Refugiados moçambicanos no Malaui condicionam regresso ao regresso da paz

Refugiados moçambicanos no Malaui condicionam a Paz em Moçambique Foto: André Catueira/Lusa

Refugiados moçambicanos no Malaui, que fugiram da crise político-militar em Moçambique, condicionam o regresso ao seu país ao fim da atual situação de instabilidade militar entre o Governo e a oposição da Renamo.

“Eu vi blindados dos camaradas das fademos [Forças Armadas] entrarem em Ndande [distrito de Moatize, província de Tete) para perseguir a população e a Renamo [Resistência Nacional Moçambicana]. Não há condições para voltar sem haver paz”, declarou à Lusa Fátima Niquise, mãe de nove filhos, que chegou a 08 de janeiro ao centro de refugiados de Kapise, no Maláui.

A agricultora de 45 anos disse ter escapado por quatro vezes a perseguições das forças estatais em aldeias diferentes, num relato semelhante a outros refugiados ouvidos pela Lusa e igualmente reproduzidos pelo administrador malauiano de Mwanza, o distrito que acolhe o centro de refugiados de Kapise onde finalmente chegou Fátima Niquise, à procura de segurança.

Outros refugiados em Kapise descreveram à Lusa que as forças de defesa e segurança, quando chegam às aldeias, incendeiam casas e celeiros e torturam moradores, alegando que a população alberga e oferece mantimentos aos homens da Renamo.

“A minha sogra e duas cunhadas foram capturadas em Ndande pela FIR [Unidade de Intervenção Rápida] quando iam à machamba [horta], para colher feijão e depois fugir da zona. Foram torturadas, obrigadas a carregar madeira que os militares roubaram de moradores, e depois mantidas reféns numa escola que a FIR tinha transformado em base” contou à Lusa Magrace Joaquim, 26 anos, cinco filhos.

Frágil, novamente grávida e de lábios rasgados devido à fome, a mulher que percorreu 70 quilómetros a pé para chegar ao centro de refugiados de Kapise apela para um entendimento rápido das partes desavindas, para que a população deixe de ser “vítima de demonstrações de forças militares”.

Agora que se encontra no país vizinho, assegura, em chichewa, língua local do Maláui, que só regressa a casa “quando as condições estiverem criadas e já sem militares”.

Também Rogério Bernardo, 60 anos, tenciona voltar a casa em Ndande, uma região fronteiriça do distrito de Moatize, na província de Tete, mas, mais uma vez, só quando houver segurança.

“Como voltar a casa com aqueles homens da FIR lá?” – questionou o agricultor, que chegou a Kapise em dezembro com uma família de sete membros, apelando para que “o Governo e a Renamo se entendam e coordenem uma nova paz, porque é difícil voltar para casa sem paz”.

Moçambique vive uma situação de incerteza política há vários meses, com o registo de vários episódios de confrontos no centro do país, em concreto na província de Tete, que faz fronteira com o Maláui.

O agravamento da crise levou a um aumento de refugiados moçambicanos no campo de Kapise nas últimas semanas, de acordo com o administrador malauiano Mwanza, para pelo menos 3.900 pessoas, havendo ainda muitas por registar.

Na origem da crise, está a reivindicação do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, de tomar o poder em seis províncias do norte e centro do país, onde o movimento reivindica vitória nas eleições gerais de 2014, que considera fraudulentas.

O líder da Renamo não é visto em público desde 09 de outubro, quando a sua residência na Beira foi invadida pela polícia, que desarmou e deteve, por algumas horas, a sua guarda.

Nas últimas semanas, Governo e Renamo acusaram-se mutuamente de raptos e assassínios e a, 20 de janeiro, o secretário-geral do maior partido de oposição foi baleado na cidade da Beira por desconhecidos.

O Presidente moçambicano tem reiterado a sua disponibilidade para se avistar com o líder da Renamo, mas Afonso Dhlakama considera que não há mais nada a conversar depois de a Frelimo ter chumbado a revisão pontual da Constituição para acomodar as novas regiões administrativas reivindicadas pela oposição e que só negociará depois de tomar o poder no centro e norte do país. (Agência Lusa – AYAC // PJA)

por André Catueira -Texto e Fotos/Lusa

 

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