Maioria dos automobilistas em Luanda pratica condução perigosa

Acidente de viação na Avenida Deolinda Rodrigues, em Luanda (Foto: Rosário dos Santos)

Uma avaliação da Unidade de Trânsito de Luanda revela que os automobilistas na capital do país realizam com frequência condução perigosa. Em entrevista à Angop, que se segue na íntegra, o comandante da Unidade de Trânsito de Luanda, superintendente-chefe Catarino Roque José da Silva, explica como e os riscos desse comportamento negativo.

Angop – No terceiro domingo de cada Novembro assinala-se o Dia Mundial em memória às vítimas das estradas. Que análise se pode fazer sobre a institucionalização da efeméride?

Catarino Roque José da Silva (CRJS): A celebração desta data significa, por um lado, a evocação pública da memória daqueles que perderam a vida nas estradas e ruas de Angola, particularmente em Luanda. Por outro, significa reconhecimento do Estado e da sociedade da trágica dimensão da sinistralidade e ajuda aos sobreviventes a conviver com o trauma e memórias dolorosas, resultantes de acidentes rodoviários. Em nove meses, isto é de Janeiro a Setembro de 2015, somente em Luanda pereceram 626 cidadãos, em consequência de mil 433 acidentes de viação, deixando mil 24 feridos. Como podemos observar, a problemática é grave, sendo a segunda causa de morte em Angola, pelo que deve ser entendida como uma preocupação de todos nós, merecendo a intervenção das esferas da sociedade no sentido de mitigarmos a situação.

Angop – Para si, quais são as principais causas da elevada taxa de sinistralidade rodoviária?

CRJS: Recentemente foi elaborado um estudo, pela Unidade de Trânsito, de avaliação para a percepção do estilo de condução em Luanda e chegou-se à seguinte conclusão: a imagem dos condutores foi avaliada de maneira negativa por parte dos inqueridos, numa amostra de 1050 casos. É assim que 69% foi definido com uma condução arriscada; 79% condução apressada; 43% condução negligente; e 82% considerados maus condutores.

Na base da avaliação negativa, feita aos condutores de Luanda, ficou patente ainda que a maioria dos condutores realiza, frequentemente, um conjunto de práticas de condução perigosa. Destaca-se excesso de velocidade dentro e fora das localidades, as famosas “mbaias” – ultrapassagem irregular, condução em estado de embriaguês, desrespeito à sinalização do semáforo, a não observância do limite de distância entre veículos e uso de telemóvel durante a condução.

Entre os condutores, dois grupos etários foram considerados com estilo de condução particularmente perigosa. Aos condutores seniores (idosos) foi associado a uma condução perigosa de baixa velocidade, mas pouco atenta a envolvente que, não sendo infractora, coloca os outros em risco por afectar a fluidez do trânsito. Aos jovens foi associada uma condução de elevado risco, principalmente devido à velocidade excessiva. Estas imagens de condução em velocidade foram partilhadas pelos próprios condutores jovens.

Angop – E os profissionais?

CRJS: Os condutores profissionais (motoristas de táxi e de veículos pesados) e os motociclistas foram vistos globalmente como os condutores descritos entre os que apresentam maior agressividade e negligência na prática de condução. A par do exposto, uma das grandes causas que tem contribuído também para o aumento da sinistralidade é o comportamento censurável dos peões, que tem sido de risco, subalternizado face aos automobilistas. Embora se tenha reconhecido que o condutor deve ter um cuidado acrescido junto das zonas onde os peões efectuam a travessia, também foi tornado claro que os peões devem ser os primeiros a preocupar-se com a sua própria segurança.

Angop – Por onde passa a solução, para, no mínimo, reduzir os números actuais?

CRJS: Face ao actual quadro, reconhece-se todo o esforço e iniciativas desenvolvidas pelo Governo, através dos órgãos de tutela, no sentido de melhorar as condições que permitam a redução dos acidentes e suas consequências nefastas. Porém, diante da dimensão do fenómeno, julgamos haver a imperiosa necessidade de serem tomadas medidas multissectoriais no intuito de garantir a paz nas estradas, que passaria por soluções pontuais como: educação rodoviária, trabalhada nas escolas, como componente curricular inter-disciplinar ao inserir seus conteúdos nos programas escolares, visando construir nos alunos conhecimentos e componentes capazes de reduzir o número de acidentes rodoviários.

Contrariar a visão fatalista do fenómeno, mostrar que os sinistros ocorrem frequentemente devido a comportamentos de condução perigosas e desajustadas às condições da via, as quais podem ser controladas e evitadas por quem as realiza. Desmontar a imagem positiva que os condutores luandenses têm de si próprios ajudar a reconhecer e valorizar os comportamentos de risco na estrada e a identificar áreas de melhoria. Sistema integrado de transportes públicos colectivos facilitará a mobilidade de várias pessoas de forma rápida e segura, na medida em que são poucos os casos em que envolvem este tipo de meios. Desta forma, com a redução e a utilização de veículos pessoais, o número de acidentes reduziria consideravelmente.

Angop – Qual tem sido a actividade da Unidade que dirige, junto da sociedade ou organismos públicos e privados para ajudar a estancar a situação?

CRJS: A Unidade de Trânsito tem influenciado, de certa forma, a sociedade no geral para mudança de comportamento e atitudes dos utentes da via, através da divulgação nos meios de difusão massiva de programas sobre educação viária, promoção de campanhas de sensibilização viária, junto das instituições religiosas, escolas, creches e na via pública. Acresce-se também a elaboração e execução de acções relacionadas aos programas e fiscalização do trânsito automóvel, rigorosidade das acções de fiscalização.

Angop – Quais os pontos negros e a média diária de mortes por acidente de viação em Luanda?

CRJS: Em Luanda morrem em média cinco cidadãos, resultado de acidentes de viação, deixando 10 feridos. Os pontos negros são as avenidas Deolinda Rodrigues, Pedro de Castro “Loy”, Camama, estradas Nacional números 230, 100 e Via Expressa, cuja a natureza dos acidentes são as colisões, atropelamentos, falta de pedonais, fraca iluminação pública e declive na via.

Angop – Os taxistas e motoqueiros continuam a ser os principais protagonistas dos acidentes?

CRJS: O veículo motorizado tornou-se popularizado em Luanda, devido ao défice de transportes públicos, trazendo vantagens na mobilidade que ele proporciona. Também fez com que surgissem outras implicações desastrosas. Os acidentes de viação e as suas consequências derivam dessa mesma presença massiva dos veículos motorizados na província de Luanda. É de reconhecer que este fenómeno surgiu sem o acompanhamento de certos organismos, o que permitiu que proliferassem de maneira desordenada, na medida em que as associações não exercem nenhum controlo eficaz sobre os associados e muito menos têm influência sobre os mesmos.

Quanto aos taxistas, não poderemos generalizar, na medida em que o Decreto Presidencial -128/10 de 06 de Julho (Regulamento de Transportes Ocasionais de Passageiros) define dois tipos de táxis: os convencionais (aquele cuja capacidade global do veículo é posta à disposição de um só cliente) e os táxis colectivos (veículos cuja disposição é posta para uma pluralidade de clientes), os chamados azuis e brancos. Para esta última classe, segundo os nossos registos, não são os que mais acidentam. Porém, os que mais vítimas causam quando envolvidos em sinistros, devidos ao número de passageiros que transportam. As medidas são tomadas de forma geral. Não há distinção da fiscalização, embora exista uma certa atenção aos táxis pela maneira como conduzem.

Angop – O fenómeno “gasosa” (suborno) continua a ser um facto…

CRJS: O fenómeno “gasosa”, infelizmente, ainda é um facto. Porém, bastante reduzido, tendo sido instruídos até o terceiro trimestre de 2015 um total de 19 processos disciplinares, que culminaram com a despromoção e a demissão compulsiva dos que assim procederam. Por outro lado, ainda falta colaboração e denúncia dos cidadãos, pois têm sido o principal mentor. Até ao momento foram julgados e condenados 189 automobilistas por tentativa de suborno aos agentes da autoridade.

Angop – Pode ser mais concreto em número de acidentes, mortes e feridos até terceiro trimestre de 2015?

CRJS: De Janeiro a Setembro de 2014 registaram-se mil 952 acidentes de viação com 695 mortos e mil 273 feridos. Em 2015, notificaram-se mil 433 sinistros rodoviários, tendo com consequência 626 mortes e mil 24 feridos.

Angop – Acredita que o trabalho de prevenção deve começar nas escolas primárias?

CRJS: A educação tem como finalidade a formação integral da pessoa, isto é, do homem, indivíduo útil à sociedade, na qual está inserido. Quatro pilares que sustentam a Educação: O saber, através do qual o indivíduo adquire conhecimentos graças à instrução; o saber fazer, através do qual o indivíduo adquire aptidões, habilidades, capacidades e competências para a vida e para o mercado de trabalho; o saber ser, caracterizado pela socialização ou integração, processo pelo qual se incute ao indivíduo atitudes, comportamentos, hábitos e valores indispensáveis para a manutenção da coesão social; e saber viver em comunidade, pilar que arrasta todos os outros anteriores e que inclui a educação ambiental para a paz e direitos humanos e todos os direccionados para o desenvolvimento sustentável.

Estes pilares constituem uma unidade dialéctica. São categorias interligadas que se devem, de facto, ter em conta na construção do currículo escolar. Há países onde existem escolas dotadas de circuitos rodoviários, que permitem promover acções teóricas e práticas de educação rodoviária junto dos alunos, proporcionando conhecimentos e competências necessárias a uma adequada integração na circulação rodoviária.

Assim, há também a perspectiva de implementar um “Projecto Global da Educação Rodoviária nas Escolas”, no país, visando elaborar material de sensibilização em forma de módulos para o aluno e o professor. Este módulo terá uma parte teórica, a ser leccionada numa sala de aula e exercícios práticos no circuito rodoviário, onde os alunos terão a possibilidade de colocar em prática aquilo que apreenderam.

A Educação Rodoviária é um processo de formação ao longo da vida do cidadão como passageiro, peão e condutor, e implica o desenvolvimento de competências que permitam viver em segurança no ambiente rodoviário, assim como o desenvolvimento de atitudes e valores como o respeito, a responsabilidade e a tolerância, enquanto componentes essenciais da educação para a cidadania.

Angop – As câmaras de vídeo e vigilância poderiam dar uma ajuda na monitorização…

CRJS: A tecnologia de vídeo e vigilância é cada vez mais recorrente nas sociedades contemporâneas e ocidentais, de forma a garantir um maior controlo das vias, através do monitoramento permanente e em tempo real das situações que forem ocorrendo. Por outro lado, reduz significativamente a presença de efectivos na via pública.

PERFIL
Nome: Catarino Roque José da Silva
Natural de Luanda, casado e pai de quatro filhos
Formação Policial: Licenciado em Ciências Policiais e Segurança Interna
Cargos já exercidos: Chefe de Operações da Brigada Moto/UOL, chefe de Operações da Brigada Auto/UOL, comandante da Brigada Auto/UOL, chefe do Posto Comando/CPL, 2º comandante da Divisão do Sambizanga, 2º comandante da Divisão do Kilamba Kiaxi, comandante da Unidade de Polícia da Cidade do Kilamba
Cargo actual: Comandante da Unidade de Trânsito de Luanda. (ANGOP)

por José Carlos Gomes

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