Etiópia vive crise de fome

Etíopes transportando água numa região seca do norte do país (DW)

Apesar da Etiópia reivindicar ajuda para mais de 8 milhões de vítimas da seca, organizações internacionais alertam que o pior cenário é esperado em 2016, altura em que o número de vítimas pode aumentar para 15 milhões.

Na Etiópia, onde a maioria da população, de 96 milhões de pessoas, depende da agricultura, regista-se uma grande escassez de água e alimentos por causa da falta de chuva. O porta-voz do Governo, Getachew Reda, afirmou recentemente numa conferência de imprensa que o executivo etíope comprou um milhão de toneladas de cereais e cerca de 260 milhões de euros foram gastos para lidar com a crise da seca.

Mitiku Kasa, ministro da Prevenção e Preparação de Desastres da Agricultura e da Segurança Alimentar, disse, em declarações à Deutsche Welle, que entre outros, a compra de trigo está a ocorrer de duas formas: “Após a primeira encomenda para a compra de trigo, até este momento 222 mil toneladas já chegaram ao país. Espera-se que a segunda encomenda de 405 mil toneladas chegue em janeiro. No total, o Governo vai comprar 627 toneladas de trigo”.

Para lidar com a catástrofe da seca, as organizações humanitárias internacionais estimam que a Etiópia necessite de cerca de 550 milhões de euros. Contudo, e de acordo com o ministro Mitiku Kasa, a compra de alimentos, até agora, foi feita com as poupanças do Estado. O governante etíope reiterou, por outro lado, que a ajuda humanitária internacional tem sido muito lenta devido à crise no Médio Oriente e, principalmente, os problemas na Síria.

Más previsões para 2016
Manfred Bischofberger afirma que apesar dos terrenos de pasto para o gado estarem a recuperar e a situação da segurança alimentar esteja também a melhorar em algumas das áreas atingidas pelas secas, a situação pode vir no próximo ano.

Isto porque a colheita nas zonas montanhosas, por ser significativamente reduzida, pode facilmente esgotar o stock de alimentos.

O diretor regional da organização não-governamental alemã Welthunger Hilfe diz ainda que a sua organização está a fazer uma intervenção desde o período inicial das secas e tenta recolher fundos através de doadores institucionais: “Começámos um projeto no início do ano. Agora estamos a começar o nosso terceiro projeto como resposta de emergência. Assim, tivemos só este ano quatro projetos, todos financiados por doadores institucionais e implementados pelos nossos parceiros locais”.

A seca começou a ter uma grande influência na pecuária em diversas regiões nomeadamente em Afar, Somali, Oromia, Tigraz e Amhara. Questionado sobre os impactos da seca no quotidiano da população, o diretor regional da Welthunger Hilfe afirma que nas áreas de intervenção, nomedamente em Afar, não foram registadas mortes, apenas uma perda considerável de gado.

Ajuda não é suficiente

Um pastor, que não se quis identificar, no distrito Awash-Fantale, do estado regional de Afar, diz estar a perder o gado devido à seca.

Segundo ele, “desde o último Ramadão, ou seja, desde que vimos a última gota de chuva, há 12 meses, não há nada. Não há água. Não há ervas. O gado está a morrer em grande escala. Atualmente não se regista ajuda do governo na região” e Afar finaliza: “Nós suplicamos que levem a nossa mensagem aos responsáveis”.

Apesar do Governo ter distribuído ajuda alimentar às áreas afetadas e da intervenção das agências de ajuda internacionais, uma testemunha na região de Afar afetada pela seca considera que o esforço não é suficiente.

De acordo com a testemunha, “no programa de emergência, existem algumas organizações não-governamentais que estão de facto a ajudar, mas não é suficiente. O gado está a morrer. Devido à seca, o gado está a ser alimentado com plantas utilizadas na produção do açúcar”.

A Etiópia tem agora mais de 8 milhões de pessoas vítimas de insegurança alimentar e espera-se que o número possa aumentar drasticamente já em 2016. O relatório das Nações Unidas revela também que 350 mil crianças estão subnutridas. (DW)

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