Da batalha do Tumpo à paz de Nova Iorque

(Foto: Arquivo|Edições Novembro)

Dezembro de 1988 foi o mês de todas as decisões na África Austral. A 22 de Dezembro, em Nova Iorque, os governos de Angola, Cuba e África do Sul assinaram o Acordo de Nova Iorque de aplicação da resolução 435 do Conselho de Segurança sobre a independência da Namíbia.

 No mesmo acto, Angola e Cuba assinaram o Acordo Bilateral de retirada das tropas cubanas de Angola. Mas antes da assinatura dos acordos assistiram-se às últimas actividades diplomáticas, com a assinatura do Protocolo de Brazzaville, a 13 de Dezembro, e as tentativas de Pretória para salvar a face.
As independências de Moçambique e Angola, em 1975, após 14 anos de luta armada, colocam os regimes segregacionistas da Rodésia (Zimbabwe) e da África do Sul em isolamento na região.
Além de manter o sistema desumano no interior do país, a África do Sul ocupa ilegalmente o Sudoeste Africano (Namíbia).
A ascensão dos povos africanos à liberdade e a agitação com os portugueses em Angola, antes da independência, assusta a minoria branca sul-africana.
A resposta do regime de apartheid é a desestabilização militar de Angola e dos Estados vizinhos, seguindo a máxima de que “a melhor defesa é o ataque”.
Por altura da independência, Angola é vítima de uma invasão zairense a Norte e sul-africana a Sul, operações de infiltração dos serviços secretos e a intervenção de mercenários.
O governo de Angola, então liderado por Agostinho Neto, pede ajuda militar a Cuba, que lança  a “Operação Carlota”.
Mas Pretória não desarma. A partir de 1981, as Forças de Defesa Sul-Africanas (SADF) penetram e ocupam parcelas do território angolano no Cunene.
No Cuando Cubango, em colaboração com a CIA, a República Sul-Africana instala a base da Jamba, abandonada pelas FAPLA por razões logísticas.
A base viria a ser entregue à UNITA de Jonas Savimbi, de modo a servir a estratégia da RSA, em duas vertentes, distribuídas por alvos geográficos e económicos.
Em Agosto de 1987, o Governo angolano liderado por José Eduardo dos Santos decide passar à contra-ofensiva.
Durante um ano, até Agosto de 1988, assiste-se à volta do Cuito Cuanavale à maior batalha militar já registada na África Subsariana, envolvendo infantaria, artilharia pesada de longo alcance, caças bombardeiros, defesa anti-aérea e importantes meios logísticos.
Os combates, conhecidos como a  Batalha do Cuito Cuanavale, terminam apenas quando as forças militares da África do Sul e da UNITA de Savimbi são travadas.
O nervo da batalha é decidido no Triângulo do Tumpo, onde o regime de Pretória apostou tudo e perdeu tudo.
No Tumpo e no Sudeste de Angola apenas combateram militares angolanos. Por essa razão, a derrota sul-africana foi considerada vergonhosa pelos sul-africanos e houve quem quisesse esconder esse pormenor importante.
A partir daí, o regime de Pretória verga-se à realidade, viu-se obrigado a ficar à defesa e a negociar com Angola o fim do conflito.

Investigação histórica

Desde Setembro de 2014 o Jornal de Angola tem vindo a fazer o relato dessa epopeia angolana que foi a resistência à máquina de guerra sul-africana no Sudeste e Sudoeste do país.
Este jornal confrontou fontes bibliográficas de autores sul-africanos, norte-americanos e cubanos e ouviu muitos oficiais e combatentes angolanos que estiveram presentes nas operações militares e nas negociações de paz. Os repórteres do jornal foram ao Tumpo recolher elementos, de modo a reconstituírem o que se passou realmente no Triângulo do Tumpo.

O valor do Tumpo


“O Triângulo do Tumpo”
, diz-nos um alto oficial general das FAA que teve participação importante na batalha, “foi uma concepção táctico-operativa da autoria do Alto Comando sul-africano para atingir o objectivo da guerra contra Angola. O Triângulo do Tumpo foi um teatro operacional escolhido pela direcção político-militar sul-africana para destruir a maior concentração das unidades das FAPLA desdobradas entre os rios Cuito, Cuanavale, Dala, Cuatir e Tumpo”.
“O Triângulo do Tumpo forma-se tacticamente no planalto do Chambinga, como uma verdadeira caixa de encurralamento das brigadas das FAPLA, já que estavam ali criadas as condições ideais para o aniquilamento das mesmas. Elas instalaram-se depois do desaire da 47.ª Brigada no Lomba, que se traduziu na exploração do êxito pela força combativa das SADF e das FALA”, refere o general angolano, que se dedica ao estudo das batalhas militares angolanas da independência.
“O valor militar do Triângulo do Tumpo”, reforça o nosso interlocutor, “foi confirmado até pelo general sul-africano Janie Geldenhuys, pelos seus comandantes operacionais e pelo alto comandante sul-africano Pieter Botha que se deslocou de Pretória ao Lomba, violando o espaço nacional numa distância de 1.400 quilómetros, para avaliar o resultado da sua contra-ofensiva. Pieter Botha, convencido do êxito, decidiu introduzir os tanques Oliphant, que, no seu entender, iriam esmagar os T-55 das FAPLA, de origem soviética.”
“O Triângulo do Tumpo não é, pois, uma invenção forjada ocasionalmente pelos organizadores da Conferência Comemorativa do XXVI Aniversário da Batalha do Cuito Cuanavale, realizada a 23 de Março de 2014 no local e difundida pelos órgãos de informação nacionais e internacionais”, remata o oficial angolano. “É uma realidade tratada por militares sul-africanos intervenientes na batalha, escritores e correspondentes de guerra que escreveram sobre a guerra desencadeada pela África do Sul contra Angola”, sublinha o general, aconselhando a consulta da pesquisa do analista sul-africano em assuntos de defesa, Helmoed-Römer Heitman, que publicou o livro “War In Angola, The Final South African Phase”, e chamando a atenção especial para os capítulos “Tumpo Last Fapla’s Bastion” e “The Tumpo Defense’s”.
“O Triângulo do Tumpo, por ter sido o teatro da maior batalha travada a sul do Sahara, deve ser criteriosamente estudado para o enriquecimento da arte militar moderna. São de reconhecer ali os elementos da táctica operativa, como a ofensiva, a defensiva, o flanqueamento dos movimentos, o contra-golpe numa acção combinada entre as tropas terrestres, os golpes da aviação, a superação de obstáculos de qualquer tipo e ainda a realização de operações especiais anfíbias, como foi a ‘Operação Coolidge’ lançada contra a ponte sobre o rio Cuito para impedir a ligação entre as nossas tropas e o abastecimento às mesmas. Realizaram-se ali também operações de propaganda e de contra-propaganda, de desinformação, de empastelamento das comunicações e de provimento de informações via satélite pelo Pentágono às tropas sul-africanas, numa combinação cúmplice para a destruição das brigadas das FAPLA
”, sublinha.

Plano macabro

O plano da África do Sul era macabro. De acordo com a operação táctico-operativa preparada para o Triângulo do Tumpo, “o objectivo da guerra seria alcançado com a destruição das melhores brigadas das FAPLA, com a tomada do Cuito Cuanavale. Seguir-se-ia, por arrastamento, a tomada das províncias do Cuando Cubango, do Cunene, da Huila e do Namibe, numa primeira fase”, precisa o oficial general angolano, revelando pormenores nunca divulgados: “Noutra fase, seriam implantados colonatos sul-africanos, como a reedificação dos antigos colonatos bóeres, isso na linha da decisão saída da reunião ultra-secreta de Rocky Point, na qual Savimbi foi o único indivíduo negro convidado. A ocupação do Sul seria a balcanização do território nacional, de previsíveis consequências como a proclamação de um Estado para Savimbi e o impedimento da implementação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança das Nações Unidas”.
“Na verdade”, prossegue o nosso interlocutor, “a defesa empreendida pelas FAPLA, considerada ‘brilhante’ até pelos comandantes operacionais sul-africanos, foi a chave da derrota das melhores unidades combativas das SADF, entre as quais o Regimento Stein, de subordinação directa ao Alto Comando da RSA. As nossas forças estavam motivadas para defender a Pátria e a nossa determinação era inabalável. Se do outro lado o alto comandante Pieter Botha determinava a impetuosidade de golpes aniquiladores, deste lado o alto comandante José Eduardo dos Santos, general de Exército, determinava a defesa heróica deste território designado Triângulo do Tumpo, que em Março de 1988 ficou completamente inundado e transformado numa área pantanosa, mas também inundado com minas e com fortificações de engenharia construídas antes pelas FAPLA”.
A derrota das SADF no Triângulo do Tumpo foi determinante para forçar a África do Sul a aceitar de vez sair de Angola e entregar a Namíbia ao seu povo.
A vitória das forças armadas angolanas acelerou a viagem que Javier Perez de Cuellar, então secretário-geral das Nações Unidas, fez a Angola, para tratar com o Presidente José Eduardo dos Santos a questão da aplicação da Resolução 435/78, três meses antes da assinatura dos Acordos de Nova Iorque.
A derrota das SADF e dos batalhões das FALA a 23 de Março de 1988 foi de facto “a chave do percurso” que levou à assinatura dos Acordos de Nova Iorque, a 22 de Dezembro de 1988.
Com efeito, com a derrota sul-africana no Triângulo do Tumpo, “foram removidos os ‘factores externos’ da guerra contra Angola, que foi considerada a direcção do golpe principal na ‘estratégia de guerra total’ e de desestabilização da região austral de África levada a cabo pelo apartheid. Savimbi e a UNITA fizeram parte destes ‘factores externos’, ao complementarem o exército racista sul-africano. Savimbi e a UNITA bateram-se para integrarem o quadro negocial das quadripartidas, o que não foi aceite por se terem aliado ao apartheid e porque Angola tinha um Governo soberano reconhecido internacionalmente”, comenta o oficial superior das FAA a este jornal.

Actividade diplomática final

Até ao último instante da assinatura dos acordos em Nova Iorque, a 22 de Dezembro de 1988, foi necessário batalhar. Na própria madrugada do acto de assinatura, ainda decorriam acertos diplomáticos.
Segundo Chester Crocker no seu livro “High Noon in Southern Africa – Making Peace in a Rough Neighborhood” (Momento Crucial na África Austral – Fazer a Paz num Bairro Violento), o plano proposto ao Conselho de Segurança da ONU por Javier Perez de Cuellar a 17 de Dezembro e aprovado a 20 (dois dias antes do dia da assinatura), foi essencialmente preparado em Brazzaville.
A África do Sul ainda interpelou o aliado de Washington – já que não o podia fazer nas Nações Unidas – se era mesmo verdade que os acordos iriam ser aplicados e se Cuba cumpriria “todos os compromissos” e recebeu a garantia do “grande interesse” norte-americano que isso se realizasse.
Finalmente o Protocolo de Brazzaville foi assinado a 13 de Dezembro e todos se puseram de acordo sobre as datas para a cerimónia de Nova Iorque, onde o Acordo Tripartido angolano-sul-africano-cubano e o Acordo Bilateral angolano-cubano seriam assinados. Inicialmente, refere Chester Crocker,foi também proposta a data de 27 de Dezembro, mas ficou tudo para 22 de Dezembro.
Para o arranque da aplicação dos acordos foi acordada a data de 1 de Abril de 1989, após “um turbilhão de telegramas para resolver esta situação”.  O Protocolo de Brazzaville foi assinado em três línguas, na presença do Presidente Denis Sassou Nguesso, dos membros do Governo e da Assembleia Nacional da República do Congo e do corpo diplomático acreditado na capital congolesa.
No seu livro, Chester Crocker lembra a “árdua tarefa da tradução simultânea” para o francês dos discursos proferidos em inglês, espanhol, português e russo e recorda que depois da sua intervenção falaram os representantes tripartidos, começando pelos dirigentes angolanos e cubanos, que apresentaram observações destinadas à opinião pública dos seus países e para os historiadores.
Mas quando chegou a vez do ministro sul-africano, diz Crocker, “Pik Botha proferiu um discurso incoerente e agitado como um brinde pronunciado depois da sobremesa sobre os interesses comuns dos ‘irmãos africanos’ que enfrentam a exploração por parte dos ‘países industrializados que estabelecem preços baixos para as nossas matérias-primas e preços elevados para os seus carros e frigoríficos’. Para concluir”, escreve o autor, ele lembrou-nos que ‘se atingirmos a listra branca de uma zebra, a listra preta também morre’. Tudo à boa maneira do regime racista.
“Anatoliy Adamishin (então vice-ministro soviético), que anteriormente nunca tinha visto algo parecido, observava Botha de boca aberta. Em seguida, decidiu agarrar o microfone para proferir algumas palavras sobre o novo pensamento político. Depois, Martti Ahtisaari (ONU) levantou-se para discursar. Ninguém na sala esperou mais tempo do que ele por esta ocasião. Ninguém no mundo era mais qualificado do que ele para tomar a palavra nessa altura, como Representante da ONU na Namíbia. Ahtisaari foi misericordiosamente breve e com uma visão cordialmente futurista”.
“No final da cerimónia de 90 minutos, entreguei uma cópia encadernada do Protocolo de Brazzaville a (o Presidente) Sassou, o nosso paciente anfitrião e mediador”, diz aquele que foi o mediador de todo o processo negocial em nome dos Estados Unidos.
Chester Crocker recorda ainda que o tratado bilateral angolano-cubano tinha um calendário que ficou para “o último braço-de-ferro”, resolvido apenas na noite de 21 para 22 Dezembro, após Cuba tentar ainda assustar os sul-africanos ao introduzir algumas “cláusulas inaceitáveis”, mas as barreiras foram ultrapassadas e  algumas delegações só foram dormir “por volta das quatro horas da manhã” do próprio dia da cerimónia.
Por essa razão, o acto de assinatura começou seis horas mais tarde.

Homens de carácter

A cerimónia de assinatura foi co-presidida por Javier Perez de Cuellar, secretário-geral da ONU, e George Shultz, secretário de Estado norte-americano.
Depois do acordo tripartido ter sido assinado, George Shultz tomou a palavra e qualificou o acto de “um ponto de viragem importante na história da África Austral” e de um momento que “abre as perspectivas para uma solução pacífica” dos problemas internos de cada um dos signatários.
É interessante ver a forma como, no livro, Chester Crocker descreve o desenrolar do que se seguiu na cerimónia. No seu discurso, o ministro das Relações Exteriores de Angola, Afonso Van-Dúnem “Mbinda”, questionou a boa-fé dos EUA e exigiu o fim da “interferência estrangeira” nos assuntos de Angola. Em seguida, o chefe da diplomacia de Cuba, Isidoro Malmierca, aproveitou para retaliar contra a retórica anti-Castro feita por Ronald Reagan e criticar os sul-africanos em matéria de direitos humanos. A seguir, “Pik” Botha, ministro dos Negócios Estrangeiros da RSA, surge desconcertante e diz que o acordo reflecte o princípio de “soluções africanas para os problemas africanos”.
O ponto alto, segundo Crocker, dá-se quando “Pik” Botha diz que se predispõe a dar a Isidoro Malmierca uma lista dos líderes africanos que desejavam que Cuba abandonasse África e desafia Malmierca para um debate sobre os direitos humanos que pode “continuar noite dentro”. Malmierca exige o direito de resposta.
Mas Shultz interrompeu-o e deu a palavra a Adamishin, que louva o “novo pensamento político” da União Soviética.
O secretário-geral da ONU Perez De Cuellar convidou então Mbinda e Malmierca a assinarem o acordo bilateral.
Depois da assinatura de todos os documentos, à medida que todos saíam da sala, George Shultz dirigiu-se a Crocker nos seguintes termos: “Este grupo com quem temos estado a trabalhar é um punhado de homens de carácter forte!”.

O papel do Presidente

Ao longo de todo o esforço de defesa da soberania de Angola face à acção de desestabilização da África do Sul, um homem, o Presidente José Eduardo dos Santos, teve um papel importante que é reconhecido no mundo diplomático.
“O Presidente recebeu a delegação angolana vinda de Nova Iorque com os acordos assinados, que lhe foram entregues pelo chefe da mesma, o saudoso camarada Mbinda”, recorda o oficial general angolano que integrou a equipa negocial angolana.
Nesse gesto presidencial e no que José Eduardo dos Santos disse aos dirigentes presentes, “revela-se o estratega da acção política, diplomática e militar do Governo angolano, ao lado de outros parceiros negociais que contribuíram para a implementação da Resolução 435/78 para a independência da Namíbia, para a libertação de Nelson Mandela e para a destruição do apartheid”.
Nesse discurso marcante de 25 de Dezembro de 1988, a alta patente militar angolana recorda, sobretudo, “uma das frases lapidares, como fecho do longo processo negocial, que se referiu ‘aos 60 dias em que as FAPLA estiveram cercadas pelas tropas sul-africanas, tendo-as derrotado sozinhas’, na maior batalha travada a sul do Sahara, palavras que se encontram gravadas num dos placares colocados na cabeceira da parada do Triângulo do Tumpo, sob sua observação como Comandante-Em-Chefe das FAPLA, contemplando o campo de batalha em que as tropas sul-africanas foram inapelavelmente derrotadas”.
De acordo com o oficial general, o Comandante-Em-Chefe das FAPLA “estabeleceu, com essas palavras, a diferença entre as duas frentes: a Frente Sudeste, a Leste do Cuito, no Triângulo do Tumpo, onde as FAPLA combateram sozinhas as SADF e os batalhões das FALA de Julho de 1987 a Março de 1988, e a Frente Sudoeste, a Oeste do Cuito, na direcção Xangongo, Tchipa, Calueque, Ruacaná, numa coligação das FAPLA, FAR e PLAN de 24 a 27 de Junho de 1988. Não há dúvida alguma sobre isto. São factos históricos inegáveis”. (Jornaldeangola)

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