Tratado Elementar sobre Biblioteca Manual de Turma

JOSÉ LUÍS MENDONÇA Escritor e Jornalista (Foto: D.R.)

Carta aberta a Suas Excelências,

Senhores Ministros da Educação, Dr. MPinda Simão

e do Ensino Superior, Dr. Adão do Nascimento

Um país se faz com homens e livros”. Monteiro Lobato

1 Disse o Professor Jerónimo,  mestre brasileiro: “Livro: aberto, mestre mudo que ensina; fechado, mestre que implora; abandonado, mestre entristecido; danificado, mestre que lamenta.”

Dentro de portas, atesta a importância e a função social do mestre mudo o escritor Dario de Melo, ao considerar que os livros “têm sempre um carácter pedagógico, na medida em que questionam o leitor. Porque põem em relevo determinados problemas para levar o leitor a pensar. O livro é sempre uma situação que obriga as pessoas a questionar qualquer coisa.”

É um dado adquirido que a leitura de bons livros aumenta a cultura geral do leitor. Também é amplamente reconhecido que a literatura permite ao seu cultor um domínio maior da língua e, consequentemente, uma maior apreensão dos conceitos e uma maior capacidade lógico-dedutiva. Por isso, se deu o nome de mestres mudos aos livros. O livro dá-nos uma noção das várias dimensões em que se estrutura o viver social e a marcha da Humanidade. E a pessoa que adquire o hábito ou o vício incontornável de ler é a que mais sente a fome do conhecimento, é aquela que fica entranhada do vício saudável da leitura.

2 Mas é igualmente um dado adquirido que, em Angola, o livro viu reduzido o seu impacto cultural, educativo e recreativo, a partir de meados dos anos 80, devido à crise de leitura que afectou toda a população, principalmente a escolar, e particularmente a população infanto-juvenil. É uma crise social e comportamental com raízes na carência de livros a preços acessíveis e na baixa produção livreira, para além da fraca promoção e distribuição do livro por parte das editoras e que se enquadra na crise geral que tocou o pais, com o recrudescimento do conflito e a sua perpetuação por longos anos, e cujas sequelas ainda vivemos hoje, conjugada com o impacto da Globalização cibernética.

Contudo, dentre os diversos canais de informação e cultura que Angola possui, somos de opinião que o livro desempenha e desempenhará, por longos anos, uma função informativa e cultural insubstituível, cujos resultados vão para além dos alcançados pela crescente aposta na televisão e/ou na Internet. É que, para além de se saber que a grande maioria da juventude angolana não tem acesso doméstico às facilidades criadas pela Internet, a informação transmitida pelo livro, o chamado “mestre mudo” perdura e está sempre à mão de semear.

Investir no livro em Angola é, portanto, uma adaptação às próprias condições histórico-sociais que dominam o país. Se analisarmos o ciclo rotativo, onde se encaixam as quatro componentes, a saber, o autor, o livro, o livreiro e o leitor, veremos que este é um ciclo dinâmico. Ao promover-se a componente do leitor, ou da leitura, forçar-se-á, em certo sentido, a movimentação das outras partes, ou seja, da criação literária (autor), da produção livreira (edição) e da venda e promoção do livro (livreiros).

Desafortunadamente, em Angola, muitas crianças crescem em ambientes familiares iletrados onde não há assistência dos pais para que os filhos adquiram as capacidades básicas de leitura e escrita.

Por isso, para este grupo especifico, considerado o Futuro da Nação, Literatura e Educação constituem um binómio inseparável. Na verdade, é são a Escola e a Academia os meios mais propícios, tanto para incentivar o gosto pela leitura, como – e consequentemente – para divulgar o livros e os autores, forjando desse modo aquele ciclo dinâmico de criação, produção, leitura, que concorre para a projecção da oferta e da procura, incentivando o mercado do livro.

3 Com base nestes pressupostos, levamos à mesa de trabalho de Vossas Exas. Srs. Ministros da Educação, Dr. Pinda Simão, e do Ensino Superior, Dr. Adão do Nascimento, o conceito de BIBLIOTECA MANUAL DE TURMA (BMT), que nada mais é que uma espiral de leitura móvel e em expansão e que cada professor de Língua Portuguesa pode implementar, desde o ensino de base ao universitário. Trata-se de uma biblioteca dinâmica e não estática, num processo de circulação permanente do livro por todos os leitores, que dispensa estantes, funcionários, secretárias e qualquer outro material e equipamento de escritório próprio das bibliotecas comuns. Na BMT, o livro está sempre em circulação, de mão em mão.

A estratégia da BMT consiste em constituir bibliotecas manuais em cada turma, através do processo de circulação do livro por todos os alunos. É garantida a auto-suficiência na aquisição dos livros, através da constituição de um fundo literário próprio em cada turma, com contribuições voluntárias dos próprios alunos (ao preço médio de um refrigerante). Esta estratégia é fácil de aplicar, havendo livros disponíveis. A aquisição deve ser feita pelo delegado de turma, sob orientação e fiscalização do professor.

Para além do princípio da auto-suficiência, anunciado atrás, este projecto também é regido pelo princípio da simplicidade, segundo o qual, um só livro pode bastar, para o inicio da sua implementação. Estes dois princípios, assim como a estratégia definida, constituem as pedras basilares do projecto. Por outro lado, o princípio da simplicidade estabelece que quanto mais simples for a implementação e os recursos a investir, mais exequível se torna o projecto. O principio da simplicidade é incompatível com a excessiva burocratização do processo da leitura. A único registo que se faz é o do título do livro distribuído e o nome dos leitores, para controlo estatístico e para o próprio controlo do percurso do livro. E aí entra em função o delegado de turma, que anota estes dados nas últimas páginas do seu próprio caderno escolar.

O Estado não precisa de investir dinheiro algum, tornando-se a BMT uma componente essencial, normal e regular da didáctica do ensino da Língua Portuguesa.

Nesta fase imediata, é suficiente uma bibliografia mínima, com base nos Clássicos da Literatura Angolana a introduzir como leitura obrigatória em cada nível de formação dos professores de Língua Portuguesa, bem como para o correspondente nível do ensino escolar. Quer dizer, o professor teria de ler os mesmos livros que fossem dados a ler aos alunos de determinado nível, para poder falar com precisão dessas obras.

O que se propõe é um modelo de desenvolvimento das capacidades de aprendizagem e de comunicação social que visa, em última instância, incutir no subconsciente do leitor a imagem do livro como objecto vital, objecto fetiche, para o seu desenvolvimento cultural e espiritual. O aluno e o professor chegarão ao fim do ciclo da experiência de leitura, com a ideia firmada no seu subconsciente, de que, assim como não podem prescindir de um brinquedo ou de outro instrumento de prazer individual, também não devem prescindir de ler um livro e se sintam atraído, de modo natural, para os livros e manifestem o desejo irresistível de o adquirir. Como resultado, cria-se uma certa cumplicidade na leitura de um mesmo título ou grupo de títulos seleccionados, conduzindo os leitores a uma nova ocupação cultural, formando uma espécie de círculo, no centro do qual brilha o interesse comum da leitura e o fascínio que dela advém. Por outro lado, os leitores vêem alargar-se o seu horizonte intelectual, para além do enriquecimento vocabular no domínio da Língua Portuguesa.

4 A Biblioteca Manual de Turma vai ao encontro deste sentido de construir o novo país com homens cultos. Ela abarca o sentido histórico de inovação e humanização do progresso, e propõe a produção de sujeitos sociais que criem e recriem o espaço e a vida social. A leitura regular faz do cidadão um homem ou uma mulher de cultura verbal discursiva, interpretativa e vocabular, fonte do progresso das grandes nações. (cultura.ao)

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