Bashar Al-Assad: “Nunca pensei em deixar a Síria sob nenhuma circunstância”

O Presidente sírio Bashar Al- Assad garante que nunca pensou sair do país Imagem: D.R

Uma Entrevista exclusiva ao Presidente da Síria, Bashar Al-Assad, feita por dois jornalistas da Agência de Notícias EFE e que importa transcrever na íntegra, para se compreender o que se está a passar naquele país do Médio Oriente.

Pergunta: Muito obrigado, senhor presidente, pela sua hospitalidade e por dar à Agência Efe esta oportunidade para entender qual é a situação no seu país. No dia 14 de novembro, as potências mundiais, incluindo Rússia e Irão, definiram em Viena um calendário para que se chegue a uma solução política para a crise na Síria. De acordo com esse calendário, as negociações entre o seu governo e a denominada oposição moderada deveriam começar em 1 de janeiro. Está pronto para iniciar essas negociações?

Resposta do presidente da Síria, Bashar al Assad: Sejam os senhores bem-vindos à Síria. Desde o início do conflito na Síria, adotamos o enfoque de diálogo com todas as partes envolvidas no conflito e debatemos e respondemos positivamente cada iniciativa que se apresentou em diferentes países ao redor do mundo, independentemente da sua intenção real e a credibilidade das pessoas ou oficiais que iniciaram essas propostas. Portanto, hoje estamos preparados para iniciar as negociações com a oposição. Mas depende da definição de oposição. Oposição, para todo o mundo, não significa grupos armados. Há uma grande diferença entre grupos armados e terroristas, por um lado, e oposição, pelo outro. Oposição é um termo político, não um termo militar. Por isso, falar sobre o conceito é diferente na prática, porque até ao momento vimos que outros países, incluindo Arábia Saudita, Estados Unidos e outras nações ocidentais queriam que os grupos terroristas se unissem a estas negociações. Querem que o governo da Síria negocie com terroristas, algo que não acredito que alguém pudesse aceitar em nenhum país.

P.- Estaria o senhor disposto a negociar e dialogar com os grupos da oposição que atualmente se reúnem em Riad?

R.- É a mesma situação, porque há uma mistura de oposição política e grupos armados. Permita-me ser realista em relação aos grupos armados na Síria. Nós dialogamos com alguns grupos, não organizações, por uma razão que era conseguir uma situação na qual eles renunciassem às armas e decidissem se unir ao governo ou retomar a sua vida normal com a amnistia do governo. Esta é a única maneira de lidar com os grupos armados na Síria. Quando quiserem mudar o seu enfoque, renunciar às armas, nós estaremos prontos, mas tratá-los como se fossem uma entidade política é algo que rejeitamos plenamente. Isto antes de tudo. Quanto ao que eles chamam a oposição política: o senhor, como espanhol, quando olha para a oposição no seu país, vê como evidente que a oposição é uma oposição espanhola e que tem bases espanholas e são cidadãos espanhóis. Não se pode ser oposição enquanto se está vinculado a um país estrangeiro, sem importar qual. Portanto, de novo, depende do tipo de grupos reunidos na Arábia Saudita. Gente que faz parte da oposição na Arábia Saudita, no Catar, na França, no Reino Unido, nos EUA. Portanto, como princípio, estamos prontos, mas no final, quando se quer chegar a algo, ter um diálogo bem-sucedido e frutífero, é necessário negociar com uma oposição real, nacional e patriótica que tenha as suas raízes na Síria e que só se relacione com os sírios, não com qualquer outro estado ou regime no mundo.

P.- A delegação síria vai participar da conferência em Nova Iorque caso efetivamente seja realizada nas próximas semanas?

R.- Não está ainda confirmada. A recente declaração russa disse que eles preferiam que fosse, acredito, em Viena. Isto em primeiro lugar. Em segundo, eles disseram que não é apropriado antes de definir quais são os grupos terroristas e quais não, algo que é muito realista e lógico. Para nós, na Síria, todo aquele que leva armas é um terrorista, portanto, sem definir este termo, sem conseguir uma definição, não faz sentido se reunir em Nova Iorque ou em nenhum outro lugar.

P.- Na sua opinião, o que se pode fazer para acabar com o Daesh (acrónimo pelo qual o grupo Estado Islâmico é pejorativamente chamado em alguns países)?

R.- Este é um assunto muito complicado, não pelo ISIS (sigla do Estado Islâmico em inglês), porque o ISIS é uma organização. Há algo mais perigoso com o qual é preciso lidar, que são as razões. Em primeiro lugar, a ideologia, algo que foi colocado na mente das pessoas ou da sociedade no mundo árabe por décadas, através das instituições wahhabistas e do dinheiro saudita que foi pago para apoiar esta obscura e odiosa ideologia. Se não se aborda esta ideologia, é uma mera perda de tempo dizer que vamos lidar com o Daesh, a (Frente) Al Nusra ou qualquer outra organização pertencente à Al Qaeda. Há a Daesh-Al Qaeda, Al Nusra-Al Qaeda e muitas outras organizações com a mesma ideologia. Portanto, isto é algo que deve ser tratado a longo prazo: como prevenir que essas instituições wahhabistas e o dinheiro saudita cheguem às instituições muçulmanas de todo o mundo para transformá-las em extremistas e para propagar o terrorismo por todo o mundo. Isto vem em primeiro. Depois, temos que falar sobre o curto prazo e combater a situação atual, com o Daesh na Síria e no Iraque, principalmente. Certamente, a luta contra o terrorismo é outra resposta óbvia a essa pergunta, mas estamos a falar de uma ideologia e uma organização que tem capacidade ilimitada para recrutar terroristas de todo o mundo. Na Síria, temos mais de 100 nacionalidades que lutam com os extremistas e terroristas, Al Qaeda e Al Nusra e outros. O primeiro passo que devemos dar a fim de resolver este problema é interromper o fluxo de terroristas, especialmente através da Turquia a Síria e Iraque, e certamente temos que acabar com o fluxo de dinheiro, dinheiro saudita, dinheiro wahhabista e dinheiro catariano aos terroristas através da Turquia, assim como o armamento e qualquer outro apoio logístico. Assim é como podemos começar, e depois pode-se falar dos restantes aspectos, que podem ser uma questão política, económica, cultural… Há muitos aspectos, mas, por enquanto, temos que começar com conter o fluxo, e ao mesmo tempo combater o terrorismo dentro da Síria com o exército sírio e com quem quiser apoiar o exército sírio.

P.- Quem compra o petróleo do Daesh? Que países estão por trás do Daesh?

R.- Os russos divulgaram na semana passada imagens de televisão e vídeos dos camiões que transportam petróleo para atravessar as fronteiras entre Síria e Turquia. Certamente, os turcos o negam; é muito fácil negar, mas vamos pensar na realidade: A maior parte do petróleo sírio está na parte norte da Síria. Se querem exportar ao Iraque, isso é impossível, porque todas as partes do Iraque estão a combater o ISIS. Na Síria ocorre o mesmo. O Líbano está muito longe. A Jordânia, no sul, também está muito longe. Portanto, a única tábua de salvação para o ISIS é a Turquia. Esses camiões a transportar petróleo da Síria para a Turquia, e a Turquia vendendo-o barato ao resto do mundo… Não acredito que ninguém possa duvidar desta realidade indubitável.

P.- Que países estão por trás do Daesh?

R. Existem vários estados, principalmente a Arábia Saudita, porque tanto este país como esta organização praticam a decapitação, seguem a ideologia wahhabista e rejeitam qualquer pessoa que não seja como eles: não só aqueles que não são muçulmanos, mas também muçulmanos que não são como eles. Um muçulmano pode pertencer ao mesmo grupo religioso, mas se não é como eles, é rejeitado. Assim, a Arábia Saudita é o principal patrocinador deste tipo de organização. Certamente, existem também indivíduos e diferentes pessoas que compartilham a mesma ideologia ou a mesma crença, e estas pessoas enviam dinheiro de maneira privada. Mas o assunto não depende somente de quem envia o dinheiro, mas também de quem facilita a chegada dos fundos a essas organizações. Como poderiam as organizações consideradas terroristas no mundo todo, como o ISIS ou a Al Nusra, ter centenas de milhões e ter todos estes recrutas, praticamente um exército quase completo, da mesma forma que o de qualquer outro estado, e ter fontes financeiras, se não têm o apoio direto como o da Turquia em particular. Então, Arábia Saudita, Turquia e Catar são os principais responsáveis pelas atrocidades do ISIS.

P.- Ontem vimos os morteiros cair perto de Damasco. Parece que esta luta está longe de terminar. Quando acredita que a guerra acabará na Síria?

P.- Se quiser falar sobre o conflito sírio como um conflito isolado com a mesma situação atual, as mesmas tropas sírias e os aliados da Síria, e os mesmos terroristas do outro lado, poderíamos terminá-la em poucos meses. Não é muito complicado em qualquer sentido, seja militar ou político. Mas se está a falar de uma fonte de fornecimento inesgotável dos terroristas, e que tais terroristas seguem recebendo recrutas diariamente e recebendo todo tipo de apoio, seja financeiro, armamentício e de recursos humanos, tudo isso prolongará a guerra por muito tempo. Certamente, isso vai ter um preço muito alto. Mas, no final, estamos a obter avanços. Não estou a dizer que não estejamos a progredir. A situação em nível militar é muito melhor do que antes, mas, de novo, o preço é muito alto. É por isso que disse antes que se a intenção é acabar com a guerra em pouco tempo – e a maior parte do mundo está a dizer agora que quer ver o fim desta crise -, então pressionem os países que os vocês conhecem: Turquia, Arábia Saudita, Catar e, sem dúvidas, este conflito terminará em menos de um ano.

P.- Há algum tipo de coordenação militar entre o exército sírio e as incursões da coligação liderada pelos Estados Unidos?

R. Não, em absoluto, não existe nenhuma coordenação. Nenhum tipo de conexão neste setor, e refiro-me ao militar. É por isso que esta coligação está há mais de um ano a bombardear o ISIS, e ao mesmo tempo o ISIS continua a expandir-se, porque não se pode combater os terroristas pelo ar. É preciso enfrentá-los no campo de batalha, e por isso quando os russos deram início à sua participação na guerra contra o terrorismo, as conquistas dos exércitos russo e sírio em duas semanas foram muito maiores que as da aliança (dirigida pelos EUA) durante mais de um ano. De fato, na realidade eles não conseguiram nada, e podemos dizer até que estavam a apoiar o ISIS, talvez indiretamente, já queo ISIS estava a crescer e receber mais recrutas. Portanto, não podemos dizer que conseguiram algo na realidade.

P.- O que o senhor acha do papel de Obama nesta crise?

R.- Falemos da Administração americana, porque Obama, afinal de contas, é parte da Administração. Você tem grupos de pressão nos Estados Unidos e, desde o início, garantiu a estes terroristas a cobertura política. A princípio chamava-os de “manifestantes pacíficos”. Depois, quando descobriram que eram terroristas, passaram a chamá-los de “terroristas moderados”. No final, tiveram que reconhecer que era o ISIS ou a Al Nusra, mas afinal de contas não são objetivos, não se atrevem a dizer que estavam equivocados. Não se atrevem a dizer que o Catar a princípio, e depois a Arábia Saudita, os tinham enganado. Isto é em primeiro lugar. Enquanto em segundo lugar, até que os Estados Unidos não levem a sério a luta contra os terroristas, não podemos esperar que o resto do Ocidente o faça, porque são os aliados dos Estados Unidos, e até agora o papel dos americanos nesta situação não está a ser destruir o ISIS ou o extremismo ou o terrorismo, e Obama o disse. Disse que quer conter o terrorismo, e não destrui-lo. O que significa isso? Significa permitir que se movimente em certos lugares e não em outros. É como se o assunto se limitasse a definir limites do efeito nocivo do ISIS. Portanto, não acreditamos que os americanos estão a ser francos na luta contra o terrorismo.

P.- E o que acontece com o presidente francês, François Hollande? Ele falou em destruir o ISIS. Acredita que os franceses cooperarão com o seu governo?

R.- Veja o que ele fez depois dos recentes tiroteios em Paris no mês passado. Os aviões franceses começaram a atacar o ISIS com intensos bombardeamentos. Disseram que queriam lutar, e Hollande disse “vamos estar em guerra contra o terrorismo”. O que significa isso? Significa que antes dos incidentes de Paris, não estavam em guerra contra o terrorismo. Por que não fizeram o mesmo antes de tais incidentes? Isto significa que este intenso bombardeamento é só para dissipar a ira da opinião pública francesa, e não para lutar contra o terrorismo. Se você quer lutar contra o terrorismo, não espera que ocorram tiroteios para fazê-lo. A luta contra o terrorismo é um princípio, e não uma situação transitória na qual se sente furioso e por isso decide atacar os terroristas. Deve ter valores e princípios para combatê-lo, e esta luta deve ser sustentável. Portanto, esta é outra prova de que os franceses não são sérios na luta contra o terrorismo.

P.- E o que o senhor pensa sobre a UE em geral? A posição da UE neste conflito? Poderia a Europa fazer algo a mais?

R.- Certamente que sim, definitivamente. Tem a capacidade, mas não é só questão de capacidade, mas de vontade. A pergunta que sempre fizemos – não só durante a crise, mas antes, e talvez ao longo de mais de dez anos, sobretudo depois da Guerra do Iraque – é: “Ainda há política da Europa, ou é só um satélite dos Estados Unidos? Até ao momento, não vemos nenhuma posição política independente. Há certas exceções, não colocamos todos no mesmo saco, e prova disso é a relação entre Europa e Rússia, quando os EUA pressionaram a Europa para que fizesse algo contra os seus interesses, a fim de impor um embargo à Rússia. Isto não é realista, não é lógico. Portanto, certamente pode; certamente tem o mesmo interesse que nós de lutar contra o terrorismo. O que ocorreu recentemente em Paris e o que aconteceu em Madrid em 2004 e em Nova Iorque em 2001, e depois em Londres, e recentemente na Califórnia, constitui uma prova de que o interesse de todos está em combater o terrorismo, mas quem tem a vontade e quem tem a visão? Essa é a pergunta para a qual agora não tenho uma resposta. Mas neste momento não sou otimista quanto a que exista essa vontade.

P.- O que é que o presidente Putin lhe pediu em troca da ajuda militar da Rússia?

R.- Não pediu nada em troca, e isso por uma simples razão: porque isto não é uma troca comercial. Na realidade, a relação normal entre dois países é uma relação que se baseia nos interesses comuns. A pergunta é qual é o interesse comum de Síria e Rússia? A Rússia tem interesse que haja mais terrorismo na Síria? No colapso do Estado sírio? Na anarquia? Não, não têm. Então, digamos que em troca a Rússia quer que haja estabilidade na Síria, no Iraque e toda a região. Não estamos longe da Rússia, e permita-me ir muito além, dizendo que não estamos longe de Europa. Então a ação da Rússia na Síria representa um ato em defesa da Europa de forma direta, e outra vez, os eventos terroristas recentes na Europa são a prova de que o que está a acontecer aqui a afetará positiva e negativamente.

P.- O presidente Putin pediu-lhe em algum momento que renuncie a seu cargo?

R.- Em primeiro lugar, a pergunta é: que relação há quanto ao presidente permanecer no poder ou renunciar ao seu cargo durante o conflito? Essa é a primeira pergunta que se deve fazer. Isto de personalizar o problema é só uma maneira encoberta de dizer que não há nenhum problema com o terrorismo e de que não existem países que intervêm do exterior mandando dinheiro e armamento aos armados para criar o caos e propagar a anarquia. Na realidade, querem mostrar que o assunto é um presidente que quer permanecer no poder e de um povo que esta a ser assassinado porque luta pela liberdade, e que este presidente está oprimindo e matando este povo e por isso este povo se rebela”. Esta é uma imagem muito romântica que serve como uma história de amor para adolescentes. Enquanto a realidade é totalmente diferente. O assunto é se a minha saída do poder é parte da solução na Síria; parte de uma solução política. E quando digo uma solução política, isso não significa uma solução ocidental, nem externa. Deve ser uma solução totalmente síria. Quando o povo sírio não quiser que eu seja o seu presidente, então devo sair no mesmo dia, e não em outro dia. Isto, para mim, é uma questão de princípio. Se acredito que posso ajudar o meu país, especialmente numa crise, e se o povo sírio ainda me apoia, e para ser mas especifico, digo que a maioria do povo sírio me apoia, então certamente tenho que ficar. Isso é óbvio.

P.- Como hipótese, aceitaria a possibilidade de deixar a Síria no futuro e ir para um país amigo, se esta fosse a condição para conseguir um acordo.

R.- Quer dizer, se eu deixar o cargo?

P.- Deixar o cargo e sair da Síria.

R.- Não, nunca pensei em deixar a Síria sob nenhuma circunstância e em nenhuma situação. É algo que nunca pus na minha mente como “plano B”ou “plano C”, como costumam dizer os americanos. Na realidade, não. Mas, de novo, a mesma resposta: isso depende da população síria; apoiam-me ou não? Se eu tenho o seu apoio, isso significa que eu não sou o problema, porque se eu fosse o problema como pessoa, o povo sírio estaria contra mim. Onde esta a lógica em que o povo ou a maioria do povo me apoie, quando eu sou a razão do conflito? Isto é por um lado. Por outro lado, se tenho um problema com os sírios ou com a maioria dos sírios, e tenho os países da região e do mundo contra mim; assim como a maior parte do Ocidente, os Estados Unidos, os seus aliados e os países mais fortes e mais ricos do mundo contra mim, e eu estou contra o povo sírio, então como pode ser que continue a ser presidente?. Isso não é lógico. Eu continuo aqui após cinco anos – ou quase cinco anos de guerra, porque tenho o apoio da maioria dos sírios.

P.- É certo que os russos construirão outra base militar na Síria?

R.- Não, isso não é certo, e há dois dias já eles mesmos o desmentiram. Se houvesse algo, teriam-no anunciado, e nós teríamos anunciado ao mesmo tempo.

P.- Estão os iranianos planeando construir aqui a sua própria base militar?

R.- Não. Nunca pensaram nisso e nunca apresentaram ou discutiram o tema.

P.- É possível incluir o presidente Erdogan na solução para a crise?

R.- Como princípio, não temos problema com ele, se está disposto a renunciar à atitude criminosa que adota desde o começo da crise, apoiando os terroristas com todas as formas possíveis. Afinal de contas, estaremos prontos para dar as boas-vindas a qualquer ajuda ou participação positiva que venha de qualquer parte. Isto é em princípio. Mas, por acaso podemos esperar que Erdogan mude sua postura? Não, por uma única razão, e é a de que Erdogan é uma pessoa crente na ideologia da Irmandade Muçulmana, por isso não pode atuar contra a sua ideologia. Ele não é um homem pragmático que pensa nos interesses do seu país. Ele está a trabalhar contra os interesses do seu país a favor da sua ideologia, seja isso realista ou não. Portanto, não esperamos que Erdogan mude.

P.- O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, anunciou que viajará a Moscovo para se reunir com Putin. Não teme que esteja a ser preparado algum tipo de acordo entre EUA e Moscovo, como Ucrânia em troca da Síria?

R.- Não, porque se passaram quase cinco anos, e sempre ouvimos esse argumento, ou digamos essa ideia por parte dos funcionários governamentais ocidentais. Isso visa criar uma espécie de racha entre Síria e Rússia. Os russos são pragmáticos, mas ao mesmo tempo estão a adotar uma política moral baseada em valores e princípios, não apenas em interesses, e o bom da sua posição é que não há conflito ou contradição entre os seus valores e os seus interesses. Isto em primeiro lugar. Em segundo lugar, se existe algum acordo, a modo de exemplo, os russos sabem muito bem que não se pode implementar nenhuma solução, se não for baseada num acerto entre os próprios sírios e, consequentemente, nem Rússia, nem Estados Unidos e também qualquer país no mundo pode assinar um acordo neste marco. Nós, como sírios, somos os que podemos estabelecer um acordo entre sírios, e somos os que podemos realizar um diálogo entre sírios. Isso é o que os russos sabem muito bem. E é por isso que não cometem este tipo de erros, graças aos valores que têm.

P. Voltando à Turquia, como vê o derrube do avião russo? Foi um acidente ou premeditado?

R.- Desde que começou a participação militar da Rússia na Síria a respeito da luta contra as organizações terroristas, a situação no terreno mudou de forma positiva, e para Erdogan, isso frustrará as suas ambições, e se Erdogan falhar na Síria, representará o seu fim político. É como acabar o seu futuro político e as suas ambições de transformar a Turquia no epicentro da Irmandade Muçulmana na região e o sonho de nomear governos desta Irmandade, com seguidores dele no mundo todo. Ele acredita que o último bastião do seu sonho é a Síria. Se fracassar na Síria, como já fracassou no Egito e em outros lugares, vai pensar que este é o final da sua carreira. Portanto, a sua reação foi uma reação insensata, que reflete a sua forma de pensar e o seu instinto visceral em relação à participação russa. Esta é a primeira face do tema do derrube do caça russo. A segunda é que ele pensava que a Nato o ajudaria, e que levaria a Nato a entrar em conflito com a Rússia, e o resultado seria complicar ainda mais a situação no terreno na Síria, e talvez tornar realidade o seu sonho de estabelecer uma zona de exclusão aérea para onde possa enviar os terroristas para utilizá-los como uma espécie de Estado contra o Estado legítimo aqui na Síria. Essa era a sua ambição, a sua forma de pensar e o seu plano na Síria.

P.- O senhor presidente, nos Estados Unidos, é considerado responsável pela guerra civil e o auge terrorista na Síria. Os seus inimigos culpam-lhe pela morte de 250 mil pessoas desde que começou a guerra. Também o acusam de bombardear civis. Como se defende dessas acusações?

R.- Toda a guerra na Síria, desde o início do conflito, girava em torno de quem iria atrair mais sírios da sua parte. Essa foi a guerra desde o princípio. Como alguém pode matar o povo para ganhar o seu apoio? Isto é impossível. Mas ao mesmo tempo, não há uma guerra boa; todas as guerras são más. Portanto, cada vez que há guerra, existem coisas que deveriam ser evitadas, mas não se pode fazê-lo. Em toda a guerra há e haverá baixas civis e haverá vítimas inocentes. Este é um dos aspectos trágicos e perigosos de qualquer guerra. É por isso que temos que pôr fim à guerra. Mas dizer que o governo atacou civis não faz sentido, o que se ganha atacando civis? Atualmente, a realidade é que se quiser andar por aí na Síria, se surpreenderia em ver que a maioria das famílias dos grupos armados não vivem com eles, vivem sob a proteção do governo, e que recebe o apoio do governo, o que é outra prova de que não trabalhamos contra os civis nem os matamos, caso contrário não teriam buscado a ajuda do governo. Portanto, essas acusações são infundadas.

P.- Senhor presidente, queremos que envie uma mensagem aos refugiados sírios que fugiram do país, muitos deles para a Europa e inclusive para Espanha. Qual é a sua mensagem para eles?

R.- A maioria dos refugiados mantêm contato com as suas famílias na Síria, por isso ainda estamos em contato com eles. A maioria desses refugiados é partidária do governo, mas foram embora pela situação originada pelos terroristas, de ameaças diretas e massacres, assim como porque os terroristas destruíram infraestruturas, e pelo embargo imposto pelo Ocidente à Síria, onde as necessidades básicas já não são acessíveis. Portanto, realmente, eu não vejo necessidade de lhes enviar uma mensagem, porque eles voltarão quando a situação melhorar. A maioria deles gosta do seu país, ama este país. Na realidade, a mensagem que eu gostaria de enviar é destinada aos governos europeus, porque são eles que trouxeram os terroristas, são eles que provocaram esta situação, eles ajudaram os terroristas, e eles criaram um embargo que repercutiu diretamente em benefício dos terroristas e estimulou os imigrantes a abandonar a Síria e ir a outros países. Portanto, se alguém está a trabalhar pelo bem do povo sírio, como o senhor disse, a primeira coisa que tem que fazer é suspender o embargo. A segunda coisa a ser feita é acabar com o fluxo dos terroristas. Portanto, acredito que a mensagem deve ser dirigida aos governos ocidentais que ajudaram na sua saída para viver nos seus países.

P.- O senhor perdoaria os terroristas se estes largassem as armas?

R.- Certamente, isso já está a ocorrer na Síria. O que chamamos “a reconciliação” é a única solução política real que deu resultados frutíferos, e acredito numa realidade positiva em diferentes lugares na Síria. A essência da reconciliação baseia-se em que os terroristas renunciem às armas e o governo lhes conceda a amnistia ou o indulto. Certamente, na minha opinião, acredito que esta é a única maneira boa para resolver o problema.

P.- Se voltasse a março de 2011, tomaria decisões diferentes?

R.- No dia a dia, há sempre algo que alguém gostaria de ter feito melhor. Isso é natural, porque há muitos detalhes, mas se queremos falar dos pilares da nossa política, eles baseiam-se em duas coisas. Em primeiro lugar, o convite ao diálogo desde o primeiro dia. Embora a princípio achássemos que não se tratava de problemas políticos, dissemos que estávamos prontos para o diálogo político, dispostos a mudar a Constituição, a mudar muitas leis, e o fizemos, fizemos em 2012, um ano depois que começou o conflito. Ao mesmo tempo, desde o princípio dissemos que iríamos lutar contra o terrorismo e os terroristas. Não mudaria nenhuma destas duas coisas, nem adotar o diálogo e também não a luta contra o terrorismo. Qualquer outra coisa não é um pilar. Caso se refira à prática diária, certamente existem muitos erros que são cometidos na pratica, seja por mim ou pelas outras instituições e os demais responsáveis. Isso é óbvio. Atualmente não tenho nenhum exemplo na cabeça, mas talvez uma das coisas que não voltaria a fazer é confiar em vários funcionários, ocidentais, regionais ou árabes, como os turcos ou outros; ou crer que realmente queriam ajudar a Síria em algum momento. Esta é a única coisa que não voltaria a fazer.

P.- Como explica aos seus filhos o que está a acontecer na Síria? Gostaria que seguissem os seus passos?

R.- Refere-se a continuar os meus passos na política?

P.- Sim.

R.- Acredito que a política não é um trabalho que alguém faz, e não é um livro que se lê, e não é uma especialidade que se estuda na universidade. Portanto não se pode ensinar aos filhos a serem políticos; é possível ensinar-lhes como se preparar para um posto de trabalho. Na realidade, a política é tudo na vida; é a soma da economia, da sociedade e da cultura, é tudo o que se vive diariamente. Portanto, depende do caminho que os seus filhos tomam nesse sentido. Para mim, o mais importante é ajudá-los a ajudar o seu país, mas como? Que sejam políticos no futuro ou que trabalhem em qualquer outro posto de trabalho. Isto não é um tema muito importante para mim, mas não tentarei influenciar; são eles que têm que escolher o seu caminho. Tenho que lhes explicar o máximo que puder sobre a realidade do nosso país, de modo que possam entendê-la bem e decidam qual é o caminho que querem seguir.

P.- Muito obrigado, senhor presidente, pela entrevista e pelo seu tempo.

R.- Obrigado por virem à Síria.

Entrevista feita por: José Antonio Vera e José Manuel Sanz – Agência EFE

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