BBC evita termo “terrorista”. Reino Unido reage com ira

A BBC evita usar a palavra "terrorista" quando se refere ao Estado Islâmico (DN)

Emissora pública britânica diz que a palavra retira imparcialidade, mas o Parlamento pede mudança na linha editorial. Martim Cabral, Paulo Dentinho e Estrela Serrano comentam

“São terroristas”, defende o Parlamento britânico. “São militantes”, contraria a BBC. “São assassinos de sangue frio”, voltam a frisar os deputados. A estação pública britânica insiste: “Não há consenso no que constitui um terrorista ou um ato de terrorismo. O uso da palavra envolve um juízo de valor.”

O debate é longo, exaustivo, e, nesta semana, esteve mais aceso do que nunca no Reino Unido. Perante as recentes ações do Estado Islâmico (EI), a BBC tem recorrido a uma velha política editorial que, apesar de não banir o uso do termo “terrorista”, pede aos jornalistas que o evitem. Estes devem, por isso, usar palavras como “bombista”, “atacante”, “guerrilheiro”, “sequestrador” ou “militante”, quando se referem a elementos do Estado Islâmico.

Em declarações ao DN, um porta-voz da BBC sublinha: “Temos a certeza de que o público britânico não duvida, com base na nossa cobertura, de que esta é uma organização criminosa. A BBC compromete-se com a democracia e a nossa história mostra-o. O nosso objetivo é relatar os acontecimentos de forma rigorosa e usar os termos apropriados para o fazer.”

Todos os argumentos foram apresentados, mas os membros do Parlamento britânico insistem numa mudança de linha editorial. “Deus nos ajude se a BBC, enquanto emissora pública, não consegue descrever as coisas como elas são. Será que não querem ofender os terroristas do EI? Incrível”, lamenta o deputado John Mann, em declarações ao jornal Daily Mail. “Militantes é o que se chama a grevistas. A BBC não quer fazer julgamentos, mas estas pessoas estão dispostas a dar a volta ao mundo para matar a sangue-frio”, reforça o conservador Andrew Bridgen.

Opinião em Portugal

Martim Cabral, subdiretor de informação da SIC, começou o percurso jornalístico precisamente na BBC. E recorda: “Há 30 anos, quando eu lá estava, já havia essa política. Por exemplo, nós não chamávamos “terroristas” aos líderes dos movimentos de libertação africanos. Eram os “lutadores pela liberdade”. Essa linha editorial é antiquíssima e acho que faz sentido. Aprendi a funcionar assim e nunca precisei de usar a palavra “terrorista” para fazer jornalismo”, sublinha o apresentador de Sociedade das Nações, SIC Notícias. Por esse motivo, e apesar da pressão política, Martim prevê que “a BBC mantenha a mesma posição de sempre”.

A estação pública portuguesa também sabe o que é estar sob fogo, embora nunca por motivos semelhantes. Paulo Dentinho, diretor de informação da RTP, explica ao DN que, nesta questão específica, canal tem uma posição distinta da da BBC. “A RTP tem uma linha editorial da mais profunda liberdade. Mas liberdade rima com responsabilidade. Aquilo que queremos é fazer jornalismo livre e responsável.”

O profissional defende que, “no caso específico do Estado Islâmico, usar o termo “terrorista” não é, de todo, chocante”. “Estamos diante de uma organização com uma ideologia totalitária, que desafia a liberdade humana e usa a violência física e psicológica para incutir medo às suas vítimas. Para descrever ataques como o de Paris, uma cidade onde eu vivi durante anos, o uso do termo não me repugna nada”, diz, frisando que “ser imparcial não é fácil num caso destes”. “Considero muito difícil tentar encontrar um diálogo com alguém que me quer destruir. O ser imparcial é uma estrada com dois sentidos. Por exemplo, com Kadhafi [ex-ditador líbio], apesar dos constrangimentos, eu consegui lá ir e fazer jornalismo. No Estado Islâmico, se eu vou já não volto”, sublinha.

Estrela Serrano, do Conselho Regulador da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), considera que “a posição da BBC, no momento em que é tomada, é desadequada”. E explica: “Se uma pessoa se faz explodir para matar inocentes, por motivos religiosos, políticos, ou outros, cabe na noção de terrorista. Outra coisa é a generalização do termo a um povo inteiro, e essa deve ser evitada.” E esclarece que respeita a política da emissora. “O escrúpulo da BBC compreende-se à luz do rigor que se exige ao serviço público de televisão e, por isso, não critico que o caso seja discutido. Critico sim a proibição do uso do termo “terrorismo”. Considero-a excessiva e desadequada”, conclui. (DN)

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