Líder cortês ou torcionário? Kagame e a ambição do poder eterno

O sim à mudança da Constituição ganhou com 98% dos votos no referendo de dia 20 (REUTERS/Village Urugwiro)

Presidente desde 2000, é o líder de facto desde que pôs fim ao genocídio em 1994. Referendo permite continuar a sê-lo até 2034.

Para os apoiantes, Paul Kagame é um líder cortês, calmo e lúcido, com o quem os ocidentais costumam dizer que “a corrente passa”. Mas para os críticos o presidente do Ruanda não passa de um torcionário educado, de uma dureza implacável, que nos seus tempos de chefe dos serviços secretos em Kampala era conhecido como “Kagome” (ou “o Mau”, em língua ruandesa). Mas numa coisa todos concordam: deve-se a este antigo militar a pacificação do Ruanda depois do genocídio de 1994. Na Presidência desde 2000, Kagame conseguiu agora, através de um referendo, a aprovação para mudar a Constituição e disputar um terceiro mandato em 2017. E, se decidir mesmo candidatar-se, pode ficar no poder até 2034.

Na segunda-feira, um dia depois de o sim à mudança da Constituição ter sido aprovado por 98% dos ruandeses, Kagame agradeceu ao povo do seu país, mas não esclareceu se pretende candidatar-se às próximas eleições. O presidente garantiu que “quando chega o momento de transferir a responsabilidade de um alto funcionário para outro os ruandeses sabem como fazê-lo de forma apropriada”. E acrescentou: “Nenhum indivíduo é eterno, mas não há um limite aos valores, às instituições e ao progresso.”A velocidade a que o referendo foi feito, apenas um mês depois de o Senado ter aprovado a alteração da Constituição, gerou críticas por parte da União Europeia e os Estados Unidos afirmaram que Kagame serviria melhor a nação se deixasse o poder em 2017.

Nascido em 1957, na aldeia de Ruhango, Paul Kagame deixou o Ruanda com apenas 2 anos, quando a sua família – os pais tinham ligações à família real que governava o país nos tempos da colonização belga – sofreu as primeiras perseguições contra os tutsis após a independência. Instalados no Uganda, é aí que cresce num campo de refugiados e se torna um jovem alto e esguio. Com a morte do pai, no início dos anos 1970, o aluno brilhante depressa deu lugar a um jovem problemático, que não recuava diante de uma briga para defender a população ruandesa no Uganda.

Aluno da universidade de Makerere, em Kampala, aos 22 anos junta-se ao futuro presidente Yoweri Museveni num movimento de resistência à ditadura de Idi Amin Dada. Mas terão de esperar até 1986, já com Milton Obote no poder, para realizarem um golpe bem-sucedido. Com formação militar, primeiro na Tanzânia, depois nos EUA, no ano seguinte Kagame juntou-se a outros jovens ruandeses para formar a Frente Patriótica do Ruanda (FPR) e planear o regresso ao país natal. Pelo meio ainda arranjou tempo para pensar em casamento. Depois de pedir à família que lhe recomendasse uma noiva apropriada e de esta sugerir Jeannette Nyiramongi, filha de tutsis ruandeses exilados no Quénia, Kagame foi visitar a jovem a Nairobi. A relação acabou por resultar. Casados desde 1989, têm quatro filhos.

Os anos 1990 trazem os primeiros combates no Ruanda, mas o ponto de viragem chega com o assassínio do presidente Juvénal Habyarimana. As culpas começam por ser apontadas aos soldados belgas da ONU, mas acabarão mais tarde por recair sobre Kagame e a FPR. Entretanto, e enquanto o exército ruandês concentrava as forças no genocídio de mais de 800 mil tutsis e hutus moderados, Kagame acabaria por levar a sua FPR à vitória. A 19 de julho de 1994 tornava-se vice-presidente e ministro da Defesa do Ruanda. E o verdadeiro homem forte do país. Nos anos seguintes, empenha-se em reconstruir um Ruanda destruído pela guerra e em promover o regresso dos que fugiram ao genocídio. Mas nunca se esquece de se apresentar primeiro como ruandês, inscrevendo na Constituição a proibição de qualquer referência à etnia. Reeleito em 2003 e 2010, o presidente deu prioridade ao desenvolvimento económico e a verdade é que o país cresceu em média 8% entre 2004 e 2010.

Conhecido como a Prússia de África, o Ruanda com Kagame é um país onde a autodisciplina é ensinada na escola. A corrupção foi praticamente eliminada e é seguro passear à noite nas ruas de Kigali. Pelo menos é o que garante a agência de notícias ruandesa KT Press numa notícia deste ano sobre a classificação do país no sétimo lugar do índice de governação mundial do Fórum Económico Mundial. Mas grupos de defesa dos direitos humanos sublinham que se esta imagem positiva valeu a Kagame apoio externo para reconstruir o país, este é também acusado de silenciar os media e a oposição, com algumas personalidades a ser mortas, a desaparecer, ou a ser detidas – como o seu antecessor na presidência, Pasteur Bizimungu, condenado a 15 anos de prisão. Acusações que o governo nega.

Agora, Kagame prepara-se para entrar no clube dos líderes africanos que mudaram a Constituição para se manter no poder. Aconteceu nos Camarões, no Chade, no Uganda, no Congo e no Burundi. Neste, de composição étnica semelhante ao Ruanda, a decisão de Pierre Nkurunziza de convocar um referendo, que lhe permitiu vencer um terceiro mandato em maio, mergulhou o país no caos e na violência. E já levou a ONU a alertar para o perigo de um novo genocídio. Uma ameaça que pesa também sobre o vizinho. (DN)

por Helena Tecedeiro

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA