Carmo Neto anuncia projecto imobiliário da União dos Escritores Angolanos

Carmo Neto, secretário geral da UEA. (Foto: D.R.)

O secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, Carmo Neto, cedeu-nos esta entrevista onde adianta projectos já amadurecidos e outros por erguer, e que são de interesse nacional, como é o caso do projecto de uma UEA mais digna e cabal, certamente a grande obra da mais antiga casa de Cultura do pós-independência, proclamada pelo saudoso presidente Agostinho Neto no dia 10 de Dezembro de 1975.

Jornal CULTURA – Que projectos e desafios a sua direcção herda das direcções que lhe antecederam?

Carmo Neto – Quando a 10 de Dezembro de 1975, os escritores angolanos decidiram cimentar, em Luanda, os pilares da literatura nacional, criando a União dos Escritores Angolanos, os seus mentores olhavam já para o futuro. E isso está reflectido nos fins dessa primeira instituição de carácter sociocultural criada na Angola pós independente. Talvez esse facto tenha permitido que o primeiro governo de Angola fosse formado com uma forte base de escritores, começando pelo presidente da Mesa da Assembleia Geral da UEA, o também primeiro presidente de Angola, o poeta Agostinho Neto.

A UEA defendia já uma baliza para a tão polemizada ideia de escritor. Nos seus estatutos, referia-se que são considerados escritores apenas os autores de textos e obras de pura criação literária e os autores de quaisquer outros textos ou obras que, pela sua originalidade de concepção ou virtudes de estilo, possuam apreciáveis características literárias.

É este um assunto actual na nossa sociedade, que se encontra no centro das discussões desde o ponto de vista puramente estético ao linguístico, passando pelo semântico e atingindo mesmo os teóricos da literatura. Resumidamente, herdamos das direcções anteriores os seguintes desafios:

-Promover a defesa da cultura angolana como património da nação.

-Estimular os trabalhos tendentes a aprofundar o estudo das tradições culturais do povo angolano. -Incentivar a criação literária dos seus membros, nomeadamente proporcionar-lhes condições ao seu trabalho intelectual e à difusão das suas obras.

-Propiciar a revelação de novos escritores, orientando os seus esforços e dando-lhes o necessário apoio.

-E fortalecer os laços com a literatura e as artes dos outros povos africanos e do mundo.

JC – Que União dos Escritores se pode esperar daqui há mais dez anos? Ou seja, qual é o sonho de União dos Escritores da actual direcção?

CN – Neste capítulo, vale lembrar que Agostinho Neto, no papel de primeiro presidente de uma República recém criada e de Presidente da Mesa da Assembleia Geral da União dos Escritores Angolanos, entre as várias preocupações que carregava havia a da criação de condições objectivas para que o escritor pudesse produzir, como deixou patente no seu pronunciamento no dia 8 de Janeiro de 1976.

E passo a citar: – ” Sugiro aos caros camaradas e colegas que sejam aproveitadas no máximo as condições para que os escritores trabalhem e produzam e observem cada canto do espaço geográfico nacional, vivendo a vida do povo.

Livraria da UEA. (Foto: D.R.)
Livraria da UEA.
(Foto: D.R.)

As condições materiais serão sempre criadas na medida do possível, até que possamos fazer do escritor, do artista, um profissional puro da cultura, ligado à realidade sócio-política”. Actualmente, com mais de cem membros assumimos o legado da primeira associação criada na Angola independente e a primeira a realizar um acto democrático no nosso jovem país, nascido a 11 de Novembro de 1975, consignado na eleição do seu corpo directivo.

A UEA tem tido um papel fundamental no desenvolvimento cultural e intelectual de Angola, sobretudo no campo literário. Neste contexto, estou a ver daqui há dez anos uma UEA a proporcionar melhores condições, favoráveis a actividade intelectual dos seus membros, difundindo cada vez mais as suas obras, promovendo eventos como congressos, reuniões de escritores e outras manifestações de carácter cultural, a fim de elevar o nível literário e artístico dos escritores, bem como incrementando laços com instituições semelhantes de todos os povos do mundo.

JC – Há metas ou projectos por conquistar que mereçam destaque?

CN – Temos a livraria da União dos Escritores Angolanos, onde constam todos os livros por nós editados e outros publicados pela Texto Editores (Leya) e outras. Foi construída com o apoio da Somague e da Texto Editores. É nossa propriedade exclusiva. Funciona muito bem há sensivelmente seis (6) meses. Termos conseguido transformar o prémio literário “Quem Me Dera Ser Onda” num evento nacional, com regulamento presente nas mais recônditas escolas do país. É na verdade algo significativo. De realçar aqui a prestimosa parceria do Ministério da Educação, que promove o concurso através dos professores de Língua Portuguesa e o patrocínio da Fundação Sol, que garante o apoio financeiro.

Durante o ano lectivo transacto foi segundo classificado um estudante da Lunda Norte. E o conto do primeiro classificado será inserido no texto escolar nos próximos anos lectivos, assim como da vencedora da primeira edição do concurso. Próximo mês apresentaremos publicamente o projecto imobiliário da União dos Escritores Angolanos na nossa sede. A apresentação será feita pelo nosso parceiro, Banco Internacional de Crédito.

Consta do projecto, entre outros espaços, uma biblioteca e uma sala multiuso (semelhante ao Cine Nacional) que servirá tanto para conferências, actividades artísticas, culturais e outros eventos. De realçar que o espaço físico habitual manter-se-á intocável. Estamos a trabalhar na exequibilidade de contratos de venda de livros da UEA nalgumas universidades brasileiras (já temos algumas propostas concretas). Porque a maior parte dos títulos são editados no Brasil, bem como a realização de eventos diversos, facto que levaremos também para universidades africanas do Senegal, Congos, Nigéria e outros continentes que pretendemos alcançá-los através de um editor americano. Antes do final do trimestre do próximo ano, lançaremos antologias de prosa e poesia de escritores angolanos em alusão aos quarenta anos da nossa independência.

JC – Internacionalizar um livro, no fundo, acaba sendo internacionalizar uma cultura, uma visão de uma época, um país. Como estamos neste domínio? E dos passos dados, a um feedback de como a tradução de autores angolanos tem ajudado a melhorar a visão estrangeira deste país que é Angola?

CN – Esta questão faz-me recordar uma pergunta ao escritor António Quino feita pelo jornalista de um canal televisivo português, a propósito do lançamento da sua obra”República do Vírus”, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no dia 11 de Novembro, quando impressionado com conteúdo reconhecia e indagava que a matéria deixava depreender que só podia ser escrito num país que respeita a liberdade!…

Uma outra situação aconteceu quando um estudante da mesma instituição inquiriu-me, surpreendido pelo facto de estar a ver uma revista editada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com entrevistas a quarenta escritores angolanos, em alusão aos quarenta anos da nossa independência. Com cara de espanto e admiração, indagou-me a saber onde andavam os escritores angolanos!…

Respondi que a maioria vive em Angola e que paulatinamente irá conhecê-los, através desta parceria entre a UEA e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. De acrescentar a este facto a expressão de aplauso ao projecto, por parte dos estudantes e dos professores onde se destacam as professoras Ana Mafalda, Paula Tavares e a incansável professora Margarida Reis, Helena Buescu, bem como o incansável director da faculdade, Dr. Paulo Alberti.

Surpreendentemente, também ficamos com a receptividade da direcção da Universidade de Braga, que clama por mais livros de escritores angolanos, quando oferecemos alguns títulos durante o mês de Novembro transacto. Na Alemanha, no habitual Festival de Frankfurt, a escritora Sonia Gomes surpreendeu agradavelmente o público com a leitura em alemão do primeiro capítulo do seu livro,”A filha do general”.

A antologia angolana em alemão elaborada pela senhora Bárbara Mesquita, apresentada já na Alemanha, será brevemente colocada à disposição do público português, em Lisboa, no Instituto Goethe, no dia 2 de Março de 2016. Será também editada em português. Aguardo pela confirmação dos efeitos das nossas antologias traduzidas em inglês, árabe, francês, italiano, alemão e espanhol, integradas no decurso do ano em que finda no evento “Literatura-Mundo”, que circulou pelas principais capitais europeias, tendo encerrado em Nova York.

JC – Itália e Alemanha têm dado por via da UEA sinais sólidos do seu interesse pela literatura angolana. Que pontes de livros, eventos literários e escritores podem estar em agenda no domínio da diplomacia cultural?

CN – A Itália, com a institucionalização da Cátedra Agostinho Neto na Universidade Tre, uma iniciativa da União dos Escritores Angolanos em parceria com a Fundação Agostinho Neto, sistematizou o estudo da literatura angolana, sendo nossa obrigação indicar todos os anos um professor de literatura angolana para leccionar.

O candidato é aceite em concordância com a Fundação Agostinho Neto, se possuir currículo académico comprovado. O transporte é pago pela UEA e a estadia e acomodação de cerca de dois meses são da responsabilidade da referida instituição. Já lá esteve durante o presente ano lectivo o professor António Quino.

Seguirá para o próximo ano lectivo o professor Manuel Muanza. Com Alemanha caminhamos para o mesmo sentido. Estiveram cá, em Angola, algumas estudantes alemães(uma delas filha de um angolano e uma alemã e aproveitou a ocasião para matar saudades do pai que há muito não via!…).

Conversaram com alguns escritores. Levaram as suas obras. Já há alguns sinais positivos. Aguardemos pelos resultados. Agora, sobre os escritores que devem estar na agenda da diplomacia cultural, certamente aqueles cujas obras venham a ser ou são melhor reconhecidas em determinados países. Por exemplo, há quem diga que não gostou do livro “A Filha do General”, de Sónia Gomes, mas só com a leitura do seu primeiro capítulo em alemão o público presente em Berlim vibrou.

Houve quem dissesse que o livro”República do Vírus” do António Quino não prometia, mas a apresentadora da obra, também poeta, Ana Paula Tavares, adorou, assim como os estudantes de Letras da Universidade de Lisboa. Quanto a apresentação cá em Luanda, no Instituto Camões, feita por uma angolana – respeitável professora de literatura – que considerou uma revelação ímpar de referência. Está logo a ver que fica difícil ao secretário geral às vezes predeterminar nomes e obras, com excepção dos nomes já consagradíssimos…

JC – Fala-se na diversificação da economia, incluindo nesta área o desafio de fazer da cultura um meio de fomento, e nas letras precisamente com o mercado livreiro e editorial, apesar do paradoxo do baixíssimo índice de leitura. Como a UEA pensa reagir a este repto? Que possíveis empecilhos? Que opinião a respeito?

CN – Ensinar a ler e a escrever é função primária dos governos. Porque sozinhos não satisfazem as necessidades da população, nem cumprem integralmente com as suas atribuições. São por esta razão chamadas as associações para complementarem as acções estaduais.

A nossa vocação é essencialmente complementar a actividade do Estado no domínio cultural, particularmente o literário, no que diz respeito, sobretudo, a lavra da estética e domínio da palavra. Embora saibamos todos que o domínio da riqueza inicie com o gosto a leitura. Creio que o concurso literário ” Quem Me Dera Ser Onda”, porque é essencialmente destinado a uma faixa etária dos 13 aos 17 anos de idade, já ajuda, assim como outros concursos literários.

A solução do Estado deve também passar pela institucionalização do Plano Nacional de Leitura, cuja execução deverá preestabelecer, antes, um acordo entre parceiros tais como a UEA e outras instituições semelhantes. Será bom não esquecer edificar livrarias nos espaços residenciais como Kilamba e outros condomínios, assim como bairros que deveriam todos possuírem uma ou duas livrarias.

Por cada ano lectivo os estudantes deveriam ser obrigados a ler vários livros a contar para as notas finais. Enfim, há uma série de iniciativas que se poderiam já implementar, tal subvencionar o preço do livro.

JC – Já a UEA sendo uma editora, qual a importância da fusão com a Texto Editores?

CN – A Texto Editores é uma das editoras do grupo Leya. Quer dizer, a parceria e não fusão com a Texto Editores permite que o livro do escritor nestas condições circule pela Europa (Portugal) e outros países de língua oficial portuguesa onde a Leya está presente. Assim chegamos nalgumas livrarias portuguesas sem custos financeiros para a UEA e com indispensáveis vantagens para o autor, porque aliamos a este desempenho a promoção e divulgação da obra, contando para o efeito com os meios necessários como as instituições académicas e órgãos de comunicação social.

Estamos, por conseguinte, a realizar um dos nossos objectivos: promoção e divulgação da literatura angolana. Estamos também a trabalhar com a editora Letras no que diz respeito a reedição de obras cujos textos estão inseridos no sistema escolar.

Este procedimento permitiu que vinte e cinco títulos de autores, muito procurados pelos estudantes, fossem co-editados. Uma outra vantagem na parceria com as duas editoras é que a nossa responsabilidade financeira tem a ver apenas com os custos da revisão e selecção das obras.

JC – Como estão as representações provinciais da UEA?

CN – É dos mais antigos projectos que encontrei na UEA e que terá agora solução com as novas construções que estão a ser erguidas nas províncias. (cultura)

Por: Matadi Makola

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