‘Kupapatas’ de Luanda transportam até à porta de casa e fogem ao trânsito

Os "Kupapatas" são alternativa para muitas famílias em Luanda Foto: Paulo Julião/Lusa

Escapam aos buracos e são quase a única forma de chegar a horas aos compromissos, face ao caos do trânsito em Luanda, daí que o negócio informal do moto-táxi não pare de aumentar, com milhares de ‘kupapatas’ ao serviço.

Cada corrida de moto-táxi ronda os 150 kwanzas (90 cêntimos de euro), serviço que há duas semanas é a nova profissão de Rafael Vale, que chegou a Luanda, vindo da Huíla, no sul de Angola, para ser ‘kupapata’, como são conhecidos estes jovens motociclistas.

Trabalha por conta própria e transporta já 35 a 40 pessoas por dia, levando para casa até 6.000 kwanzas por dia (35 euros), ainda sem contar com o combustível da motorizada.

“Gosto, mas como não há trabalho o táxi é mesmo para remediar”, conta à Lusa Rafael, de 24 anos e quatro pessoas em casa, na zona do Benfica, arredores de Luanda, para sustentar.

Da mesma forma, Manuel Júnior, no negócio do moto-táxi há dois anos, trocou o desemprego pelo negócio próprio do transporte. Hoje fatura, todos os dias, à volta de 4.000 kwanzas (23 euros), mas ressente-se sobretudo do preço do combustível, que não para de subir.

“Depende dos dias. Há bons e maus, se estiver a chover pior”, diz.

Além da chuva, a sempre presente atenção da polícia e dos fiscais sobre o negócio, sem licença e outras infrações, é outro dos problemas destes ‘profissionais’ de transporte literalmente individual.

“Chegam aqui à civil e levam-nos as motos. Está mal. E com aquela agitação ainda podemos bater”, conta Manuel Júnior. Garante que não tem qualquer acidente no currículo, mesmo que normalmente o capacete, de uso obrigatório, fique em casa.

Assentando praça no centro de Benfica, o ‘kupapata’ Daniel, de 23 anos, faz serviço desde os 14 e há três que trocou o Lubango, no sul, pela capital. Por entre a fiscalização da polícia, o negócio do moto-táxi, que se apanha em qualquer rua de Luanda, assegura a sobrevivência da família na província.

“O dinheiro que nós fazemos dá para sustentar as crianças na província. Mas depois também temos a polícia e só no ano passado, desde outubro, gastei mais de 95.000 [kwanzas, 560 euros]”, desabafa Daniel.

Ainda assim, negócio não falta: “Esses taxistas de carro só deixam nas ruas principais. Como deixámos até ao portão, há mais pessoas que vêm até nós”.

De acordo com dados oficiais da Associação dos Moto-taxistas de Angola, cerca de 300.000 pessoas viviam desta atividade em 2015, mais de metade na província de Luanda.

Em contrapartida, num país de elevada sinistralidade rodoviária, cerca de 200 moto-taxistas morreram nas estradas angolanas só no primeiro semestre de 2015. (Agência Lusa – PVJ / PJA)

por Paulo Julião

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