Portugal pactuou com o apartheid contra a libertação de Angola e Moçambique

(DW)

Portugal apoiava o regime de apartheid na África do Sul, este ajudava Lisboa na luta contra a independência nas colónias portuguesas. O acordo secreto continua a ser pouco conhecido pelo grande público.

O regime de Salazar considerava relevante prestar apoio à África do Sul na era do apartheid, nome que se dava à segregação racial da sociedade total, em detrimento da maioria negra. Portugal esperava, em contrapartida, o apoio de Pretória para derrotar os movimentos de libertação que lutavam pela independência de Angola e de Moçambique, nos anos 60 e 70 do século passado. Hoje, o acordo secreto assinado em 1970 pelos dois regimes e o que era então a Rodésia, actual Zimbabué, com a designação portuguesa de ALCORA, ou Aliança Contra as Rebeliões em África, não obstou a que na África do Sul crescesse a dúvida de que Portugal tinha capacidades para manter as colónias.

O investigador português Luís Barroso dedica a sua tese de doutoramento “Marcelo Caetano e a origem do exercício ALCORA – as desconfianças da África do Sul quanto ao futuro de Angola e de Moçambique”, a este capítulo pouco conhecido da História portuguesa: “O exercício ALCORA trazia atrás de si um empréstimo de cerca de 120 milhões de rands, em ouro ou dinheiro, que Portugal deveria usar para comprar armamento. Nos anos 70 os portugueses contactaram os franceses para adquirir os aviões Mirage-3, para poderem ser utilizados na luta contra a subversão”. Segundo o investigador, os franceses não queriam que os aviões fossem usados na Guiné: “Mas era com esse dinheiro que Portugal iria tentar encontrar material de primeira linha essencial para o esforço de guerra”, diz Luís Barroso.

Pretória desconfia das capacidades de guerra portuguesas

No início dos anos 70 tornava-se cada vez mais evidente que a pressão política por parte da oposição e dos movimentos estudantis, mas sobretudo a insatisfação dos militares, aliados a dificuldades financeiras, colocavam em dúvida a capacidade do Governo de Marcelo, que sucedera a Salazar, de suportar as guerras em África.

A África do Sul temia que a independência de Angola e Moçambique desse força à resistência interna ao apartheid (DW)
A África do Sul temia que a independência de Angola e Moçambique desse força à resistência interna ao apartheid (DW)

Daí os receios de Pretória de que o esforço de guerra pudesse ser abrandado –, acrescenta Barroso, tenente-coronel de infantaria, que foi professor no antigo Instituto de Altos Estudos Militares: “Tanto é que quando o Caetano entra para Presidente do Conselho, o ministro sul-africano da Defesa Pieter Botha perguntou ao seu homólogo português o seguinte: afinal, vamos continuar a contar com vocês, ou vai haver alguma mudança?” Luís Barros ressalta que Pretória tinha a “noção da descoordenação entre o poder político e as chefias militares nos teatros das operações”.

Aliança secreta

O Plano de Defesa para a África Austral, suportado pela África do Sul e a Rodésia, foi a génese do exercício ALCORA. De acordo com Luís Barroso, que desempenha funções no quartel-general da NATO na Holanda, ainda existe uma vasta área de investigação sobre aquele projeto secreto, no âmbito dos estudos das guerras que envolveram países da África Austral, como Angola e Moçambique, e as potências regionais e globais de domínio branco.

Convém explicar que ALCORA era uma aliança político-militar tripartida com o objetivo principal de estudar os mecanismos de coordenação de esforços na luta contra-subversiva, visando a derrota dos movimentos de libertação da região austral, na qual se inseriam Angola e Moçambique: “Foi uma aliança mantida em segredo. Não conheço nenhuma referência, por exemplo, na documentação norte-americana ou britânica”.

Mas sabe-se já que a perspetiva com que a ofensiva era encarada pela África do Sul e a Rodésia era substancialmente diferente da visão portuguesa. Ressalta o investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE – Instituto Universitário .

de Lisboa: “Do lado sul-africano era mais uma tentativa de – entre aspas – comprar a estratégia portuguesa, ou seja, de definitivamente entrar na condução estratégica das ações em toda a África austral. Do lado português era visto mais como uma muleta, como um apoio essencial em termos financeiros e militares para os problemas em Angola e em Moçambique”. (DW)

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