Como o Brasil demorou para declarar o Zica uma “emergência”

Com o Carnaval a porta, multiplicam-se as medidas de prevenção - Christophe Simon/AFP

Até ao início deste ano, as autoridades brasileiras minimizaram o impacto do vírus. Mas a epidemia tomou proporções internacionais e pode afectar a indústria turística e os Jogos Olímpicos do Rio.

Como se uma crise económica de grandes proporções, o maior escândalo de corrupção de sempre, e um governo paralisado e disfuncional não fossem problemas suficientes no ano em que acolhe os primeiros Jogos Olímpicos da América do Sul, recentemente o Brasil ganhou um inimigo que, apesar do pequeno tamanho – menos de um centímetro –, está na origem de uma das maiores crises de saúde no país. O ministro brasileiro da Saúde, Marcelo Castro, admitiu na sexta-feira que o país está a perder a batalha contra o mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão do vírus Zica, detectado no Brasil em Maio do ano passado, mas que rapidamente se transformou numa epidemia: estima-se que existam entre 440 mil e 1,3 milhões de casos, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças.

Apesar de apenas uma em cinco pessoas infectadas apresentar sintomas – manchas na pele, conjuntivite e febre – que geralmente desaparecem ao fim de menos de uma semana, mulheres picadas pelo mosquito e infectadas com o vírus, em particular durante os primeiros três meses de gravidez, parecem ter uma maior probabilidade de terem bebés com microcefalia, uma malformação que consiste num cérebro e numa cabeça mais pequenos do que a média. A microcefalia é incurável, afecta o desenvolvimento neurológico e motor, além de poder causar a morte. O mais recente boletim divulgado pelo Ministério da Saúde brasileiro aponta para a existência de 3893 casos de microcefalia suspeitos de estarem relacionados com o vírus Zica desde Outubro de 2015 até ao momento. Em 2014, foram detectados somente 147 casos de microcefalia no Brasil. Em 2013, foram 167.

Até ao início deste ano, o Zica parecia um problema brasileiro e até mesmo as autoridades do país minimizaram o seu impacto ou ameaça. Em Maio de 2015, quando se confirmou a presença do vírus no Brasil, o então ministro da Saúde, Arthur Chioro, disse não estar preocupado porque “é uma doença benigna e que tem cura”. Em Novembro, o seu sucessor Marcelo Castro – o mesmo que há dias admitiu que o Brasil está a perder a batalha contra o mosquito Aedes aegypti – deu o seguinte recado a mulheres que estejam a planear ter filhos: “Sexo é para amador, gravidez é para profissional”. De uma forma geral, a mensagem das autoridades brasileiras tem sido aconselhar as mulheres a adiarem a gravidez.

Mas a epidemia tomou proporções internacionais na última semana e meia, quando se confirmou a presença do Zica noutros países da América do Sul e do Norte. A Organização Mundial da Saúde acaba de alertar que o mais provável é o vírus alastrar-se pela quase totalidade do continente americano.

Estado de emergência 

O Brasil – que este ano esperava ser visto no exterior como o país das Olimpíadas, cumpridor de prazos e organizado, contra todas as evidências em contrário – surge na imprensa estrangeira como o principal foco de disseminação do vírus, um dado que pode afectar a indústria turística brasileira e comprometer as viagens para o Rio em Agosto, quando a cidade recebe os Jogos Olímpicos. O Centro norte-americano de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) emitiu recentemente um alerta aconselhando mulheres grávidas a evitarem viajar para o Brasil e outros países latino-americanos afectados pelo Zica – tanto quanto se sabe, é a primeira vez que aquela agência do governo recomenda que mulheres grávidas evitem uma determinada região. Esta segunda-feira, uma porta-voz da Ordem Americana de Obstetras e Ginecologistas afirmou à Reuters que os membros da sua organização têm recebido “centenas, se não milhares” de telefonemas de pacientes que viajaram para as regiões afectadas.

Depois do alerta do CDC, o comité organizador dos Jogos Olímpicos do Rio anunciou que as instalações desportivas que vão acolher o evento serão inspeccionadas diariamente para assegurar que não existem focos de água parada, onde o Aedes aegypti se reproduz, e minimizar o risco de contacto com o mosquito, que também é transmissor de dengue, febre amarela e chikungunya.

Não existe vacina nem qualquer terapia anti-viral disponível para o Zica e mesmo os testes que permitem diagnosticar o vírus são limitados.

O Brasil decretou o estado de emergência nacional e mobilizou o exército e a polícia para  fazerem inspecções porta-a-porta para eliminar potenciais focos de proliferação do Aedes aegypti. O discurso das autoridades também tem insistido na responsabilidade das populações na prevenção e combate ao Zica. Nas suas últimas declarações, o ministro da Saúde disse que o Brasil corria o risco criar uma geração de vítimas, caso a sociedade não participasse na luta contra o mosquito. “Não podemos perder essa guerra. Se não, teremos uma geração de sequelados e seremos responsabilizados pela história por não nos termos mobilizado para vencer esse problema”, disse na sexta-feira, segundo a Folha de São Paulo.

A secretaria de Estado da Saúde do Rio de Janeiro promoveu este sábado, o que chamou de “ação especial de conscientização de combate ao mosquitoAedes aegypti”: pôs um conhecido bloco de Carnaval a desfilar na Lagoa com estandartes que diziam “Xô Zika!” e a distribuir T-shirts à população.

Enquanto isso, laboratórios públicos especializados na área da virologia queixam-se da falta de verbas do governo para desenvolver pesquisas e de cortes orçamentais no seu sector. Alguns tiveram de abandonar os seus projectos por falta de verbas, outros estão a trabalhar com material desactualizado ou cedido por outras instituições.

por Kathleen Gomes (Público)

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