Revista de imprensa: António Costa, o perdedor que não sai derrotado – parte II

(Miguel Baltazar)

Marcelo Rebelo de Sousa faz o pleno nas capas dos jornais desta segunda-feira, dividindo o protagonismo com duas mulheres: Marisa Matias pela espectacularidade do resultado, Maria de Belém pela tragédia. António Costa emerge como a figura que perde, mas sem sair derrotado – outra vez.

Como não podia deixar de ser, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que os portugueses escolheram para os representar nos próximos cinco anos, faz hoje capa em todos os jornais diários. Da leitura cruzada de todos eles, ressaltam várias mensagens em comum: Marcelo foi coroado, embora sem direito a volta olímpica; Marisa sai como a surpresa da noite; Nóvoa volta à universidade com um prémio de consolação e Maria de Belém revelou-se um pesadelo. Embora tenha perdido a eleições, António Costa até sai a ganhar – uma arte em que começa a especializar-se.

Público e Correio da Manhã coincidem nas manchetes e anunciam “Marcelo Presidente”. O Jornal de Notícias anuncia um “Marcelo coroado”, e o Diário de Notícias destaca uma das frases marcantes do discurso do futuro presidente “o povo é quem mais ordena”. O i, o único que não escolhe uma fotografia do dia, coloca Marcelo no cabeleireiro e anuncia “o país de Marcelo”.

Lá dentro, as análises convergem. Marcelo Rebelo de Sousa é o incontestado vencedor da noite. Ganhou com uma percentagem superior à de Mário Soares em 1986 e à de Cavaco 20 anos depois, em 2006, encabeçou as votações em todos os distritos, mas, ainda assim, teve o menor número de votos de umas presidenciais. Razão bastante para o Diário de Notícias notar, em editorial, que “não foi uma goleada nem deu direito a uma volta olímpica”.

Sampaio da Nóvoa perdeu as eleições, teve menos de metade dos votos do principal concorrente, mas é tratado como um pequeno vencedor. O Público assinala o facto de ser o primeiro independente a ter tão elevada votação, o Diário de Notícias fala em “insucesso”, mas não em “derrota”, e o jornal i descreve o milhão de votos conseguido como uma “consolação”.

Marisa Matias é uma das grandes vencedoras da noite e emerge como mais uma forte candidata a ser uma voz decisiva dentro do Bloco de Esquerda, ao passo que Maria de Belém está em queda livre.

Para o i, Maria de Belém teve um resultado trágico. Para o Diário de Notícias, foi um “pesadelo”. Segundo o Público, é claramente uma das derrotadas da noite, a par com Edgar Silva – com a diferença de que, no caso de Belém, se trata de uma derrota surpreendente.

Costa e a quadratura do círculo
O i nota que a soma dos votos de Sampaio da Nóvoa e de Maria de Belém ficaram aquém daquela que foi a marca eleitoral do PS nas legislativas, mas, embora o partido seja um claro perdedor destas eleições, as coisas até poderão correr de feição a António Costa. Dentro do partido, e no seu relacionamento com o futuro Presidente da República.

O Diário de Notícias vaticina que o “insucesso” de Nóvoa e de Maria de Belém fazem mossa no PS e até inflamariam o partido, não se desse a circunstância de Costa fosse primeiro-ministro. Como está com o poder, “o poder ajuda sempre a sarar as lutas internas”. O jornal também nota a coincidência de o primeiro-ministro ter anunciado na semana passada a candidatura de António Guterres a secretário geral das Nações Unidas, um gesto que foi interpretado como uma forma antecipada de “amparar o choque” eleitoral.

O Público está em sintonia com esta análise. “Dentro do PS, é o segurismo quem mais amarga”, o que dá a António Costa maior tranquilidade quanto à oposição interna.

Externamente, no relacionamento institucional com Marcelo Rebelo de Sousa, também há convergência na análise. O i nota que “Costa e Marcelo parecem feitos um para o outro. O passado dos dois revela bastante sintonia, o futuro tem tudo para correr bem. Pelo menos nos primeiros tempos, como em tudo….”

O editorial do Diário de Notícas vai mais longe ao considerar que será mais fácil lidar com Marcelo do que com Nóvoa: “Será muito mais fácil para Costa coabitar com Marcelo em Belém do que com Sampaio da Nóvoa, que inevitavelmente iria dar ainda mais força à agenda das esquerdas”.

É por isso que, como assinala o Público, o PS sai como partido perdedor, mas o resultado não é mau.

Em suma, assinala o Diário de Notícias, “começa a ser um hábito esta capacidade de António Costa fazer a quadratura do circulo”. (Jornal de Negocios)

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