Clinton e Sanders: duas visões e dois estilos de campanha entre os democratas

(AFP)

Bernie Sanders lança um olhar sério ao subir no púlpito – os lábios cerrados, permitindo-se um sorriso apenas no momento da calorosa ovação de boas-vindas.

Já a sua concorrente na disputa pela indicação democrata à Casa Branca, Hillary Clinton, invade energicamente o local, gritando, sorrindo, balbuciando “obrigada” e aparentando um real assombro pela cálida recepção.

O primeiro quer que as massas se engajem em uma “revolução política”, e promete grandes mudanças, se for eleito.

A segunda pretende seguir firme à frente, assegurando que terminará o trabalho iniciado por Barack Obama, mas alertando os americanos de que há trabalho duro a fazer.

Em um estilo, ou em outro, cada um dos principais candidatos democratas se prepara para uma maratona eleitoral que começa na segunda-feira com o caucus de Iowa, um estado normalmente negligenciado em anos sem eleições presidenciais.

‘Bernie!’

Sanders prefere os campus universitários. Sua chegada é simples e pontual.

Alto e subtilmente encurvado, o senador de 74 anos de Vermont sobe no púlpito, abre um pedaço de papel amassado e faz uma brincadeira sobre a excessiva introdução feita pelo apresentador que o antecedeu.

“Então, vou para casa”, disse à multidão reunida no domingo na Universidade do Norte de Iowa, em Cedar Falls.

Sem qualquer transição, ele vai directamente para a mensagem essencial que espera que seus ouvintes absorvam naquela noite: “Esta campanha é sobre a crença de que nós estamos vivendo em uma economia manipulada”, em um país com “um sistema de financiamento de campanha corrupto. Isto soa muito cruel?”.

“Não!”, respondeu a plateia.

Em tom professoral, ele continua dirigindo-se ao público: “Vocês estão prontos para uma ideia radical?”.

“Sim!”, respondeu a multidão.

Então, Sanders discorre sobre seus temas favoritos: Wall Street, o alto custo dos remédios, corrupção.

“Bernie, nós te amamos!”, grita uma jovem durante um breve intervalo.

O senador sorri. Depois de uma “aula” de uma hora, ele volta à Terra, deixando o púlpito para ser cercado por dezenas de jovens.

Ele distribuiu autógrafos, mas, aparentemente não muito afeito a selfies, começa a esquivar-se, ignorando os gritos desesperados dos fãs.

Sanders também é um mestre do humor inexpressivo.

Conhecido por ser um tanto desleixado, o senador solta uma gargalhada ao brincar que “penteia o cabelo com perfeição” e se refere a si mesmo “como uma pessoa tipo GQ”, em alusão a uma popular revista masculina nos Estados Unidos.

Todos parecem conhecê-lo simplesmente como “Bernie” – e não pelos formais “senador Sanders”, ou “senhor Sanders”.

É com o punho em riste e a expressão séria que o auto-proclamado “socialista democrático” chega ao escritório local do Sindicato dos Metalúrgicos. Trabalhadores, inclusive algumas enfermeiras, repetem com entusiasmo “Bernie! Bernie! Bernie!”.

Alfinetando os empresários americanos, ele pede aos membros do sindicato: “Se vocês são mais produtivos, por que milhões de pessoas trabalham mais horas?”.

“Ganância!”, responde a multidão, ao que Sanders retruca: “Isso mesmo!”.

Senhora secretária

Tudo a respeito de Hillary Clinton durante a campanha evoca a estadista, a começar pela logística de suas aparições públicas.

A ex-primeira-dama de 68 anos tem protecção do Serviço Secreto e detectores de metais são obrigatórios aonde quer que ela vá. Os participantes dos actos chegam muito antes do horário previsto para começar.

Seu público é melhor, mais calmo e mais velho. Há simpatizantes obstinados que a acompanham desde o começo e mulheres jovens que admiram o compromisso histórico de Hillary com os direitos das mulheres.

Invariavelmente, eles falam da experiência dela como a razão para apoiá-la.

A candidata chega ao palco, agitando os braços, para dramatizar uma corrida rápida. Ela parece estar exageradamente de excelente humor.

A ex-primeira-dama agradece aos anfitriões e voluntários antes de expor sua agenda, da Economia à Política Externa, e sempre acaba por falar do período em que trabalhou como secretária de Estado.

A voz de Hillary Clinton é firme e vai ganhando força gradualmente. É a de uma combatente experiente, pronta para se erguer diante de um Congresso controlado pelos republicanos. Mas ela luta para somar à sua candidatura uma ideia tão simples quanto à da “economia manipulada” de Sanders.

“Você faz campanha com poesia e governa com prosa”, costuma dizer Hillary, citando o governador de Nova York e peso-pesado do Partido Democrata Mario Cuomo.

Em Abril de 2015, Clinton passou o primeiro mês de sua campanha participando de mesas-redondas na intenção de encarnar a imagem de herdeira natural. Ela costuma compartilhar histórias que ouviu de pessoas a quem conheceu em cafés e pequenos negócios.

E, ao final de seus eventos de campanha, ela se submete ao ritual de “selfies” e chega a perguntar às pessoas, “você quer tirar uma foto?”.

Se alguém se atrapalha com seu aparelho, ela pega o próprio iPhone, muda a direcção da câmara e tira a foto ela mesma. (AFP)

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