans que o objetivo da violência política, como o terrorismo, é “matar um, aterrorizar mil”. O impacto emocional deste tipo de guerra psicológica é, portanto, deliberadamente desproporcional face ao seu impacto real.

A primeira grande vaga de terrorismo contemporâneo dominada por anarquistas, nacionalistas e outros radicais e que já recorreu a meios explosivos – nomeadamente a dinamite, inventada por Alfred Nobel em 1866 – não parece ter mudado muito alguns dados do passado. Passa a ser possível levar a cabo atentados bombistas que produzem algumas dezenas de mortos. Mas os movimentos terroristas continuam a ser conhecidos sobretudo pelos ataques contra líderes políticos. O atentado contra o rei D. Carlos e o seu herdeiro, em Lisboa, em 1908, foi um exemplo de uma vaga de atentados que varreu a Europa e os EUA, e que atingiu desde o Rei Umberto I de Itália até à Imperatriz Sissi da Áustria, desde o Presidente Sadi Carnot da França até ao Presidente Mackinley dos EUA. A grande maioria destes atentados não teve um impacto imediato no sistema político dominante. Excecional pelo seu impacto foi o assassinato do herdeiro do trono Habsburgo, o Arquiduque Francisco Fernando, em Junho de 1914. A reação do governo de Viena a esse desafio terrorista patrocinado e armado pelos serviços secretos militares da Sérvia levou diretamente à crise que resultou na Primeira Guerra Mundial, cujo centenário tem sido evocado em anos recentes.

Depois de 1945 surgiu uma nova vaga terrorista revolucionária e nacionalista. São de destacar vários movimentos no então chamado Terceiro Mundo, que combinavam terrorismo e guerrilha no quadro de uma ampla organização política nacionalista e revolucionária como seja o Haganah em Israel, ou os Viet-Minh/Viet-Cong no Vietname. Várias acabaram por triunfar. Vários líderes deste movimentos antes apelidados de terroristas – caso de Menachem Begin ou Ho Chi Minh – passaram a ser reconhecidos como estadistas. Já a vaga de terrorismo de grupos de extrema-esquerda e extrema-direita na Europa nas décadas de 1970 e 1980 foram geralmente eliminados sem sucesso. Praticamente só o IRA e a ETA, com algum apoio entre parte das populações de regiões com ambições separatistas, conseguiram sobreviver durante décadas na Europa, e destes apenas o primeiro obteve parcial sucesso.

Lições dos sucessos e fracassos na história do terrorismo

A história evidentemente não oferece lições simples e prontas a usar. Mas isto não significa que nada se possa aprender com ela. Um primeiro dado fundamental da história do terrorismo é que este falha a maior parte das vezes. Os peritos em terrorismo dividem-se em muitos aspectos, mas a maioria concorda que boa parte das campanhas terroristas podem ter um forte efeito perturbador e mediático, mas fracassaram no sentido de que não levaram à mudança política pretendida. Pelo contrário, frequentemente legitimaram uma resposta forte à ameaça terrorista, que pode ser mais ameaçadora para as liberdades do que o terrorismo propriamente dito.

A grande maioria dos grupos terroristas são relativamente efémeros – um estudo recente referia como média apenas dois anos de duração. É importante lembrar este dado no momento atual em que se assiste a um crescendo do número e da mortalidade dos ataques terroristas. O terrorismo, frequentemente é self-defeating, tem no seu radicalismo violento as raízes do seu fracasso. E esta é, afinal, a arma dos fracos, destinada a causar um impacto mediático muito superior à capacidade real de grupos que, por regra, são muito pequenos e com meios muito limitados. É natural que poucos grupos terroristas sobrevivam e triunfem.

Seria, porém, um erro desvalorizar completamente o fenómeno. Por mais que nos mostrem que é bem mais provável estatisticamente morrer num acidente de automóvel do que num ataque terrorista, é muito diferente a reação emocional e de princípio a um acidente e a um ataque. Nas sociedades atuais, por vezes descritas como de risco zero, sobretudo no Ocidente, exige-se ao Estado medidas para prevenir e responder a todo o tipo de riscos e ameaças. Uma resposta inicial pouco eficaz pode legitimar uma reação excessiva a posteriori.

E o terrorismo fracassa frequentemente mas não sempre. Há que olhar com mais atenção para os poucos casos de sucesso, ainda que parcial. Por exemplo, os Hashashin do Islão medieval não conseguiram instaurar um Califado xiita, mas conseguiram dissuadir, durante um par de séculos, outros Estados de tomarem o território montanhoso de difícil acesso que controlavam. Os movimentos terroristas republicanos católicos irlandeses, de que o IRA é o mais conhecido, com forte apoio na comunidade irlandesa imigrada nos EUA, contribuíram decisivamente para levar os britânicos a repensar os custos da sua presença e conceder a independência da parte sul da Irlanda em 1922; e muitas décadas depois, em 1998, o governo britânico fez importantes concessões aos católicos na Irlanda do Norte em negociações iniciadas com apoio dos EUA em troca do desarmamento do IRA. O exemplo mais significativo do impacto do terrorismo na política global até ao presente foi o atentado de Sarajevo de Junho de 1914 por terroristas separatistas, que acabou por provocar uma guerra mundial, no fim da qual, a pequena Sérvia que os armou, doutrinou e treinou, se viu transformada na grande Jugoslávia, embora à custa de 25% da sua população masculina e muito graças ao triunfo dos seus aliados mais poderosos na Primeira Guerra Mundial.

O que nos dizem estes casos de sucesso? O sucesso exigiu tempo, resultou em regra de o grupo armado não se limitar ao terrorismo e não estar isolado. Este último é um ponto especialmente importante, para durar e ter algumas hipóteses de sucesso parece indispensável que estes grupos contem com algum ponto de apoio, tenham um santuário, um território onde podem abrigar-se, abastecer-se, treinar-se, doutrinar-se. Uma retaguarda segura e/ou algum apoio externo são fundamentais para o sucesso. O ISIS corresponde a vários destes aspectos, o que o torna particularmente perigoso.

Estes aspectos historicamente relevantes apontam para possíveis pontos de resposta ao terrorismo. A resposta deve ser paciente e prolongada. Ela deve ser amplamente política e não apenas estritamente policial ou militar. Sendo que esta última é particularmente exigente porque estes grupos não combatem de forma convencional. É fundamental procurar isolar o grupo terrorista e retirar-lhe a sua base de apoio territorial. Isto é uma desafio particularmente exigente tendo em conta que o ISIS deixou há muito de ser um grupo terrorista convencional. É um proto-Estado revolucionário com dezenas de milhares de homens armados, centenas de milhões de euros e algum controlo sobre vastas áreas da Síria e do Iraque. Isolar o ISIS é tanto mais complicado quanto o grupo funciona também como uma rede global de propaganda e ação terrorista, usando múltiplos media para mobilizar afiliados e simpatizantes. Tanto mais complicado quanto no Médio Oriente se vive uma série de conflitos que o ISIS tem explorado habilmente: um conflito sectário entre xiitas e sunitas, uma crise da legitimidade de vários Estados (nomeadamente da Síria e do Iraque) e um conflito pela liderança regional entre várias potências, nomeadamente o Irão, a Arábia Saudita e a Turquia. Seria tão errado neste contexto dar demasiada importância ao ISIS, quanto subestimar o ISIS. As várias vidas do ISIS desde que foi fundado como o Movimento Unidade e Jihad em 1999 mostram que o seu mote oficial “resistir e expandir” é para levar a sério.

Será também para levar a sério o seu objetivo de se afirmar como o Estado Islâmico? O fato de o ISIS parecer contar com apoio de sunitas frustrados com os regimes alauita de Damasco e xiita de Bagdade está longe de significar que o ISIS tem o apoio da maioria dos muçulmanos ou da maioria dos Estados muçulmanos. Os xiitas também são muçulmanos. Os curdos, não sendo árabes, são maioritariamente muçulmanos sunitas. Estes dois grupos de muçulmanos veem no ISIS uma ameaça mortal. Ou seja, esta não é uma guerra entre religiões, um choque de civilizações, mas sim um conflito religioso e político no seio do mundo muçulmano, no quadro de um Médio Oriente que enfrenta múltiplas crises.

É relevante perceber que tipo de conflito e que tipo de ator é o ISIS para se poder combater eficazmente. Nesse sentido não podemos ignorar que o ISIS quer, em última análise, restaurar o Califado como uma espécie de superpotência islâmica purificada.

O ISIS e o jihadismo takfiri no seio do Islão e a opção pela insurreição armada

É um erro desvalorizar a vertente religiosa para perceber os objetivos, os instrumentos de recrutamento e de legitimação do ISIS. Os recrutas do ISIS vivem num ambiente saturado de algumas citações do Alcorão e de clássicos mais ou menos recentes do jihadismo takfiri que são apresentadas pela propaganda alinhada com o ISIS como legitimando a violência, a escravatura, as execuções sumárias em nome de Deus, com a promessa da glória e de recompensas bem tangíveis neste mundo e do paraíso no próximo.

O líder do ISIS, Abu Bakr al-Baghdadi, dá claramente grande importância a afirmar-se como sucessor de Maomé e dos grandes califas do passado idealizado pela versão mais conservadora do Islão, o salafismo. A ponto de ter arriscado a vida numa das suas raríssimas aparições públicas precisamente para proclamar a restauração do Califado na principal mesquita de Mossul no verão de 2014.

As grandes certezas divinas que o ISIS oferece aos seus combatentes são um ponto importante de atração de jovens muçulmanos ou convertidos à procura de sentido para a sua existência frustrante, mesmo que não necessariamente pobre. Isso é claro nos trabalhos sobre o fenómeno de recrutamento de alguns milhares de jovens ocidentais pelo ISIS levados a cabos por especialistas em radicalização. E é também evidente nos trabalhos de jornalismo de investigação relativamente às dezenas de emigrantes portugueses ou luso-descentes recrutados pelo ISIS.

Afirmar que o ISIS é a verdadeira face do Islão, porém, não é nem corajoso, nem rigoroso. Uma coisa é dar a devida importância à doutrina e à propaganda do ISIS. Outra é aceitar, sem mais, as suas pretensões. Ao afirmar-se como Califado, o ISIS pretende ser, não apenas um estado islâmico, mas sim o único Estado Islâmico legítimo. Califado, em princípio, só há um. Portanto, o objetivo do ISIS é afirmar-se como o representante exclusivo de um Islão novamente em expansão no mundo, contra o Ocidente, mas também contra todos os Estados muçulmanos atualmente existentes. Mas esta pretensão está longe de ser a realidade. Reduzir o Islão ao jihadismo takfiri do ISIS é tomar uma parte pelo todo.

O jihadismo takfiri é apenas uma corrente entre as várias em que se dividem os mais de um bilião e meio de muçulmanos no mundo. A leitura do ISIS do Islão como uma religião de guerra é contestado pela maioria dos muçulmanos. Este facto é implicitamente reconhecido pelos principais promotores do salafismo reaccionário violento. A jihad, num dos textos fundadores desta militância radical violenta, é apresentada como um dever esquecido pela maioria dos muçulmanos. Este é precisamente o título – Dever Negligenciado – da obra de Muhammad Faraj, líder do grupo que organizou o assassinato de Sadat em 1979 e um dos precursores do movimento terrorista Jihad egípcia que virá a integrar a al-Qaida. Daí o ISIS e outros grupos que emergem em torno da al-Qaida são conhecidos como takfiri, o que significa literalmente “excomungadores”, pois consideram que boa parte dos outros muçulmanos são apóstatas, são falsos muçulmanos, e estes devolvem o cumprimento.

É precisamente por serem minoritárias que estas correntes recorrem ao terrorismo e à insurreição armada, tipicamente a estratégia dos poucos contra os muitos. E é por este ser primeiro que tudo um conflito interno em zonas de crise aguda do mundo do Islão que cerca de 60% das vítimas de atentados terroristas entre 2004 e 2013 concentraram-se no Iraque, Afeganistão e Paquistão, e boa parte dos restantes 40% se situarem noutros países muçulmanos. O Ocidente representa uma percentagem ínfima das vítimas.

Isto não significa que sejam de aceitar leituras igualmente simplistas de que o Islão é uma religião de paz, ou que o ISIS é um fenómeno puramente político. Reduzir o ISIS à política porque a maioria dos seus membros não são teólogos e se preocupam com questões de poder e de riqueza ou de estratégia seria abandonar uma explicação simplista em favor de outra. Nos movimento terroristas de extrema-esquerda a maioria dos membros provavelmente também não tinha lido O Capital. E qualquer organização, seja religiosa ou não, seja violenta ou não, implica preocupações com relações de poder e controlo de recursos. O que é importante sublinhar é que todas as grandes religiões têm passagens dos seus textos religiosos e vivem momentos de crise na sua história em que justificaram o recurso à violência. Isso aplica-se, por exemplo, ao budismo, que adquiriu no Ocidente uma reputação de religião pacifista, mas não a tem entre os Rohinga muçulmanos violentamente perseguidos num movimento com forte liderança de monges budistas birmaneses.

Dizer que o ISIS não tem nada a ver com o Islão é compreensível da parte de muçulmanos, como o Xeque da Mesquita de Lisboa, que consideram o jihadismo takfiri como uma perversão das suas crenças, e se preocupam em defender a sua reputação como cidadãos pacíficos. Mas do ponto de vista da análise seria um erro ignorar uma das dimensões necessárias ao entendimento dos objetivos e ao combate à propaganda do ISIS. Por outro lado, defender que o ISIS é representativo da verdadeira face do Islão seria oferecer uma vitória à sua propaganda. E, na verdade, vários Estados e grupos muçulmanos têm tido um papel na linha da frente do combate ao ISIS, a maioria das suas vítimas e dos seus inimigos mais eficazes no terreno têm sido outros muçulmanos. Se denunciar o ISIS como um terrorismo verdadeiramente islâmico não é uma forma eficaz de combater ISIS, qual seria então a forma de o fazer?

Como combater um proto-Estado jihadista empenhado num conflito híbrido?

O ISIS é um inimigo particularmente perigoso e difícil de combater. Trata-se de um proto-Estado revolucionário messiânico que está disposto a usar todo o tipo de meios violentos de forma não-convencional para atingir os seus objetivos. No último ano passou a controlar vastos territórios, recursos, meios militares e uma população de mais de seis milhões de pessoas nos Estados em colapso da Síria e do Iraque. Fá-lo em nome de um autoproclamado califa e de uma ideologia religiosa messiânica radical que justifica o uso da violência terrorista propagandeada com grande profissionalismo por via de múltiplas redes sociais. O ISIS utiliza a violência terrorista transnacional de afiliados e apoiantes mobilizados via internet como parte do seu arsenal. Isso permite-lhe projetar a sua força longe da sua base, sob a forma de ataques surpresa muito difíceis de detetar e prevenir.

Temos de reconhecer, em suma, que este é um conflito híbrido, e não uma guerra no sentido tradicional, nem uma simples guerrilha, nem uma mera vaga terrorista, mas uma combinação dinâmica de tudo isto. Um adversário deste tipo não se combate só com ataques aéreos, só com meios policiais e de informações, ou só com propaganda. Claro que controlar território, significa apresentar um alvo. E estes grupos cometem erros. Mas até a derrota do ISIS ser a prioridade para os seus vizinhos e para as principais potências dificilmente nos parece possível levar a cabo um combate eficaz, que será em todo o caso difícil e provavelmente longo.

Um dos erros frequentemente apontados ao contra-terrorismo é o de uma reação desproporcional à ameaça, ilustrada pela imagem de se tentar combater um mosquito com um martelo, que faz muitos estragos e traz poucos resultados. Mas o ISIS não é um grupo terrorista qualquer. E parece pouco crível argumentar que acabará por moderar a sua postura e as suas ambições, como outros regimes revolucionários fizeram, nada no passado do ISIS aponta nesse sentido. Afinal o grupo na sua encarnação mais recente resultou de uma ruptura com a al-Qaida em 2013 precisamente porque o ISIS recusou moderar os seus objetivos e as suas práticas violentas.

O ISIS afirma consistentemente desejar construir e expandir a partir do coração do Médio Oriente o Califado restaurado desde a Índia até à Península Ibérica. Mais, dificilmente um Califado poderá deixar de ocupar Meca e Medina, atualmente controladas pela Arábia Saudita, onde uma crise de sucessão na família real parece bem possível num contexto de problemas financeiros ligados ao baixo preço do petróleo e é passível de ser aproveitada por terceiros. São já oito as “filiais” do ISIS, organizações armadas desde a Nigéria até ao Sudeste Asiático que declararam a sua fidelidade ao autoproclamado Califa. O que mostra que o modelo ISIS tem tido algum sucesso nos meios radicais que ameaçam a ordem estabelecida numa enorme área do mundo muçulmano. Seria um erro subestimar os estragos que o ISIS pode trazer à ordem internacional e aos valores que a suportam, além do enorme custo em vidas que tem tido e a vaga de milhões de refugiados.

Uma resposta eficaz ao ISIS terá sempre de ser holística e não apenas militar. Implica um combate de ideias, de modelos de vida e não apenas uma abordagem policial e carcerária. Terá de envolver uma ampla coligação regional e internacional que permitiria isolar o ISIS, sendo crucial que efetivamente se feche a fronteira com a Turquia a todo o tipo de trânsito de pessoas e de recursos com os territórios controlados pelo ISIS. Teria provavelmente de se aceitar que o modelo de Estado existente no Iraque e na Síria teria de ser revisto através de complexas negociações. Teria de se reconhecer que é errado achar que todos os problemas se resolvem simplesmente com a organização de eleições em países com instituições fracas, uma sociedade civil reprimida por regimes autoritários, e grandes divisões entre diversas comunidades étnicas.

O que é claro é que os ataques recentes em Tunes, em Paris, no Sinai, em Beirute, em Ancara, mostram que ISIS não está contido. Nem é provável que esse grupo venha a ser contido com sucesso, enquanto o ISIS tenha uma base ampla no coração do Médio Oriente e próxima da Europa, com amplo uso da internet.

O grande desafio na resposta a ameaças híbridas e não-convencionais como a representada pelo ISIS é o de desenvolver uma resposta multidimensional e reunir uma coligação ampla de estados e atores – inclusive no campo religioso – que isole e combata eficazmente o grupo, em múltiplos aspectos.

Um aspecto fundamental do combate ao ISIS é, como referimos, este ter de envolver um forte componente de muçulmanos. Nomeadamente, só um forte contingente de soldados muçulmanos no combate ao ISIS poderá contrariar de forma credível a propaganda messianista deste movimento, em que um grande combate final entre cruzados cristãos e os jihadistas seria o prenúncio do desejado fim do mundo como o conhecemos. Uma grande presença de tropas ocidentais além de difícil de defender no contexto político e económico atual, correria o risco de dar maior credibilidade à tentativa do ISIS se afirmar como a vanguarda armada do Islão. Por outro lado, não fazer nada será apresentado pela propaganda do ISIS como sinal da sua força e da impotência do Ocidente e dos seus aliados.

É igualmente fundamental que se desenvolvam programas de combate à radicalização, envolvendo nomeadamente atores religiosos muçulmanos que tenham a credibilidade e o conhecimento para o fazer. Ele poderá assumir vários formatos, seja preventivo no seio das comunidades muçulmanas, seja de reintegração relativamente a afiliados ou simpatizantes do ISIS, nomeadamente em prisões. Estados como a Argélia fizeram-no no passado com algum sucesso.

Parece difícil, porém, que uma mobilização eficaz contra o ISIS tenha lugar sem que as principais potências regionais e globais deem efetivamente prioridade ao combate a este grupo. O que até ao momento não tem sucedido. A recente decisão unânime do Conselho de Segurança da ONU relativamente à Síria poderá apontar no sentido de uma mudança de postura das grandes potências. A sua efetiva e difícil implementação será um teste sobre até que ponto a ameaça do ISIS está realmente a ser encarada como prioritária e terá a resposta holística por uma ampla coligação que parece indispensável para o derrotar. Contar apenas com os erros do ISIS e com reações locais parece ser uma opção excessivamente otimista. Estes grupos por vezes cometem erros. Não é impossível que forças locais com apoio externo consigam levar a cabo alguns avanços ou haja atores que mudem de lado. Mas não conhecemos nenhum exemplo do passado em que um regime revolucionário violento tenha entrado em colapso endógeno, pois geralmente respondem com mais violência e repressão a qualquer desafio. Historicamente, a opção mais comum para os que não querem viver sob um sistema altamente repressivo é a fuga e não a luta.

Se há algo que a história também mostra é que este tipo de grupos não pode ser derrotado simplesmente pela decapitação dos seus líderes ou por ataques aéreos. O ISIS na suas várias encarnações sobreviveu à morte de dois dos seus líderes, radicalizando-se sempre mais. Os EUA estão muito longe de desenvolver contra o ISIS uma campanha aérea na escala do que fizeram contra a guerrilha vietnamita e os seus apoiantes no Vietname do Norte, e, no entanto, no final, perderam esse conflito. É evidente que nenhum caso é exatamente igual a um caso anterior, não há analogias históricas perfeitas. A história dá-nos pistas, não nos oferece soluções simples e fáceis com resultados garantidos.

O que parece claro é que se o Estado Islâmico não ser pode visto como a única e verdadeira face do Islão, é uma verdadeira ameaça para a ordem regional no Mediterrâneo, a segurança de muitos milhões de muçulmanos e representa também uma real ameaça terrorista para os países ocidentais. Portugal, sendo periférico neste contexto, não está completamente ao abrigo desta ameaça, e deve encará-la com seriedade. (Observador)

por Bruno Cardoso Reis

Investigador ICS-Univ. Lisboa e do Instituto da Defesa Nacional, historiador e especialista em segurança internacional.

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