Hamlet ou Kilumba: O preço suicidário da vingança

Fim do combate entre Kahito e Kilumba (Foto: D.R.)

Abriu a cena com uma dança de salão (kizomba), na noite do dia 4 de Dezembro, em Luanda, a peça adaptada de Hamlet, a obra imortal de Shakespeare. Esta adaptação foi feita com tanta paixão pelo grupo RESGARTE, que podia ou devia receber um título concordante com a versão africana: Kilumba.

Emanuel Nkruma Paim é o genial recriador desta peça do mago britânico do teatro. E é também o seu director. Sob a sua batuta, tem um elenco de actores abalizados na Arte de Encenar a Vida, alguns facilmente reconhecíveis de actuações na TPA (Quim Fausto, o Xico Kaxico) ou Wime Martins (das Conversas no Quintal).

O guarda-roupa é original, indo da tradição quinhentista bantu ao moderno macacão que a bela e curvilínea Rainha incestuosa (Isabel Manuel) estampa, aos bubus africanos e outro vestuário ocidental. Os actores são polivalentes e ora vemos – naquele cenário imutável (cadeira real e seu entorno monárquico de escudos, lanças, sobre um fundo estrelado) – Mayomona Vicente fazer de Rei usurpador e do próprio fantasma do finado legítimo detentor do trono, ou Quim Fausto, o Mujimbo, aparecer como coveiro, segurando a caveira de “um que apodreceu antes de morrer”.

O rei, a raínha e o mediador (Foto: D.R.)
O rei, a raínha e o mediador
(Foto: D.R.)

E que dizer da excelente escolha dos temas musicais? A revisitação do hungo de Kamosso. A bateria de ngomas emaranhando-se no combate entre Kahito e Kilumba. TEMPO E LUGAR A adaptação ou angolanização de Hamlet introduz, nos diálogos, críticas veladas aos tempos de hoje: “crise económica”; “país de bêbados”; e um chinês que vende um engenho videográfico capaz de ilustrar o assassinato do pai de Kilumba (Hamlet), dois anos após a morte do mesmo.

A cena caricata mostra o engenheiro chinês a projectar as imagens do envenenamento do rei. E quando Kilumba lhe agradece, o chinês retruca: “Chefe, no obligado, dinelo!” No seu ensaio “História e Teatro: Discussões para o Tempo Presente (disponível em: www.revistafenix.pro.br), Rosangela Patriota postula “o reconhecimento da historicidade do código estético [que] permite discutir a produção artística à luz das relações sociais e, sob esse ponto de vista, como instâncias de luta política”.

O chinês e Kilumba (Foto: D.R.)
O chinês e Kilumba
(Foto: D.R.)

A autora reconhece “a historicidade do conteúdo artístico através do diá- logo que o mesmo estabelece com o momento da sua constituição. Isso porque “[…] as obras possuem um tempo e um lugar. Participam de lutas e de questionamentos inerentes ao momento de sua produção e ao seu campo de recepção e fruição”. Também é dada ao erotismo e à comédia esta bela peça, quando Kilumba se propõe “introduzir a minha Torre Eiffel no teu Triângulo das Bermudas” (da Ossala.

O PRIMEIRO CRIME À FACE DA TERRA É depois da exibição do filme que o tio usurpador (Muhongo) clama: “O meu crime sujou os céus! O primeiro crime à face da Terra (Abel e Caim). Para Kilumba “já não restam dúvidas (é) a hora da vingança.” Começa então o rol de execuções. O primeiro a morrer é o conselheiro Mujimbo, pai da namorada de Kilumba (Ossala).

Está Kilumba prestes a matar a própria mãe, quando reaparece o fantasma do pai e o impede. Ossala chora o pai morto. Depois enlouquece. Oh!, como é dolorosa e macabra esta peça! É essa primeira morte que levará Kahito, filho de Mujimbo, a desafiar Kilumba em combate singular.

Tragédia final (Foto: D.R.)
Tragédia final
(Foto: D.R.)

O conteúdo discursivo desta peça angolanizada não esquece a grande tirada filosófica do original shakespeariano: “Ser ou não ser, eis a questão”, proferida pelo príncipe Kilumba, quando já augura “encontrar a paz na ponta de um punhal.” Porque é na ponta envenenada do aço que Kilumba vai morrer, na tentativa de vingar o pai, pai este que, acorrentado à morte, lamenta, numa das aparições do além-túmulo: “Arrancaram-me da vida, da coroa e da Rainha”, e pede ao filho: “Toma o teu trono. Lembra-te de mim.

” Na ponta do punhal envenenado morrem Kahito (filho de Mujimbo) e o próprio tio usurpador, Muhongo, “o vilão sorridente, ladrão do trono”. A Rainha viúva e incestuosa morre de ingestão de veneno que Muhongo destinara a Kilumba (com o apoio e a conivência de Mujimbo, seu conselheiro). “Este é o preço da minha vingança!”, brada Kilumba. É o drama total. Todos morrem. Quem ficará com o trono? Quem, senão o medroso Sango?

Como dissera o príncipe Kilumba “há muitas coisas desconhecidas, Sango, conta a minha história ao mundo e reina tu sobre esta terra.” Ecoa, nesse momento, o canto de Agostinho Neto, “Caminho do Mato”. A peça encerra com uma batucada final e o elenco todo em palco. É o som nos bastidores do grupo Tusanguluka, a exímia companhia de dança que aqueceu o palco com o ritmo quente e eufórico da África.

Talvez o mérito do Hamlet shakespeariano resida no facto de ter idealizado uma tragédia magestática, género literário que sempre provoca a catarse do público e é um dos condimentos primordiais da arte de escrever, desde os tempos de Homero. Para nos lembrar que a vingança, seja qual for a razão fundamental, é um acto suicidário?

ELENCO Emanuel Nkruma Paim – Kilumba Quim Fasano – Mujimbo e Coveiro Onésimo Piedade – Kahito e Chinês Isabel Manuel – Rainha Mayomona Vicente – Rei e Fantasma Lizeth Joaquim – Ossala Wime Bráulio Martins – Sango Bráulio Edson Miranda – Padre e Mediador

FICHA TÉCNICA Dramaturgia, encenação e direcção: Emanuel Nkruma Paim Produção:RESGARTE Produção executiva: Bárbara Cohen Sá; Jumena Ferraz, Yara Dias Miguel Sonoplastia e iluminação: Antó- nio Cali Cenografia:Massoxi Artz Coreografia:Laritsa Salomé Guarda-roupa:Carla Cruz (cultura)

Por: José Luís Mendonça

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