Vem aí o renminbi chinês e o dólar parece ter os dias contados

(Foto: D.R.)
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Num futuro muito próximo, o renmibi (yuan) chinês poderá substituir o dólar norte-americano como principal moeda de transacção global? A resposta de muitos especialistas é sim, e a China trabalha afincadamente há muito tempo para alcançar esse objectivo.

Parece uma evidência que se está a assistir ao surgimento de uma nova ordem monetária que porá fim à criada em Bretton Woods, no pós-guerra e que concedeu ao dólar norte-americano o domínio global de que ainda hoje goza.

A saída de cena do dólar como principal moeda global não será instantânea, mas o seu definhamento parece inexorável. Numa primeira fase, provavelmente, serão constituídos blocos: uma zona dólar, outra do renminbi/yuan, partilhada pelos BRICS, e uma da zona euro, se esta entretanto não implodir. O resultado final será trágico para os EUA, que assistirão ao repatriamento da sua moeda por reduzida utilização planetária e com elevados custos inflacionários domésticos.

Assim, caso não se volte a utilizar o ouro como padrão monetário internacional, será o euro ou a moeda chinesa a ocupar em breve o lugar do dólar norte-americano como moeda de referência no comércio global. Mas, à medida que a China se consolida como a segunda maior economia global, a sua moeda, o renminbi começa a obter maior reconhecimento internacional como meio seguro de pagamento, pelo menos no que respeita a trocas comerciais bilaterais. Em termos gerais, não parece que o dólar possa vir a ser derrubado de imediato, considerou num estudo Dick Bove, o vice-presidente da Rafferty Capital Markets.

“Mas vai ser, e isso pode ocorrer num curto período de cinco a dez anos”. Talvez por isso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) admita apoiar a inclusão do renminbi no seu cabaz de direitos de saque especial – SDR, na sigla inglesa, de títulos emitidos pela instituição que funcionam como um activo de reserva internacional para complementar reservas oficiais dos países- membros. Actualmente os SDR são compostos por quatro moedas – dólar, euro, libra e iene.

A inclusão da moeda chinesa no cabaz do FMI visa prevenir eventuais efeitos de um inesperado colapso da zona euro e atenuar os problemas da desvalorização do dólar devido ao desequilíbrio fiscal dos Estados Unidos. O porta-voz do FMI, Gerry Rice, confirmou que o assunto está na agenda da organização e que uma decisão deverá ser tomada ainda este mês. Por seu lado, o secretário do Tesouro norte-americano, Jack Lew, disse à margem da reunião do G-20, na Turquia, que apoiaria a inclusão do yuan no cabaz de divisas do FMI, se a moeda chinesa cumprir os critérios exigidos.

Sexta moeda mais usada em 2014

O último relatório do Banco da China sobre a internacionalização do renminbi afirma que esta moeda é o 5.º meio de pagamento mais utilizado internacionalmente, e foi a 6.ª moeda mais transaccionada em 2014. Actualmente, o renminbi não é uma divisa de reserva internacional e também não é totalmente convertível em transacções de capital e no comércio global, mas na última década, graças a acordos de swap, a China já tem usado a sua moeda como meio de pagamento em trocas comerciais bilaterais com alguns dos seus parceiros.

Os acordos que a China já firmou com vários países permitem-lhe melhorar a eficiência das transacções internacionais da sua moeda, garantir importações através desse meio de pagamento, a menor custo, e a expansão das exportações das suas mercadorias, garantindo um maior crescimento da sua economia e criação de mais postos de trabalho.

Os incentivos da China para que os seus parceiros comerciais utilizem a sua moeda já começaram a dar resultados. A aceitação do renminbi como reserva de valor por bancos centrais espalhados pelo mundo foi uma primeira importante etapa no processo de internacionalização da moeda chinesa. Países como o Brasil, Chile, Nigéria, Tailândia e Venezuela usam o renminbi na composição dos seus cabazes de reservas em divisas.

Acordo com Angola

Actualmente, mais de mil instituições financeiras internacionais negoceiam com a moeda chinesa. Um dos países que já manifestaram interesse na utilização do renminbi nas suas trocas comerciais foi Angola. Diogo Gomes Araújo, da Porto Business School, considera que o acordo permitirá adequar a economia angolana ao yuan. “Com a assinatura desse acordo monetário, as trocas comerciais entre os dois países passariam a ser reflectidas na moeda chinesa, que teria livre circulação em Angola. Por outro lado, os futuros empréstimos que a China conceder a Angola deixam de ser feitos em dólares americanos, passando directamente para a moeda chinesa”, sublinha.

Os bancos centrais de Angola e da China estão a acertar os pormenores de um acordo que permita o uso das moedas nacionais de ambos os países nas trocas comerciais bilaterais. O economista diz que ter o RMB como moeda internacional poderá ter algumas vantagens, evitando- se a compra de dólares ou euros para tratar das compras entre angolanos e chineses. Mas alerta para o facto de passar a haver um risco novo, que o BNA terá de gerir com cautela na gestão de saldos das suas reservas em diferentes moedas, sendo fundamental que não adquira mais RMB do que os que precisa. (expansao.ao)

Por: Sérgio Soares

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