Hóspedes negros são alvo de discriminação no AirBnB, aponta estudo de Harvard

Site tem 2 milhões de anúncios em mais de 190 países (DR)

Pessoas com nomes que sugerem que elas sejam negras são alvo de discriminação no site AirBnb, indica um estudo da Universidade de Harvard, nos EUA.

No AirBnb, pessoas podem alugar quartos, casas e apartamentos. O site tem mais de 2 milhões de anúncios em mais de 190 países.

Uma pesquisa com mais de 6 mil anfitriões – os donos dos anúncios – em cinco cidades americanas concluiu que nomes que soavam ser afro-americanos tinham 16% menos chances de conseguir ter um pedido de reserva aceite em comparação com nomes associados a pessoas brancas.

Em resposta, o AirBnb reconheceu que enfrenta um “grande desafio” nesta questão e pediu a colaboração de “qualquer um que possa ajudar a reduzir a discriminação” na sua comunidade.

“Estamos em contacto com os autores do estudo e vamos manter um diálogo contínuo com eles”, afirmou a empresa em comunicado.

Modelo

O estudo realizado por três pesquisadores da escola de negócios de Harvard destacou que o modelo usado pelo AirBnb para apresentar uma série de informações para os anfitriões e hóspedes contribui para a discriminação.

A pesquisa foi feita nas cidades de Baltimore, Dallas, Los Angeles, Saint Louis e Washington D.C.. Os cientistas criaram perfis idênticos, com excepção do nome usado.

Os anfitriões receberam, então, convites enviados por esses perfis. Quando os nomes informados soavam como sendo de pessoas brancas, como Todd ou Allison, eles recebiam um retorno positivo – ou seja, conseguiam uma reserva – em 50% dos casos. Mas, para nomes afro-americanos, como Darnell ou Tamika, esta taxa foi de 42%.

Os autores explicam que a tendência é consistente com o que ocorre em outros serviços semelhantes, como sites para oferecer ou contratar tarefas, compartilhar objectos, classificados e aplicativos de táxi.

O estudo aponta que os anfitriões negros demonstraram ter a mesma probabilidade de discriminar negros do que anfitriões brancos. Não houve uma diferença significativa no comportamento de anfitriões homens e mulheres.

Pseudónimo

Os pesquisadores dizem que esta discriminação não ocorre na indústria hoteleira, já que as reservas são automáticas e sem que um funcionário saiba o nome do hóspede com antecedência – solução proposta por eles para o AirBnb.

“O site poderia ocultar o nome dos hóspedes, como já faz com os endereços de email e números de telefone para que os anfitriões e hóspedes encontrem formas de burlar seu serviço e as taxas cobradas por ele”, dizem os autores.

Exemplo de mensagem enviada pelos autores da pesquisa (BBC)
Exemplo de mensagem enviada pelos autores da pesquisa (BBC)

“A comunicação no site eBay já usa há muito tempo pseudónimos e mensagens automáticas para os primeiros contactos, então o AirBnb poderia facilmente implementar essa abordagem.”

Eles também recomendam que o site incentive mais o uso da opção de “reserva automática”, que permite ao hóspede reservar um quarto sem precisar da aprovação do anfitrião.

O AirBnb disse que a reserva automática tem se tornado mais popular, com um em cada cinco anfitriões usando a função hoje – em 2014, era um em cada 12.

Subconsciente

O site afirmou, no entanto, que não pretende fazer com que seus membros deixem de usar seus nomes verdadeiros para fazer reservas, já que considera importante incentivar uma relação de confiança entre os dois lados da transacção.

Ben Edelman, um dos autores do estudo, disse à BBC considerar esta política excessiva. “Porque querem que você revele o seu nome verdadeiro? O que isso traz de bom? O AirBnb diz que isso torna as pessoas mais responsáveis, mas como fazem isso?”, questiona.

“É importante que o site saiba seu verdadeiro nome, mas não acreditamos que um anfitrião em potencial precise saber o nome de um hóspede em potencial.”

Os cientistas concluem que, ao mesmo tempo em que a Internet pode ser uma boa ferramenta para anular diferenças raciais e de classe, as discriminações do mundo real ainda existem no digital, mesmo que de forma subconsciente.

O estudo cita outras pesquisas que mostraram diferenças subtis quando o factor racial está em jogo. Uma pesquisa feita no site de classificados Craigslist apontou que compradores tinham menos chances de se interessar por um anúncio de um iPod quando a pessoa que exibia o aparelho era negra em vez de branca.

Outro trabalho que teve como base o site de namoros OkCupid mostrou que, apesar de pessoas responderem que estavam abertas a se relacionar com uma pessoa de uma raça diferente, os contactos iniciados por elas e as respostas enviadas a quem as abordava contradiziam com frequência essa afirmação.

Edelman acredita que as redes sociais estejam revertendo os benefícios trazidos pela Internet na redução da discriminação.

“Quando você compra algo na Amazon, você não será discriminado por sua raça, como poderia acontecer em uma loja física”, afirma o cientista.

“Mas as recentes mudanças na Internet, que passou a ter mais fotos e conexões sociais, estão a piorar esta questão.” (BBC)

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