Da fúria do herói à paz de um pôr-do-sol

Já era altura de reconhecer em Sylvester Stallone uma das figuras mais singulares das últimas décadas do cinema americano - DR

Houve um tempo, nos anos 80, em que Sylvester Stallone corporizava uma anedota estética e política. Já não é aí que estamos: uma das figuras mais singulares das últimas décadas do cinema americano sistematiza em Creed – O Legado de Rocky o seu próprio (e enorme) legado.

Numa entrevista de 1979, quando tinha Rocky II pronto a estrear e planeava um terceiro episódio da série, Sylvester Stallone garantia: “Mas não haverá um Rocky IV, é preciso saber parar.” Sabemos o que aconteceu entretanto, houve mesmo um Rocky IV (em 1985, escassos seis anos depois destas palavras), e a seguir a ele mais Rockies ainda. Em Creed – O Legado de Rocky, o filme escrito e realizado por Ryan Coogler que esta semana chega às salas portuguesas, Sylvester Stallone veste a pele de Rocky Balboa pela sétima vez. Contabilisticamente é o Rocky VII, e já ninguém, nem o próprio Stallone, quererá correr o risco de profetizar que nunca haverá um Rocky VIII.

Já era altura de reconhecer em Sylvester Stallone uma das figuras mais singulares das últimas décadas do cinema americano, muito para além da caricatura em que ele, de modo mais ou menos assumido, e sobretudo nos anos 80 com aquele encavalitar de Rockies, Rambos, Cobras e quejandos, ameaçou tornar-se. Ou em que chegou mesmo a tornar-se. Houve um ponto dos anos 80, que se arrastou pela década seguinte, em que Stallone corporizava uma anedota, estética (o protótipo do “canastrão”, o símbolo do triunfo do músculo sobre o cérebro) e política (o militarismo revanchista americano, o sonho molhado do reaganismo). Ninguém dizia a palavra “Stallone” sem um esgar trocista. Vamos lá com calma. Mesmo nesses filmes em que Stallone vence sozinho o Vietname e a Guerra Fria, a distribuir pancadaria e metralha, vamos lá com calma.

E notemos, em primeiro lugar, que o Stallone de Creed – O Legado de Rocky, este Rocky Balboa envelhecido, é tudo menos uma máquina de dar pancada. É tudo menos uma máquina, é um homem, magoado mas sereno e, tanto quanto lhe é possível, pacificado. Pacificado na relação com o sucesso e com o fracasso, vistos como duas faces da mesma moeda ou, o que vai dar ao mesmo, como dois estados transitórios, nunca definitivos. Não é que seja “autobiografia” mas – até porque Stallone diz que de todas as suas personagens Rocky é a sua preferida, e aquela em que mais se reconhece –, a série dos Rockies, e sobretudo o arco da personagem dentro dela, acaba por ser um reflexo, mais ou menos consciente, do acidentado percurso de Stallone. Todas estas sequelas – desta ou doutras séries, incluindo os três episódios de Os Mercenários que foram o mais recente jackpot de Stallone – nasceram dum balanço entre uma vaga premeditação e a força das circunstâncias.

Stallone quis fazer outras coisas, mas falhou. Falhou logo na sua primeira experiência como realizador, Paradise Alley, de 1978, flop de público e de crítica – Stallone, que estava então a rodar Rocky II, contou que saiu mais cedo do plateau para ir a uma sessão de estreia do filme “onde só estavam dois espectadores, e um deles a dormir”. Ou quando, na viragem dos anos 80 para 90, se tentou reinventar como actor de comédia, coisa que ainda correu razoavelmente bem no muito divertido Tango & Cash, de Andrei Konchalovski, em si mesmo uma paródia dos filmes de acção, mas foi ruinosa no Oscar de John Landis. Num certo sentido, a série de Os Mercenários (e sobretudo o primeiro filme, que é notável) foi o momento em que Stallone, finalmente, conseguiu com sucesso essa suavização humorística da sua imagem, recuperando o pragmatismo dos seus filmes de acção dos anos 80 mas injectando-lhe uma auto-irrisão, uma “consciência de si” (e dos “outros”, todos aqueles envelhecidos ex-action heroes convocados para a série) plenamente medida e aplicada.

Stallone, Chaplin, Welles…
Um balanço entre a premeditação e as circunstâncias, dizíamos. Stallone sempre teve um sentido e uma ambição de autor: foi argumentista do primeiro Rocky, a personagem é “sua” desde o início, e esse argumento valeu-lhe mesmo a nomeação para o Óscar a par com a nomeação como actor, algo que antes dele só Chaplin e Welles tinham conseguido – sim, há um ponto muito preciso em que é correcto escrever “Stallone, Chaplin e Welles” na mesma frase. Quando vemos o que ele faz com a personagem em Creed, projecto que nasceu das “circunstâncias” (foi ideia de Ryan Coogler, que propôs a Stallone uma sétima encarnação de Rocky), e sobretudo quando vemos a coerência com que Rocky se oferece a um olhar exterior e em certa medida “apócrifo”, é impossível deixar de pensar que a grande força de Stallone, em todos os seus altos e baixos, tem sido a capacidade de atribuir ao “circunstancial” uma aparência de “premeditação”. Em Creed isso é evidente, com uma clareza cristalina.

Mas resta, neste Rocky Balboa envelhecido, alguma coisa do símbolo pugilístico do “mundo livre” que a personagem foi nos anos 80, sobretudo noRocky IV? E aquela fúria vingativa do Rambo dessa época, Stallone ainda é habitado por ela? É aqui, na relação entre estas duas personagens, que convém “ir lá com calma”. Quando Stallone percebeu que Rambo e Rocky eram os seus achados de sucesso mais ou menos certo (o Cobra, de 1986, não pegou da mesma maneira), é muito provável que tenha também pensado essa relação, e as maneiras de a trabalhar. Há entrevistas em que ele, de resto, sugere, com intenção, uma visão “contrapolar” de Rambo e Rocky. Peguemos nesses dois filmes, quase contemporâneos, que lhe valeram, mal ou bem, a condição de símbolo da América reaganiana: o Rambo II e o Rocky IV, ambos de 1985 (ano da chegada de Gorbachov ao poder na URSS, convém não esquecer). E notemos que Rambo II proclama uma espécie de guerra interminável, contra os vietnamitas, contra os soviéticos, contra o comunismo, mas também, e isto é muito importante, contra a política e contra as subtilezas da diplomacia (a personagem que Rambo mais despreza é o representante da Administração americana). Em Rambo só existe um ressentimeno profundo, atávico, um trauma que só se pode resolver para além de todas as regras – incluindo as regras da guerra. Mesmo que Stallone seja reconhecidamente “de direita”, e um declarado apoiante do Partido Republicano, é um pouco primário supor que haja empatia política entre ele e a personagem. Porque se sim, vejamos que Rocky, e particularmente nesseRocky IV, é o oposto: é o homem que aceita as regras (o desporto, o boxe), aceita os códigos, e age estritamente dentro dos seus limites. Ao contrário de Rambo, não quer exterminar o adversário, quer seduzi-lo – e, pese toda a sua animosidade, Rocky IV não termina sem uma saudação ao povo soviético, e particularmente a Gorbachov (através dum seu émulo filmado na assistência), como se pressentisse o que ia acontecer nos anos seguintes e estivesse sinceramente convencido da bondade daquela demonstração das virtudes de “living in America“.

Stallone fechou Rambo no filme homónimo de 2008 (ou não: fala-se de um novo filme, com o herói lançado no México, a combater os narcos), que sublinhava bem o sentido trágico da personagem, e sobretudo a sua solidão. Rocky, e o Rocky de Creed, continua a ser o seu oposto. Não há tragédia (mesmo a doença, tratada de forma enxuta, apenas mais uma adversidade que é preciso contornar), e sobretudo não há solidão (apesar da viuvez: tão bonitos os planos em que Rocky vai ao cemitério conversar com a lápide da falecida mulher). Apenas um homem normal, oriundo daquela mesma América urbana e “proletária” que Springsteen tanto cantou (sim, eles encontram-se, e não é por acaso que em Creed nos lembramos das Streets of Philadelphia); um homem normal que procurou, e encontrou, com sangue, suor e lágrimas, a sua porção de “sonho americano” vivido numa escala pequena. As virtudes da abnegação, na derrota, e da modéstia, no triunfo. Uma ideia de honestidade: e quando vemos, nos planos finais, a respiração cansada e ofegante de Rocky a subir a escadaria, e aquele pôr-do-sol que é o presente final que Coogler tem para dar às personagens (e aos espectadores), é essa ideia que nos vem ao espírito – Sylvester Stallone, o mais honesto “actor-autor” do cinema americano contemporâneo, por isso o mais justo, e aquele que faz da honestidade e da justeza uma forma de grandeza. (Público)

por Luís Miguel Oliveira

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