Cientistas: Será grande prejuízo para a Física brasileira se Adlène Hicheur for embora

(East News/ Martial Trezzini/KYSTN/MBER102)

Depois de se tornar público que a Polícia Federal e o Governo brasileiro estão investigando seus passos, o físico franco-argelino e atualmente pesquisador na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Adlène Hicheur, de 39 anos, está decidido a deixar o Brasil por se sentir perseguido injustamente.

Com a possível decisão, ex-colegas que trabalharam com o físico no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) desde 2013 e amigos atuais no Laboratório de Partículas Elementares do Instituto de Física da UFRJ estão tentando convencer Hicheur a não deixar o país.

Adlène Hicheur foi condenado na França em 2009, por terrorismo, após trocar mensagens por e-mail com um homem que seria terrorista da Al-Qaeda na Argélia. Em seu julgamento, no entanto, não foram encontrados indícios concretos de seu envolvimento em ações terroristas naquele país.

No Brasil, o professor é alvo de inquérito aberto no início de 2015, após reportagem da Rede CNN sobre o atentado contra o jornal francês “Charlie Hebdo”. Na reportagem, um homem que foi ouvido pela CNN numa mesquita do Rio, que é frequentada pelo professor, exibiu o símbolo da facção terrorista Daesh. A partir daí, a Polícia Federal começou a investigar possíveis simpatizantes de extremistas na mesquita, e, por já ter um histórico, o Professor Hicheur também está sendo investigado.

Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, o coordenador do Laboratório de Partículas Elementares (LAPE) da UFRJ, Doutor em Física Leandro de Paula, que dirige a equipe de trabalho da qual faz parte Hicheur, falou sobre a importância do trabalho que vem sendo realizado pelo franco-argelino, afirmando que o físico é um profissional de primeira linha e que será um grande prejuízo se ele for realmente embora do Brasil.

“O Professor Adlène é um excelente pesquisador, de primeira linha, que sempre deu ao longo de sua carreira científica, e continua dando aqui no Brasil, uma contribuição significativa para o estudo de partículas elementares, que é a nossa área. E, atuando aqui no LAPE, ele tem responsabilidade por três linhas de pesquisas e está finalizando dois artigos. Na Universidade, propôs cursos para pós-graduação, tem ajudado os alunos, é extremamente ativo, participativo. É uma pessoa brilhante. Ele indo embora, será uma grande perda para a Física brasileira.”

O Professor Leandro de Paula alerta para o fato de que a interrupção da coordenação do trabalho de Hicheur junto à UFRJ, neste momento, pode colocar a perder o andamento dos estudos que estão sendo orientados pelo franco-argelino.

“Ele sendo o principal responsável, que propôs alguns trabalhos, que os está desenvolvendo em colaboração, se essa pessoa que deflagrou o processo, que carrega a chama daquela pesquisa vai embora, você certamente fica capenga. Provavelmente vai ser difícil seguir adiante alguns desses trabalhos, ou obter tantos resultados como nós temos obtido. Essas pesquisas que dizem respeito a ele serão certamente prejudicadas.”

Através de uma carta enviada para os membros do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), o Professor Hicheur afirma que entrou no Brasil de forma legal, como cientista. Segundo o físico, “não houve nenhum segredo a respeito da minha entrada no Brasil, não houve nenhum episódio secreto nisso”.

Com relação à condenação na França, o professor também afirma na carta que foi preso sob a única justificativa de ter visitado sites islâmicos subversivos, sem haver provas concretas de sua participação em atos terroristas.

“Fui privado da minha liberdade por dois anos, apenas com base nisso. A acusação não conseguiu apresentar nenhuma prova material para sustentar seus argumentos. Não foi apresentada nenhuma prova de intenção de cometer qualquer ato”, argumenta o cientista.

Adlène Hicheur ainda agradece ao IFRJ – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro e ao CBPF por proporcionarem que ele tenha voltado a atuar na área da Física de Partículas, especialização em que, segundo o diretor do CBPF, Ronald Shellard, em entrevista exclusiva à Sputnik, na quarta-feira (13), é extremamente competente e de atuação irrepreensível.

O Dr. Leandro de Paula, seu coordenador na UFRJ, concorda:

“Ele é uma pessoa bastante típica do nosso meio. É um pesquisador, uma pessoa curiosa, que gosta de discutir, conversar, propor coisas, e extremamente trabalhador. A produção científica dele, a produção de ideias, a resposta a demandas, é enorme, é frequente. É uma pessoa com uma capacidade de trabalho impressionante. Mesmo no meio desse tumulto todo, nada fez com que ele parasse. Ele está discutindo a conclusão de artigos e debatendo propostas de Física com colegas do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear). É claro que não está trabalhando como normalmente, mas ele continua trabalhando.”

Leandro de Paula destacou ainda que a possível partida de Adlène Hicheur pode comprometer o intercâmbio futuro com outros cientistas e pesquisadores estrangeiros, que podem desistir de vir trabalhar no Brasil por conta do que está acontecendo com o físico franco-argelino.

“Se a gente está querendo desenvolver ciência no Brasil, a gente precisa de bons cientistas. Quando os bons cientistas vêm, se adaptam e trabalham bem, a gente devia incentivar. Ao criar problemas, nós estamos também criando problemas para outros cientistas que podem estar decidindo se vão vir ou não para o Brasil. De qualquer maneira, nós vamos ter um dano grande, porque, além do Professor Adlène pretender ir embora e interromper o seu trabalho, eu acho que outras pessoas vão pensar duas vezes antes de vir para cá, o que é lamentável.”

O Governo brasileiro diz que está avaliando as medidas que irá tomar sobre a permanência do físico no Brasil. Através de nota, o Ministério da Justiça declarou que “O inquérito policial relativo ao Senhor Adlène Hicheur, aberto pela Polícia Federal, tramita em sigilo, não sendo possível divulgar quaisquer informações a respeito. Outros aspectos jurídicos relativos ao caso estão sendo analisados, em conjunto, pelos órgãos técnicos do Ministério da Justiça.” (SPUTNIK)

 

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