“Novos retornados” de Angola voltam a Portugal

Chegadas no Aeroporto da Portela, Lisboa

Com o aproximar da época natalícia, cada vez são mais os portugueses que chegam ao seu país vindos de Angola. No entanto, devido à crise económica no país africano, muitos voltam para ficar.

A crise económica provocada pela queda do preço do petróleo não deixa os portugueses que trabalham em Angola indiferentes. Há cada vez mais salários em atraso que podem ir dos três aos seis meses e há também dificuldades em transferir dinheiro através dos sistemas bancários. Desta forma, muitos voltam a Portugal para celebrar a quadra natalícia, mas não demonstram intenção de voltar.

Desde agosto que se tem registado o regresso de trabalhadores afetados pela crise em Angola. Os aviões de várias companhias que todos os dias operam entre Luanda e Lisboa têm chegado superlotados de portugueses que estão a abandonar o território angolano. O setor da construção é dos mais afetados pela crise do petróleo. Muitas obras estão paradas.

O Sindicato da Construção Civil de Portugal fala no retorno de cerca de 500 trabalhadores por mês e estima que, dos 200 mil portugueses em Angola, haja cerca de 80 mil com salários em atraso. A Associação de Empresas de Construção, Obras Públicas e Serviços (AECOPS) reagiu explicando que “existe um número muito significativo de trabalhadores de todos os setores de atividade a regressar de Angola”. A AECOPS refere ainda que “o setor da construção é aquele que tem maior expressão em termos de trabalhadores deslocados. O processo tem sido sentido nos últimos seis meses e deverá continuar nos próximos tempos”.

“Novos retornados” chegam a Lisboa

O panorama é crítico também para muitos jovens licenciados que optaram por este destino em África, depois da crise portuguesa a partir de 2008. Muitos recusam falar aos jornalistas com medo de represálias.

Ao chegar a Lisboa, Anárcio Martins, docente e consultor fiscal luso-angolano há 30 anos em Angola, sempre no âmbito da cooperação entre os dois países, lembra que o país é altamente dependente do petróleo. “O petróleo tem quedas acentuadas do valor das suas vendas e Angola que é um país produtor está-se a ressentir disso, o que significa que há uma escassez de divisas. O facto de existir uma escassez de divisas torna difícil o processo da transferência daqueles que estão lá a trabalhar e que desejam colocar cá as divisas para suportar os seus compromissos e resolver os seus compromissos”. Acrescenta ainda que essa é a situação pela qual está a passar: “Eu fiz a requisição no dia 24 de novembro e ontem as divisas não me foram entregues. Ou seja, eu vim de Luanda para Lisboa sem as minhas divisas”.

Também António Mendes, contabilista há cerca de 20 anos em Angola, afirma que já não é recompensador trabalhar no país. “Já não tenho interesse em lá estar. Não há dólares, não trago nada. Ficou-me lá kwanzas. Não interessa porque, por exemplo, se eu ganhar dez mil dólares, se trouxer cinco mil, já é muito. Não compensa”, explica.

A recente decisão do Banco de Angola, que disponibilizou 56,2 milhões de euros aos bancos comerciais destinado a cobrir operações de salários dos expatriados, poderá ajudar a minimizar o problema. Por seu lado, o Governo português, por intermédio do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, tenta desdramatizar a situação. “Nós estamos a trabalhar com as autoridades angolanas de forma a que as dificuldades que mencionou possam ser ultrapassadas tão breve quanto possível”, assegura.

Fim do “El Dorado Africano”?

Numa situação diferente de António e Anárcio está Joaquina Simões, a trabalhar há dois anos em Angola como governanta. Tem toda a família em Portugal e veio apenas passar o Natal a Portugal.

À DW África confirma que há, de facto, muitos casos de portugueses a deixar Angola: “Conheço pessoas que foram com perspectivas diferentes e que estão a vir embora porque realmente as coisas não estão a correr como previam. Faltas de salários e as transferências de dinheiro são um facto. No meu caso tenho estado sempre tranquila durante este ano todo, mas tenho conhecimento de pessoas que se vieram embora definitivamente porque realmente as coisas não estão nada agradáveis”.

Poderá ser assim o fim do sonho “El Dorado Africano”. Entretanto, muitos dos que decidiram voltar para Portugal vão enfrentar um outro desafio: o da reinserção no mercado de trabalho, em busca de um novo emprego. (DW)

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