Síria, 2015: Não é “guerra civil”. E os que lutam contra o governo sírio eleito não são “oposição”

(DR)

“Se o conflito sírio foi criado por interesses externos que alimentaram e armaram grupos militantes, e há décadas vem sendo usado como instrumento para executar uma determinada política externa (dentro e fora da Síria) de terceiros –, o que caracteriza exactamente uma invasão a serviço de terceiros, invasão ‘por procuração’, não, de modo algum, uma guerra civil –, como precisamente se poderia pensar em ‘acordo’ que ponha fim à invasão?!”
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As armas são estrangeiras, os combatentes são estrangeiros, a agenda é estrangeira. Mas, com as forças sírias lutando para defender o controle sobre o próprio país e para restaurar a ordem dentro de suas fronteiras nacionais, o que mais se ouve no ‘ocidente’ são referências a uma “guerra civil síria”. Claro que há sírios que se opõem ao governo sírio e também sírios que pegaram em armas contra o governo legitimamente eleito e, portanto, contra o próprio povo sírio. Mas desde o início (de fato, desde antes do início) essa guerra foi concebida e dirigida de fora para dentro.

Chamar esse tipo de confronto de “guerra civil” é erro tão grave e vicioso quando chamar de “oposição” os que se armaram para lutar contra um governo eleito. Não é “guerra civil”. E os que lutam contra o governo sírio eleito não são oposição.

Quem insiste em falar de guerra civil, e de chamar de terroristas os que combatem contra rebeldes armados contra um governo eleito legitimamente, contam com que ninguém do seu público ‘mediático’ jamais se afasta dessas mentiras ‘jornalísticas’, procura compreender melhor todo o contexto do conflito, os movimentos feitos antes de o conflito ter começado e de onde surgiram aqueles movimentos.
Quem fez começar tudo isso?

É válido querer saber quando, precisamente, tudo isso começou. A Guerra Fria assistiu a uma luta de vai-e-vem entre Leste e Oeste entre EUA & Europa (OTAN), e não apenas a União Soviética, mas também contra uma China já em ascensão. Mas a Guerra Fria propriamente dita foi simples continuação da luta geopolítica que se arrasta há séculos entre vários centros de poder pelo planeta. Os centros primários incluem há muito tempo na Europa Paris, Londres e Berlim, e Moscovo, é claro; e nos dois últimos séculos, Washington.

Nesse contexto, contudo, podemos ver que o que pode ser descrito como conflito local, pode ser parte intrínseca de luta geopolítica muito maior entre esses grandes centros de interesses especiais. O Conflito na Síria não foge de parâmetro.

A Síria manteve laços muito íntimos com a União Soviética durante toda a Guerra Fria. Esses laços levaram a que, com o colapso da União Soviética, a Síria continuou a ter laços com a Rússia. Usa armas e tácticas russas. Tem laços económicos, estratégicos e políticos com a Rússia e partilha com a Rússia interesses comuns, inclusive o interesse por fazer prosperar uma ordem mundial multipolar que enfatize o primado da soberania nacional.

Por causa disso, os centros ocidentais de poder tentam, há décadas, extrair a Síria para fora dessa órbita (como várias outras nações). Com o fim do Império Otomano, o Oriente Médio fracturado foi dominado, primeiro, pela Europa colonial, antes de se varrido por levantes nacionalistas em luta pela independência. Os interessados em manter rompidos os laços coloniais que eles mesmos acabavam de romper procuraram o apoio dos soviéticos; os que buscavam simplesmente chegar ao poder a qualquer custo, muito frequentemente procuraram o apoio do ocidente.

O conflito de 2011 de início, nada teve a ver com a Síria. A Fraternidade Muçulmana, criada e cultivada pelo Império Britânico desde o fim os otomanos, fora apoiada do final dos anos 70s até primeiros anos da década dos 1980s numa abortada tentativa para derrubar o presidente Sírio Hafez al-Assad, pai do actual presidente Bashar al-Assad da Síria.

Os militantes armados que participaram daquela tentativa de golpe seriam caçados em várias ações de segurança desde o início, e vários membros da Fraternidade Muçulmana viriam a se integrar a uma iniciativa de EUA e sauditas, que hoje se conhece como “Al-Qaeda”. Essas duas organizações, a Fraternidade Muçulmana e depois a Al-Qaeda, passariam a guerrear contra quem quer que se aspirasse a destino independente para o Oriente Médio. Começou ali, e dura até hoje.

Nada há de “civil”, na guerra na Síria

Nesse contexto, vê-se claramente que o mais recente conflito na Síria é parte dessa luta mais ampla, não alguma “guerra civil” que surgisse no vácuo, para a qual, depois de iniciados os ataques, importaram-se muito dinheiro e importantes interesses do exterior.

A Fraternidade Muçulmana e seu desdobramento, a Al Qaeda, estiveram presentes e activas desde o primeiro momento na Síria, em 2011. Ao final do ano de 2011, a franquia síria da Al-Qaeda (“Frente Al-Nusra) já executava operações de âmbito nacional, em escala que fazia sumir os chamados grupos rebeldes. E o sucesso não se devia a recursos e apoio que tivessem encontrado em território sírio, mas, sim, de fluxo descomunal de recursos e apoios que vinham de bem mais longe, além das fronteiras da Síria.

A Arábia Saudita abertamente arma, paga e provê apoio político para muitos dos grupos militantes que operam na Síria desde o início. De fato, recentemente, muitos desses grupos, incluindo aliados da própria Al-Qaeda reuniram-se em Riad para discutir com os patrocinadores sauditas o futuro de sua missão conjunta.

Ao lado da Frente Al-Nusra, há também o auto declarado ‘Estado Islâmico’ (EI). O EI, como todo o conflito sírio, foi pintado pela média ocidental enquanto foi possível como entidade gerada no vácuo, do nada. A fonte de tanta força militar e política permaneceu envolta em mistério, para a sempre tão esperta e bem informada comunidade de inteligência ‘ocidental’. A verdade só começou a vir à tona depois que a Rússia aumentou seu envolvimento no conflito. Qudno os russos começaram a bombardear comboios e comboios de camiões tanques que viviam entrando e saindo do território turco, transportando petróleo extraído em território da Síria, o mistério afinal foi decifrado. O EI, como todos os demais grupos militantes que operam na Síria, eram recipiendários de stoques generosos, infinitos, de armas, munição, equipamento, dinheiro e combatentes recrutados pelo mundo inteiro.

O conflito sírio nasceu de organizações que foram criadas há décadas, por centros de activação de interesses que nada tinham a ver com interesses dos sírios e as quais desde então vivem a guerrear, não para preservar o futuro do povo sírio, mas para conseguir que a Síria seja mais completamente diluída na ordem global que criou aquelas organizações. Depois, o conflito foi alimentado ininterruptamente por torrentes de armas, dinheiro, apoio e até combatentes arregimentados não dentro da população da Síria, mas lá mesmo, nos centros daqueles interesses estrangeiros especiais: em Riad, Ancara, Londres, Paris, Bruxelas e Washington.

A questão é: como pôr fim a uma guerra civil que não é guerra civil?

Se o conflito sírio foi criado por interesses externos que alimentaram e armaram grupos militantes, e há décadas vem sendo usado como instrumento para executar uma determinada política externa (dentro e fora da Síria) de terceiros –, o que caracteriza exactamente uma invasão a serviço de terceiros, invasão ‘por procuração’, não, de modo algum, uma guerra civil –, como poderia alguém pensar em ‘acordo’ que ponha fim à invasão?!

Com quem o governo sírio deve(ria) negociar para alcançar o tal ‘acordo’? Deve talvez negociar com os testas-de-ferro da Frente Al-Nusra e do Estado Islâmico, que claramente têm ascendência sobre os terroristas que agem em Damasco? Ou deve talvez negociar com os que foram e são factores decisivos para a perpetuação do conflito – Riad, Ancara, Londres, Paris, Bruxelas e Washington, os quais, todos esses, parecem envolvidos no apoio aos terroristas, até os mais extremistas daqueles grupos ‘militantes’?

Se Damasco negociar alguma ‘paz’ com líderes políticos naquelas capitais, estará construindo solução para uma ‘guerra civil’ inexistente, ou para guerra que aquelas potências nacionais fazem contra a Síria? No cenário mundial, já não há dúvida alguma de que aquelas capitais mundiais falam directa e completamente em nome dos terroristas e militantes. Não surpreende ninguém, portanto, que os terroristas pareçam estar buscando, na Síria, exactamente o que mais interessa àquelas capitais ocidentais.

Determinar com honestidade e clareza que tipo de conflito abateu-se sobre a Síria e contra quem os sírios estão lutando é o primeiro passo para encontrar meio de pôr fim ao conflito. Mas o ocidente insiste que se trata(ria) de uma “guerra civil”. Assim, o ocidente pode continuar a tentar influenciar o resultado final do conflito e o tipo de estado político que será a Síria depois de passada a guerra.

Cada vez que repete que o governo sírio não seria legítimo ou teria perdido a credibilidade, o ocidente fortalece a sua própria mão, na resolução de um conflito que o próprio ocidente criou.

As tentativas de declarar ilegítimo o governo do presidente Assad da Síria baseiam-se no fato de que o governo de Assad firmou-se no poder e combateu contra militantes armados que se levantaram contra ele organizados em torno de um eixo de interesses estrangeiros que, se não fossem enfrentados, estabeleceriam perigoso precedente. Não é surpresa que a Síria tenha encontrado número crescente de aliados na sua luta, porque outros países logo se deram conta de que serão os próximos a serem desconstituídos a ferro e fogo ‘ocidental’, se o “modelo sírio” for bem-sucedido.

Reconhecer e fazer reconhecer que o conflito sírio é resultado de agressão externa contra Damasco tornará muito mais fácil a discussão para pôr fim a ele. A solução será admitir que Damasco restaure a ordem dentro das próprias fronteiras, ao mesmo tempo em que se tomam medidas na ONU ou no campo de batalha contra as nações que só fazem amplificar a violência contra a Síria. [Precisamente o que a Rússia de Putin está fazendo, com notável sucesso (NTs)].

É possível que, justamente para ocultar a clareza desse encaminhamento para encerrar o conflito, os mais culpados tenham sido e continuem a ser os mais esforçados em pintar uma agressão militar não provocada contra país soberano, como se fosse ‘guerra civil’.’

Para todos que tentam sem sucesso entender essa suposta ‘guerra civil’ na Síria desde 2011, a explicação é simples: ninguém consegue entender coisa alguma – e nesse campo de sem-sentido semeiam-se e prosperam todas as mentiras –, porque não há nem nunca houve guerra civil na Síria.

Só se todos compreenderem claramente que o conflito sírio é e sempre foi, desde o início, uma invasão militar a serviço de terceiros, uma invasão ‘por procuração’, não, de modo algum, uma guerra civil, será possível ver quais são e onde estão as soluções óbvias para encaminhar a paz.****** (Oriente Midia)

por Ulson Gunnar, New Eastern Outlook, NEO

Traduzido por Vila Vudu

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