Fome no Sul atrai menores à Luanda

(Picture Alliance/Tom Koen)

A fome que afecta a parte Sul do país, por conta da seca no Cunene, desde 2011, está a forçar a fuga de muitos menores para Luanda, onde são explorados por pessoas adultas.

primeiro sinal de fuga de menores da zona Sul do país havia saído recentemente da província da Huíla, de onde várias crianças estavam a abandonar as zonas rurais de algumas comunas daquela parte do país por causa das más condições sociais. Das zonas em que se constatou o fenómeno constavam os Gambos, Chibia, Quipungo e Humpata. Para o efeito, uma comissão multissectorial do Governo local estava a proceder ao levantamento das principais zonas de origem dos adolescentes para executar um plano de resposta visando travar o fenómeno. De acordo com a Voz da América, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, que integra a comissão multissectorial, mostrou-se disponível a mobilizar recursos para apoiar o plano de resposta às zonas carenciadas do país, propondo- se a travar o fenómeno da fuga de crianças para as grandes cidades.

Já, os relatos de organizações sociais dão conta que Luanda representa o grande ponto de afluência dessas crianças que fogem do Sul. Cada vez mais aqui escalam menores que a todo o custo lutam para se manterem vivos. Nesta cidade, desenvolvem diversos tipos de trabalhos. Regra geral, as meninas vêm na prostituição uma porta fácil para o dinheiro, e os rapazes ocupam-se na venda ambulante, no serviço de mototáxi e transportação de produtos diversos em carros de mão. Maria, natural do Bié, veio parar a Luanda por intermédio de uma tia que a convidou para morarem juntas. Segundo a menor de apenas 17 anos de idade e que está em Luanda há seis meses, no primeiro mês de vivência em casa da tia as coisas não iam bem. Por esse motivo preferiu fugir parar viver com um grupo de amigas na zona do Grafanil.

Conta a menina que para sobreviver tem que se prostituir defronte ao Restaurante Bela Vista, na estrada de Catete, onde diariamente atende uma média de dez clientes de diferentes idades. “É necessidade que leva a pessoa a fazer isso. Lá também, na província, a vida estava difícil, é por isso que aceitei vir com a tia. Mas ela não soube tratar-me bem. Por isso fugi parar fazer esse tipo de trabalho”. Já Adelino Miguel, que em virtude da seca que trouxe fome, a falta de água e outros males que afligem o município da Humpata, província da Huila, fez saber que emigrou para Luanda com a ajuda de um cidadão chines, encarregado de obras de uma empresa de construção civil. De acordo com o menor (16 anos de idade), a fome era demais, a família não tinha nada para comer e ele, na companhia dos irmãos, passava largas horas sem beber água.

A meio de tantas dificuldades, o menor disse não ter resistido quando foi aliciado a migrar para Luanda. Era a garantia de uma vida melhor porque a capital do país é vista por muitos como um paraíso que nem todos têm a oportunidade de escalar devido à escassez de recursos financeiros para custear o transporte. Conta o rapaz que não veio sozinho. Com ele vieram outros jovens, todos com o intuito de trabalhar na feitura de blocos de cimento. Um trabalho pesado que Adelino preferiu abandonar para se dedicar à transportação de mercadorias no mercado da estalagem. “Quando viemos à Luanda despedimos a mãe. Ela mesmo é que nos autorizou porque a fome estava demais. E o chinês prometeu- nos que o trabalho seria leve. Mas é muito pesado. Por isso é que fugimos para ser roboteiro”, afirmou. Sobre o assunto, o Instituto Nacional da Criança ainda não se pronunciou, apesar de várias tentativas feita por OPAÍS nesse sentido. Já as organizações sociais apelam ao Estado à uma maior articulação e atenção aos programas públicos de protecção às crianças.

“É uma situação preocupante”

Rosa Almeida, da repartição para os Assuntos Sociais da Administração do distrito do Kilamba Kiaxi, fez saber, em entrevista a O PAÍS, que muitos do menores que chegam a Luanda são provenientes maioritariamente das províncias da Huila, Benguela e Kwanza-Sul. Segundo a responsável, estes menores só estão a conseguir chegar a capital do país com a ajuda de pessoas “estranhas” que os aliciam com promessas de melhores condições de vida, em função das dificuldades sociais que enfrentam nas suas zonas de origem. No entanto, Rosa Almeida revelou que, só este ano, registaram-se oito casos de crianças que vieram parar à Luanda provenientes da zona Sul do país.

A maior parte delas são menores, cujas idades rondam os 12 e os 15 anos. Segundo a fonte, um dos casos mais recente foi o de uma adolescente de 15 anos de idade, proveniente da cidade do Lubango, província da Huíla, que foi abandonada há duas semanas, na zona do Kilamba Kiaxi, por uma cidadã supostamente desconhecida. A menor, segundo Rosa Almeida, veio a Luanda a convite de uma cidadã que lhe prometera emprego, mas quando chegaram à capital do país a acompanhante tentou envolvê-la no negócio da prostituição na praça do Divórcio, na zona do Avó Kumbi. “Regra geral essas crianças não falam como e com quem vêm. Parece que são instruídas a não falar. É que elas são muito fechadas. Não prestam qualquer informação de como vieram parar a Luanda. É uma situação preocupante”, afirmou. Rosa Almeida fez saber ainda que a repartição para os Assuntos Sociais da Administração do distrito do Kilamba Kiaxi pretende levar a cabo um trabalho profundo de investigação para se apurar, de facto, o que estará a acontecer. De acordo com a responsável, só não se fez isso até ao momento por falta de condições. “Por enquanto, o que temos feito é reintegrar as crianças nas suas famílias através do processo de localização familiar. A polícia local tem sido nossa parceira nesse sentido”. (OPAIS)

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