Reverendo afirma que escola serve para despertar consciência dos cidadãos

Francisco Domingos Sebastião - Pastor da Igreja da Assembleia de Deus Pentecostal (Foto: Francisco Miudo)

A construção e proliferação de escolas, onde se instalava a Igreja Assembleia de Deus Pentecostal, para alfabetizar os angolanos antes da independência nacional, ajudou a despertar a consciência dos cidadãos, elevando o seu sentido patriótico e libertador, afirmou o reverendo da instituição, Francisco Domingos Sebastião.

Eis a entrevista:

Angop – Senhor reverendo, que contributo deu a Igreja Assembleia Pentecostal na história do país?

Reverendo Francisco Domingos Sebastião (Rev. FDS): Bom, é verdade que partindo do princípio histórico, é sabido que quando os portugueses chegaram a Angola vieram também com a religião. Quer dizer, se numa mão estava a espada, na outra estava a cruz. A religião veio com a própria colonização.

Só que com o passar do tempo foram vindo também, isso já depois da reforma protestante do século XVI, outras igrejas evangélicas e a partir do século XVIII, XIX foram chegando outras religiões e claro, assim sendo, podemos dizer que a educação estava intrinsecamente ligada à religião. Primeiro com a Igreja Católica, por causa da concordata em que o governo português, no ultramar, tinha responsabilidade de educação para essa denominação. Depois há a outra parte em que a religião protestante entra, fixando em cada lugar onde se fazia presente uma escola, cujo foco era alfabetizar os autóctones ou nativos.

Logo, podemos dizer que a igreja participou da revolução libertadora de Angola, na medida em que mudou a consciência das pessoas em compreender o seu estado político como cidadãos.

Angop – Como surge a Igreja Assembleia de Deus Pentecostal em Angola?

Rev. FDS: Assembleia de Deus Pentecostal surge nos anos 40, com a chegada do primeiro casal de missionários de nacionalidade americana, os senhores Stark e estabelecem-se na região do Cuanza Sul, com o objectivo de desenvolver uma missão. O marido da dona Stark é acometido por uma enfermidade que, naquele tempo, era normal e morre, tendo a senhora resolvido voltar para o seu país, passando por Portugal, na Igreja Assembleia de Deus Pentecostal local, e faz um apelo no sentido de enviar um substituto do esposo a Angola para sequência do trabalho.

É então que um jovem de nome Joaquim António Cartaxo Martins, na altura com 24 anos, acabado de se casar, vem a Angola, atracando no Porto do Lobito, em finais de 1948, e um ano depois começa a reactivar o trabalho, baptizando a primeira angolana convertida que ainda vive em Benguela. Por falta de condições para a prossecução do trabalho nessa província, o missionário resolve ir para a área em que esteve o casal Stark, no Cuanza Sul, na localidade do Kirimbo Gar, onde constrói uma escola para educação de indígenas e, à medida que as crianças iam aprender, consigo viam os pais e assim nasce a Assembleia de Deus, naquele pequeno núcleo do quilómetro 70 do Posto Kirimbo.

A partir daí se desenvolve a igreja. Dessa localidade monta outra igreja em Porto Amboim, depois no Sumbe, Gabela e daí em diante.

Angop – Alguma vez a Assembleia de Deus foi convidada a participar do processo de pacificação de espíritos, no período pós-guerra entre angolanos?

Rev. FDS: Nós sempre fomos chamados a participar, quer em fóruns próprios, quer indirectamente através dos órgãos de Comunicação Social. Existem blocos inter-eclesiásticos, nos quais as igrejas fazem parte. No entanto, nós Assembleia de Deus fazemos parte da Aliança Evangélica de Angola, que são igrejas que se identificam com a mesma visão e objectivos. Depois temos o CICA, Conselho de Igrejas Cristãs de Angola, que também alberga um grande número de igrejas. Existe também a CEAST – Igreja Católica e todas as suas paróquias e surgiu um novo grupo que se chama Grupo das Igrejas Independentes, que não se revêm nos demais.

Todos esses grupos são muitas vezes chamados para conversar com o Estado, naquilo que são os projectos e para darmos o nosso contributo na pacificação de espíritos e fizemo-lo com alegria e continuamos a fazer, pós o trabalho da igreja é levar a transformação da mentalidade do homem, segundo a Bíblia, porque nós não oferecemos riquezas para as pessoas. O nosso maior contributo é mudar a mentalidade da pessoa e sabemos que uma pessoa bem equilibrada mentalmente é um cidadão saudável.

Angop – Está satisfeito com o desenvolvimento registado pela Igreja Assembleia de Deus no país?

Rev. FDS: É claro que sim… Como qualquer instituição tem altos e baixos e tem etapas. A Igreja Assembleia de Deus Pentecostal conhece pelo menos quatro etapas: a primeira é a da sua implantação em 1949 com a chegada do missionário António Cartaxo Martins, que iniciou este trabalho e que vai até mais ou menos 1956, quando o primeiro missionário implantador do trabalho volta a Portugal de férias e depois, não sendo permitido voltar, tendo o trabalho sido continuado pelo seu irmão mais novo, Manuel Cartaxo Martins, até finais de 1958/59.

A terceira etapa vai desde a saída dos missionários até 1967, altura em que chegam outros missionários. Neste período de aproximadamente oito anos, tivemos uma liderança activa dos nativos, que ainda não tinha grande traquejo, mas aguentaram a obra e ela desenvolveu-se. Por exigência do governo colonial, foi-nos imposto mandar vir missionários brancos de Portugal para liderar a igreja e começam a chegar nos finais de 1967 e o quarto período vai até 1974. O dos missionários ou da grande missionação da obra, tendo-se conseguido construir algumas igrejas no interior do país, sendo em Luanda apenas uma, igual número na Gabela e em outras paragens.

Depois entramos para o período pós-independência, com a retirada dos missionários, e nós angolanos tivemos que assumir esta obra debaixo de dificuldades, mas graças a Deus ela cresceu, desde 1975 a 1983, quando fizemos uma grande reforma, na própria dinâmica, na organização do trabalho, entrando uma nova geração de liderança que acompanha o trabalho até hoje.

Ao longo desses anos, a Igreja Assembleia de Deus implantou-se em todo o território nacional, estando assim actualmente nas 18 províncias, e em todos os municípios do país. Estou satisfeito com as conquistas alcançadas, mas elas não podem deixar uma liderança satisfeita, porque como líder eu tenho uma filosofia, segundo a qual nunca estou satisfeito com aquilo que estou a fazer, pois se disser o contrário não farei mais nada.

Ainda tenho um caminho longo a percorrer. O que fizemos até aqui não pode nos satisfazer, senão nos sentiremos acomodados. É claro que conseguimos alcançar patamares visivelmente satisfatórios, como edificar infra-estruturas que hoje dignificam a Assembleia de Deus Pentecostal como uma Igreja reconhecida no país e que tem uma palavra a dizer. Temos a nossa sede no município de Cacuaco, um edifício grande que orgulha a todos, centenas de templos espalhados pelo país, mormente nas capitais de províncias e municípios.

Estamos agora numa grande revolução para substituir as várias igrejas de construção precária, sobretudo no interior, para definitiva. Pena que o país conheceu agora uma crise económica, que de igual modo afecta também os projectos da igreja. Mas continuamos a trabalhar para o efeito.

Angop – Há uma crescente proliferação de seitas religiosas no país. Como é que encara este fenómeno e o que deve ser feito para a normalização da situação?

Rev. FDS: Olha, eu sempre disse e vou tornar a dizer que numa casa quando há desordem a culpa não pode ser dos filhos; tem que ser dos pais. Porque existem igrejas que se consideram matrizes, vamos chamá-las de igrejas-mãe. Eu não vou aqui mencionar denominações. Existe neste país igrejas que se consideram matrizes ou mães. Se essas igrejas matrizes não conseguiram treinar bem o seu pessoal e esse pessoal está a sair para abrir novas igrejas é porque há discórdia e se assim é então o nosso apelo é que essas lideranças se envolvam mais no diálogo com essa nova geração, para ver se também conseguem ceder naquilo que são as suas exigências. Por outra, existem motivos também que podem estar a influenciar isso. Há igrejas que abrem por instigação que alguém diz, sai e abra também a sua. E às vezes quem faz a tal agitação é uma pessoa que está fora, mas graças a Deus e, por causa das leis do país, esse espírito de aventura de abrir novas igrejas está um tanto ou quanto refreado.

Não somos contra a abertura de novas igrejas, desde que o objectivo seja para ganhar almas, prepará-las para o bem desta sociedade, não olhando apenas para o bolso, para as necessidades do pobre.

Angop – O que se deve fazer para continuar a preservar a paz e que conselho deixa aos jovens que frequentemente se manifestam descontentes?

Rev. FDS: O meu conselho é que se volte para a Bíblia. A Bíblia Sagrada diz: – “toda alma está sujeita as autoridades, porque as autoridades que existem foram levantadas por Deus”. Se fizermos o bem, alcançaremos misericórdia das próprias autoridades e se fizermos o mal o castigo e a correcção será o caminho. O meu conselho é que os jovens se lembrem que para alcançarmos o bem não pode ser do dia para a noite. Tudo o que se quer vai-se alcançar, mas é preciso a contribuição de todos.

Angop – Angola é um estado democrático e de direito. Que opinião tem sobre o assunto?

Rev. FDS: Bom, isso é discutível. Depende como interpreta o Estado de Direito, se é de acordo com a Lei escrita no papel ou se é na prática. Eu penso que Angola é sim um estado democrático na medida em que eu posso me exprimir. E só não é um Estado de Direito quando eu não me comportar como tal. Se eu fizer o que quiser, aí o Estado vai me dizer o que devo ou não fazer e eu vou dizer então que não existe o Estado de Direito. O Estado de Direito só o é quando o próprio cidadão também sabe reconhecê-lo. Se houver libertinagem, diremos que não é um Estado de Direito e se houver paz já diremos que o Estado é de Direito. É preciso que todo o cidadão saiba interpretar a lei e saiba também respeitá-la. A lei não é só boa quando nos diz respeito e má quando não nos diz respeito.

Angop – Que leitura faz das tentativas de manifestações e descontentamentos?

Rev. FDS: Ora, todo país sempre vai ter algum tipo de pressão, mas os angolanos sempre resistiram a pressões, quer sejam internas, quer externas, porque os angolanos deram provas do que sabem e o que querem. Fizeram-me esta pergunta há pouco tempo que a situação não está boa e como exemplo eu disse que quando as crianças brincam no quintal é porque o Estado é bom, o problema é brincarem fora do quintal. Por isso, como pais devemos saber onde é que os nossos filhos brincam. Portanto, o nosso país está bem, sem crise, apesar de que muitas forças externas gostariam que Angola entrasse em colapso. Mas nós já experimentamos isso e não queremos mais problemas e tudo faremos para que o país continue em paz.

Angop – Considera o povo angolano participativo?

Rev. FDS: Basta ver o hino do partido no poder “Com o povo heróico e generoso…”. É sim um povo heróico e generoso, é um povo participativo sim, contando pela nossa história. Se não fosse participativo, não teríamos alcançado o que alcançamos. Por outro lado, é preciso que o país reactive as profissões liberais, porque nem todo mundo tem que ser licenciado ou doutor. O país precisa de serralheiros, de carpinteiros, de pedreiros, de ferreiros, de ladrilhadores e se conseguirmos fazer isso poderemos alcançar patamares altos e não precisaremos tanto de estrangeiros.

Angop – Defende maior envolvimento das pessoas nas questões sociais, económicas e de cidadania para o desenvolvimento de Angola?

Rev. FDS: Sim. É preciso que as pessoas se envolvam mais. Como? Trabalhando, se aplicando, não guardar para depois o que se pode fazer hoje, porque essa Angola para se desenvolver vai e está a precisar do envolvimento do próprio angolano. O estrangeiro não pode ser tido como o principal no desenvolvimento do país, pois não será ele quem fará a continuação e, sobretudo, a manutenção de tudo quanto está a ser erguido.

Angop – Como é que caracteriza a justiça social em Angola?

Rev. FDS: Essas questões são muito difíceis de nós nos pronunciarmos. Eu diria que toda a sociedade tem divisão de classes. As chamadas classes sociais, os sociólogos dizem que a sociedade é como um armário de várias gavetas e o esforço de se sair da gaveta de baixo para a seguinte deve ser o próprio homem e a vontade de permanecer nela depende de cada um.

Agora eu interpreto a justiça social como aquela que os órgãos de justiça estabelecem. O próprio Governo estabelece colocar à disposição as ferramentas para que cada um consiga dar passos firmes e enquadrar-se como um cidadão de sucesso.

Angop – O que tem a dizer sobre valores morais e cívicos na sociedade?

Rev. FDS: Nós, os mais velhos, falhamos na execução do TPC (Trabalho Para Casa). Nós ainda temos algum valor, porque recebemos isso dos nossos pais. Mas não estamos a conseguir passar esses valores aos nossos filhos. Temos o hábito de dizer aos nossos filhos deixa lá, isso é normal. Eles são jovens. Então a perda dos valores morais tem a ver com a educação que os pais deram a estes jovens.

Isso é uma chamada de atenção, não só para a igreja, mas para a sociedade no geral. É preciso investir nas escolas desde pequeno. É ali onde se costuma dizer que é desde pequeno que se torce o pepino. É preciso inculcar nas mentes das crianças os princípios de boas maneiras e estamos a deixar isso por conta da televisão.

Acho triste ver que se a criança canta é porque aprendeu na televisão, se ela se expressa, aprendeu na TV, enquanto os pais não têm tempo de conversar com elas. Hoje os pais só estão interessados em ter filhos na Calemba, no Rangel, no Cazenga,.. e então essas crescem sem autoridade paternal. Logo um menor assim, depois de grande, tem desvios. Actualmente, as famílias não estão mais interessadas em transmitir os princípios cívicos morais aos filhos. É difícil encontrar um pai sentado à mesa e observar o seu filho como segura os talheres e como se alimenta. O meu apelo é que voltemos ao princípio, educar as crianças a partir de tenra idade em casa.

PERFIL

Nome: Francisco Domingos Sebastião

Idade: 61 anos

Local e data de nascimento: 11 de Maio de 1954 (mas oficialmente nos documentos nasceu em 1956), município de Viana (Luanda).

Profissão: Marceneiro, mas hoje é pastor evangélico

Formação académica: Formou-se em Sociologia e também em Teologia pela Escola Superior de Teologia de Oeste África.

Cargos exercidos: Já foi na igreja por 12 anos pastor dos pastores da província de Luanda. Foi também líder de duas igrejas locais, a de Maculusso é a terceira, por quase 30 anos, assim como é vice-representante legal da instituição.

Funções actuais: Há cinco anos é presidente do Comité de Cooperação da Aliança Evangélica de Angola, vogal da Ordem dos Pastores de Angola e conferencista internacional.

Livros escritos: Dois (As sete maneiras de agarrar o cônjuge; e Liderança Emergente no Sec. XXI).

Línguas: Português e Kimbundu. O restante é apenas para identidade ou saudação. (ANGOP)

por Assis José Quituta

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