Crianças voltam às ruas de Luanda depois da festa da independência

Duas crianças retiradas das ruas de Luanda antes das comemorações da independência e que regressaram às ruas, um mês depois (DW)

Recolhidas antes das comemorações dos 40 anos da independência de Angola, crianças voltam às ruas da capital e relatam maus tratos. Polícia diz que vai investigar.

Dezenas de crianças foram retiradas das ruas da capital de Angola antes das comemorações dos 40 anos da independência do país, assinalados a 11 de Novembro. Na altura, de acordo com a agência de notícias AFP, as autoridades terão tentado “dissimular a miséria em Luanda, recolhendo as crianças de rua e colocando-as em orfanatos sobrelotados.”

O objetivo, segundo a imprensa, seria não manchar a imagem do país, tendo em conta a presença de vários chefes de Estado e de Governo nas comemorações da independência.

Das ruas para os lares

Milhares de crianças vivem nas ruas de Luanda, de acordo com estimativas de organizações não-governamentais.

Uma delas é Quinta António, de 17 anos. À DW África, conta que foi levado, há um mês, para a zona de Kalumbo, nos arredores do município de Viana, “por causa da festa”. “Nem todos foram levados, mas eu fui levado para o Kalumbo, no caminho para Viana, ao lado de uma igreja”, conta. “A polícia levou-nos e depois mandou-nos lavar carros e pratos.”

Outra criança, Bruno, relata que o levaram para o Lar Kuzola. Antes, terá sido espancado por supostos agentes da Polícia Nacional.

“Bateram-nos, surraram-nos. Olha o que ele me fez”, diz, enquanto tira a camisa e mostra as cicatrizes do alegado espancamento. “Não estás a ver o que ele me fez? Deram-nos muita surra e rasgaram-nos as camisas. Depois, levaram-nos para o Lar Kuzola”, conta Bruno.

Contactada pela DW África, a polícia diz não ter conhecimento desta situação, mas afirma que vai investigar. A DW África tentou também contactar os responsáveis do Lar Kuzola, sem sucesso.

Violência também nas ruas

Júnior Adriano, de 13 anos, diz que foi levado para um conhecido orfanato da capital angolana, o Centro de Acolhimento Arnaldo Janssen, também conhecido como Centro do Padre Horácio. “Alguns ficaram lá”, afirma. O Centro de Acolhimento também não respondeu às tentativas de contacto da DW África.

Júnior Adriano voltou às ruas. “Aqui, os adultos batem-nos”, conta. Abandonou a família e vive no coração da capital angolana porque fez “coisas erradas em casa e na escola”. “Andei a tirar livros da professora e dos colegas. Fiz uma coisa errada na casa do meu padrasto. Na minha tia tirei 7 mil kwanzas, noutra tia tirei 500 kwanzas”, conta Júnior Adriano.

Domingos Adão é uma das novas crianças de rua em Luanda. O jovem de 14 anos diz que saiu de casa depois de a sua madrasta o acusar de feitiçaria. Na rua, Domingos já fez amizade com outras crianças. Todos os dias, uma mulher dá-lhes comida. “Na minha casa, a minha madrasta acusou-me de ser feiticeiro. Temos uma madrinha. Hoje trouxe-nos maçã, pão e água.” (DW)

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