RiskMap 2016: O entusiasmo relativo ao “poder popular” em África não terá continuidade em 2016

George Nicholls, Director Executivo da Control Risks para a África Austral (Foto: Control Risks Group Holdings Ltd)

O poder popular que se verificou em 2014 e 2015, por exemplo, nas alterações do Governo no Burquina Faso e na Nigéria, irá revelar-se limitado em 2016. Uma combinação de eleições, pressões constitucionais e dificuldades financeiras irá colocar à prova governos de toda a região, incluindo no Chade, Uganda, Congo (Brazzaville), Angola e África do Sul. No entanto, os actuais governantes manter-se-ão no poder. Estão são algumas das principais mensagens do RiskMap 2016, publicado hoje pela Control Risks, uma consultora de riscos comerciais globais. O RiskMap destaca as tendências subjacentes mais significativas em matéria de risco e segurança a nível mundial e permite observar, de forma detalhada, os mercados que terão mais importância em 2016.

De acordo com o RiskMap 2016, as elites enraizadas continuam a controlar muitos mercados fronteiriços em África e poucos países detêm as condições prévias necessárias às mudanças impulsionadas pelas massas, seja através de eleições ou da mobilização das massas. Entre a fragilidade monetária generalizada e os preços baixos das matérias-primas, o panorama para 2016 parece menos promissor do que seria de esperar. Com a desaceleração económica no mercado nacional, as empresas chinesas irão continuar a procurar oportunidades internacionais para promover o seu crescimento.

George Nicholls, Director Executivo da Control Risks para a África Austral, comenta:

“As mudanças verificadas no Burquina Faso e na Nigéria reflectiram as circunstâncias únicas de cada país”. Em ambas as situações, a crescente interligação das sociedades e o acesso às comunicações (ambos temas do RiskMap 2015) contribuíram para reconfigurações políticas importantes. Contudo, estes factores isoladamente não foram suficientes para gerar mudanças. E, muito provavelmente, não irão provocar mudanças em mais nenhum ponto de África.

“Ao mesmo tempo que prevemos que governos em todo o continente consigam sobreviver às pressões sobre eles exercidas em 2016, também poderá haver uma maior volatilidade e tensão durante períodos sensíveis como eleições, e os panoramas políticos que moldam estão em evolução. Tal requer que os investidores compreendam totalmente os factores de mudança e o seu potencial para influenciar o ambiente empresarial, e estejam preparados para alterações comportamentais e estratégicas”.

Panorama africano

África Austral:

O sistema político de Angola encontra-se sob pressão devido ao agravamento das condições socioeconómicas e ao aumento da tensão relativamente ao sucessor do Presidente Eduardo José dos Santos. Tal irá, sem qualquer dúvida, influenciar a luta dentro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), o partido actualmente no poder, sobre a sucessão presidencial. No entanto, parece existir pouca capacidade e vontade das massas para desafiar a supremacia do MPLA.

No Zimbabué, é provável que a fragilidade observada no partido do poder, a União Nacional Africana do Zimbabué – Frente Patriótica (ZANU-PF), instigue cada vez mais uma forte oposição ao governo. As batalhas políticas terão consequências preocupantes para os negócios.

África do Sul: o domínio político do Congresso Nacional Africano (ANC) será duramente posto à prova nas eleições autárquicas sul-africanas, sendo que há uma grande possibilidade de o ANC perder a maioria em vários centros urbanos fundamentais. O centro de influência do partido já foi obrigado a adoptar posições extremamente populistas, à medida que tenta contrariar a ascensão dos movimentos militantes como os Combatentes da Liberdade Económica (EFF). Um bom resultado destes grupos nas eleições autárquicas terá implicações preocupantes sobre a forma como o ANC responde aos desafios económicos, em especial em matéria de política fiscal e laboral.

África Oriental:

Etiópia – principal país a observar: a Etiópia registou um crescimento de dois dígitos na última década. Existem oportunidades no setor das infra-estruturas, indústria, agricultura comercial, minas, petróleo e gás.

Uganda: prevê-se que o Presidente Yoweri Museveni ganhe as eleições gerais que terão lugar em Fevereiro de 2016, com as divisões na oposição a debilitarem a ameaça dos rivais. Há o risco de ocorrência de protestos políticos violentos e contínuos antes das eleições.

África Central:

Burundi: provavelmente, o clima político continuará muito volátil em 2016. O Presidente Pierre Nkurunziza e a sua corte estão relutantes em fazer concessões políticas e a retomar o diálogo com a oposição, apesar da pressão internacional. O país é com frequência palco de assassinatos políticos, ataques com granadas e tumultos, ao mesmo tempo que se observa uma intensificação gradual de uma revolta no norte. É provável que as tentativas para tirar Nkurunziza do poder se multipliquem.

República Democrática do Congo: prevê-se o adiamento das eleições presidenciais agendadas para 2016, uma vez que o Presidente Joseph Kabila pretende prolongar o seu mandato. Aparentemente, foram levadas a cabo várias iniciativas políticas, incluindo a descentralização, para perturbar as eleições, às quais agora Kabila já pode concorrer de acordo com a Constituição. A oposição tem denunciado as tentativas de Kabila para formar um governo de união durante um período de transição até 2018. O próximo ano será caracterizado por uma maior incerteza política, tensões e instabilidade.

África Ocidental:

Nigéria: após a vitória nas eleições de Março de 2015, o Presidente Muhammadu Buhari irá continuar a dar forma às suas orientações governamentais e políticas. Reconhecendo a premência da aplicação de reformas que irão ajudar a Nigéria a fazer face às menores receitas resultantes das vendas petrolíferas, o Presidente e o seu Executivo irão dar prioridade ao trabalho de reestruturação da empresa petrolífera nacional e a um maior controlo sobre a aplicação dos seus lucros. Na tentativa de evitar a recessão mediante a aprovação de um orçamento expansionista, é previsível que o Governo aposte em grandes investimentos em infra-estruturas essenciais. Contudo, a problemática situação fiscal irá abrandar e dificultar ainda mais as reformas.

Burquina Faso: após um período de transição marcado pela contestação em 2015, a eleição do Presidente Roch Marc Christian Kaboré numa votação pacífica antevê a possibilidade de estabilidade e crescimento económico no país. No entanto, são vários os desafios que o novo Presidente terá pela frente em 2016, incluindo a reforma de um sistema político mergulhado na corrupção há cerca de três décadas, a recuperação da confiança dos investidores no sector mineiro e a necessidade de travar a ameaça crescente das milícias islâmicas nas fronteiras a norte do Burquina Faso. (African Press Organization)

(artigo enviado à nossa redacção com pedido de publicação)

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