Emancipação das sauditas, um longo caminho após eleição histórica

(AFP)

A eleição de pelo menos 20 mulheres sauditas no primeiro pleito aberto às eleitoras alimenta as esperanças de uma emancipação das mulheres neste reino ultra-conservador, ainda que seja uma evolução lenta.

“É bom começar” e avançar “passo a passo”: Amal Badreldin al-Sawari resume o sentimento de várias feministas um dia depois da histórica eleição de sábado.

Para esta candidata que não foi eleita, as 20 vitoriosas abriram caminho rumo a uma maior igualdade entre os sexos para as cerca de 10 milhões de sauditas.

Os militantes não têm, contudo, expectativa de que haverá mudanças imediatas nos casos mais sensíveis. Entre eles, a proibição de dirigir – situação única no mundo – e o sistema do “tutor”, que obriga as mulheres a ter a autorização de um homem de sua família para trabalhar, viajar, ou se casar.

Embora a abolição desse sistema de tutela seja uma prioridade, “não vamos ter grandes esperanças” a curto prazo, declarou à AFP Iman Fallata, fundadora da “Baladi Initiative”, que ajudou as mulheres a se prepararem para as eleições municipais.

“Sabemos que o caminho será longo (…) mas estamos no bom caminho”, acrescentou Fallata, cuja organização recebeu nesta segunda-feira em Riad o Prêmio Chaillot 2015 concedido pela União Europeia pela promoção dos direitos humanos no Golfo.

Para Iman Fallata, o objectivo imediato da Baladi é conseguir uma representação de 50% das mulheres para as cadeiras que serão atribuídas nos conselhos municipais pelo Ministério das Relações Municipais.

Um terço dos conselheiros municipais está designado para trabalhar com os 2.106 eleitos no sábado.

Entre eles, há 20 mulheres eleitas em diferentes regiões do reino e, talvez, uma 21ª, já que “uma candidata chegou ‘ex-aequo’ (empatada) com um candidato” e “um sorteio vai decidir”, declarou o porta-voz da Comissão Eleitoral nesta segunda-feira.

‘Sucesso enorme’

Além desse número – que continua limitado -, Laila Al-Kadhem, uma cofundadora da Baladi, disse se sentir encorajada, sobretudo, pela quantidade de candidatas (979) e pelo índice de participação das eleitoras, o qual chegou a 80% em algumas regiões do país.

“Acho que é um sucesso enorme”, declarou.

Há 15 anos, ninguém “poderia imaginar que essas mulheres participariam, um dia, de eleições”, comentou outro homenageado com o Prêmio Chaillot, Jafar al-Shayeb, referindo-se à influência crescente das militantes feministas no reino.

Foi o falecido rei Abdallah que iniciou as primeiras reformas a favor das mulheres.

Nesta segunda-feira, o editorialista Abdulateef al-Mulhim escreveu no “Arab News” que essas eleições são apenas um ponto de partida para um papel maior das mulheres na sociedade sob o reino de Salman, que sucedeu a Abdallah em Janeiro.

“Essa eleição nos lembrou do dia, em que o primeiro grupo de mulheres conseguiu entrar no sistema educacional. Com o tempo, o percentual de mulheres na universidades é igual, talvez até passe, o dos homens”, acrescentou.

A blogueira e militante feminista Eman al-Nafjan considerou “fantásticos” os resultados da eleição, mas disse que é preciso dissociá-los da campanha pelo direito de dirigir e pelo fim do sistema do “tutor”.

“É preciso aproveitar, porém, qualquer ocasião, em que as mulheres ganhem um pouco de liberdade”, insistiu.

Nessa mesma linha, os Estados Unidos, tradicionais aliados da Arábia Saudita, classificaram as eleições de “etapa histórica”.

“A participação das mulheres representa um marco importante na Arábia Saudita na direcção de um processo eleitoral de inclusão, que permitirá a todos os cidadãos serem representados em um governo que represente o conjunto dos sauditas”, elogiou o porta-voz do Departamento de Estado americano, John Kirby. (AFP)

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