Deputada do Podemos torna-se a primeira mulher negra a ser eleita para o parlamento espanhol

Rita Bosaho, da Guiné Equatorial, foi eleita deputada em Espanha. Foto: D.R

Em Portugal já há um deputado negro desde 2002. E as legislativas de outubro trouxeram representantes de outras minorias para o Parlamento. Em Espanha, só agora esse caminho começa a ser feito.

“Já estava na altura, não!?” Rita Bosaho nasceu dez anos antes da morte de Franco, na Guiné Equatorial. Quarenta anos depois da morte do ditador, conseguiu um feito até agora inédito na história política de Espanha: tornou-se a primeira mulher negra a ser eleita para o Congresso dos Deputados. “Já estava na altura, não?”, riu-se durante a campanha, numa entrevista ao El País. Já depois das eleições, nas múltiplas entrevistas que tem dado, sublinhou sempre uma mesma ideia: isto “não devia ser notícia” e é uma coisa que “chega demasiado tarde”. Em Portugal, há um deputado negro desde 2002 (Hélder Amaral, do CDS) e, este ano, chegaram ao Parlamento um deputado em cadeira de rodas e uma invisual.

Rita Bosaho foi a cabeça de lista de uma coligação liderada pelo Podemos em Alicante, na região de Valência. Ela e mais duas pessoas dessa candidatura vão sentar-se no parlamento espanhol a partir de janeiro, altura em que começam os trabalhos. Para Rita, apesar do simbolismo do momento, vai ser tão normal como para qualquer outro deputado. Enfermeira, atualmente com 50 anos, chegou a Espanha na década de 1970 e vive há 20 anos em Alicante, onde trabalhou em organizações que desenvolvem “projetos de integração para mulheres imigrantes e ciganas”. É e sente-se tão espanhola como os espanhóis que nasceram na Península Ibérica.

Muitas coisas têm de mudar se ainda chama a atenção que uma pessoa de raça negra, hispanoguineense, porque culturalmente sou espanhola, seja deputada. É um exemplo de que é preciso que a sociedade avance”, disse ao El Diario.

Em Espanha, 15% da população tem origem imigrante e dois milhões de pessoas nascidas no estrangeiro têm cidadania e direito a votar. Isso não se traduz no parlamento, onde apenas 1% dos deputados representam as populações imigrantes. Que o primeiro eleito negro seja, ao mesmo tempo, uma mulher, é algo que Rita Bosaho não considera irrelevante. “Há que promover políticas de igualdade, tanto para as minorias como para as mulheres”, disse ao site 20 minutos. A cultura patriarcal, em que o homem assume um papel mais relevante na sociedade, “origina preconceitos, racismo e paternalismo”, acrescentou.

Na Guiné Equatorial onde nasceu Rita, então uma colónia espanhola (só deixaria de o ser três anos depois), o tio foi presidente da assembleia eusou a política para lutar pelos direitos do povo. Apoiante declarado de Franco, Enrique Gori Molubela acabou por ser determinante na independência da Guiné Equatorial, mas não pôde gozar o feito durante muito tempo. Acusado juntamente com outras individualidades de tentar matar o primeiro ditador daquele país, Francisco Macías Nguema, foi brutalmente assassinado na prisão. O segundo ditador, que ainda está no cargo, Teodoro Obiang, obrigou Rita e a família a fugir.

Gostava que, de uma vez por todas, o governo espanhol tivesse umas conversas com o governo da Guiné Equatorial sobre direitos humanos e liberdade, porque neste momento [as pessoas] não têm nenhum dos dois naquele país. Desde que a Guiné se tornou independente de Espanha, não houve um só dia de liberdade. Tem de se pensar que relações se estabelecem com governos ditatoriais”, disse Rita também ao El Diario.

Agora, no parlamento espanhol, a primeira deputada negra promete usar o mandato que os eleitores de Alicante lhe deram para defender os imigrantes, lutar contra a xenofobia e as desigualdades, sejam quais forem. “Tenho uma grande preocupação pelos direitos humanos”, afirmou, acrescentando que uma das prioridades do seu trabalho passa por fazer da violência de género “uma questão de Estado”. Por outro lado, Rita Bosaho quer trabalhar pela “blindagem” dos direitos sociais. Ou seja, que estes nunca sejam postos em causa. (OBSERVADOR)

por João Pedro Pincha

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