Normalização diplomática provoca novo êxodo de cubanos para os EUA

Imigrantes cubanos na fronteira entre a Costa Rica e a Nicaragua Rodrigo Arangua/AFP

Com medo de perder estatuto especial de refugiados políticos, milhares de cubanos arriscam a vida numa epopeia pela América Central para alcançar a fronteira dos Estados Unidos.

Uma nova vaga de imigrantes cubanos está a desembarcar nos Estados Unidos da América, mas as histórias dramáticas debalseros dispostos a arriscar a vida em embarcações precárias para navegar os cerca de 150 de quilómetros do estreito da Florida são coisa do passado. Agora, a fuga da ilha é uma epopeia em terra firme, que implica uma longa viagem através da América Central e do México, até às sobrelotadas fronteiras da Califórnia e do Texas.

Só este ano, mais de 43 mil cubanos entraram nos Estados Unidos, de acordo com a contagem do Pew Research Center a partir de dados oficiais do serviço alfandegário e de fronteiras: é um aumento de 78% face ao ano de 2014, quando o total de imigrantes vindos de Cuba se fixou nos 24 mil.

O “novo êxodo” de cubanos para a América (para roubar a expressão já usada pela imprensa norte-americana) assenta no medo da revogação do estatuto privilegiado de imigração garantido pelo Congresso dos Estados Unidos aos naturais de Cuba desde 1966, com a passagem do chamado Cuban Adjustment Act – que já foi emendado por duas vezes, a última das quais em 1995, sempre com o objectivo de dificultar o acesso de exilados.

É uma corrida contra o tempo: o “negócio” singra desde o início do ano, com os rumores de que a normalização das relações diplomáticas entre Washington e Havana – o “novo capítulo” aberto por Barack Obama e Raúl Castro em Dezembro de 2014 – poderá implicar a revisão (ou mesmo a extinção) da chamada política “pé seco, pé molhado” que garante automaticamente o direito ao asilo nos Estados Unidos a todos os cidadãos cubanos que desembarquem em território norte-americano.

Em vez da perigosa viagem pelas águas traiçoeiras do golfo, os imigrantes de Cuba percorrem agora um circuito alternativo, que cruza todo o México, a nova porta de entrada. Um longo desvio mas que é garantia de não serem deportados à chegada aos Estados Unidos: “pés secos” cumprem os critérios definidos na lei para a classificação de refugiados políticos, ao contrário dos “pés molhados”, isto é, os imigrantes que as autoridades interceptavam ainda no mar e por isso eram repatriados para o ponto de partida.

Esta nova via é consideravelmente mais barata do que a travessia nas balsas: em vez dos 10 mil dólares requeridos para navegar durante seis dias, o “salto” por terra até aos Estados Unidos não custa mais do 5000 dólares – que ainda assim são uma verdadeira fortuna para os trabalhadores cubanos. Apesar de ser significativamente menos perigosa, a longa viagem de mais de um mês não está isenta de riscos e provações: os imigrantes cubanos têm de transpor (por vezes ilegalmente) oito fronteiras, percorrer a pé zonas de selva densa e entrar em territórios dominados por guerrilhas e cartéis do narcotráfico.

“O medo ficou em Cuba”

A cidade fronteiriça de Tapachula, no estado mexicano de Chiapas, tornou-se o novo “el dorado” destes fugitivos docastrismo – e o local privilegiado para a observação deste novo fenómeno migratório. Pelo respectivo posto alfandegário e serviço de imigração estão a passar, a cada mês, cerca de mil cidadãos cubanos que buscam os indispensáveis vistos de passagem para a entrada nos Estados Unidos: segundo os números oficiais do Instituto Nacional de Migrações, de Janeiro até Outubro, já foram processados mais de 8000 vistos, cinco vezes mais do que no ano anterior, quando foram 1800 no total.

Alejandro Aganda, um cozinheiro de Havana de 47 anos, chegou a Tapachula com a mulher, Sandra, de 25, e a filha Julieta, de quatro anos, ao fim de 25 dias de viagem, primeiro de avião, e depois por terrenos selvagens da América Central: a pé pela selva na Colômbia, numa jangada entre as duas margens do rio Suchiate, uma na Guatemala e a outra já do lado do México. “Mas o medo ficou em Cuba”, explicou este homem, que ganhava o equivalente a 12 dólares por mês, à reportagem da Al-Jazira.

A rota de Angel Rayna Rojas, de 30 anos, foi semelhante. Este residente de Guantánamo começou a planear a ida em 2013, logo depois de o Governo de Havana aprovar uma série de medidas de abertura e liberalização da economia, entre as quais as restrições aos vistos de saída que impediam muitos cubanos de viajar para o estrangeiro. Como contou ao Miami Herald, depois de obter autorização, partiu com a mulher, Yudisleidi, e o filho Angel, de três anos, para Quito, no Equador. Era aí que começava a sua odisseia, previamente acertada com uma rede bem organizada que “facilita” a chegada à fronteira norte-americana. (Público)

por Rita Siza

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